Blog do Pedro Hauck: 2017

25 de maio de 2017

Prestação de contas da campanha de ajuda à Edson Struminski

Escalando com Dubois no Rio, ano de 2012

No começo deste ano, todos foram surpreendidos com a terrível notícia de que nosso amigo Edson Struminki, o Dubois, estava com uma terrível doença, um sarcoma na perna.

A doença se espalhou rapidamente e não houve tempo dele e sua família conseguirem o auxilio do SUS, o que fez com que eles fossem buscar auxilio com médicos particulares. Cada dose de quimioterapia custava 12 mil reais, um valor muito elevado para um brasileiro comum.

Diante deste dramático problema, diversos amigos fizeram de tudo para ajudar Dubois financeiramente para pagar seu tratamento. De minha parte realizei 3 sorteios de produtos doados por empresas do meio de montanhismo.

Infelizmente Edson faleceu durante a realização da terceira rifa.

No total consegui através desta ação a doação de R$8228.35

Abaixo tenho todos os comprovantes de pagamentos que realizei em sua conta e no ultimo na conta de sua mulher, a Miriam.

Agradeço a todos que participaram da rifa, comprando os números e divulgando a ação. Agradeço bastante as empresas que ajudaram doando produtos: Conquista Montanhismo, Alto Estilo, Alpamayo, Globalstar (Spot Brasil), Go Live. Ao site AltaMontanha pela divulgação, à loja AltaMontanha que arcou com os custos de envio das mercadorias.





17 de maio de 2017

Vias em móvel no setor Sétimo Dia, Anhangava

Sempre olhei para o setor da Sétimo Dia no Anhangava achando que havia muita parede para pouca via. Trata-se de uma parede de cerca de 30 metros lateral que tinha apenas a própria Sétimo dia e a Peón equipada.

Há pouco mais de um mês, o escalador Ingo e amigos equipou outra linha, que era uma escalada em solo, a "Diversão Garantida". A via é uma escalada mista, um estilo raro no morro que tem praticamente vias fixas. Esta nova via ganhou uma parada própria e isso permitiu uma nova possibilidade.

Neste final de semana escalei a Diversão Garantida com a Maria Tereza e no rapel percebi que poderia escalar outra linha mais à esquerda. Desci até o platô da Sétimo Dia e escalei em top esta linha. Percebi que havia muitos locais para proteger em móvel. 

Mais tarde encontrei o Roniel, Mengue e o Navarro e comentei sobre esta escalada. Eles me disseram da possibilidade de fazer a Sétimo Dia em Móvel evitando o teto inicial. Isso seria uma quarta linha naquela parede (que eu não sabia que existia) que termina na parada da Sétimo Dia. No entanto não era isso o que eu estava falando, pois a outra linha termina na nova parada daquela parede.

Roniel estava com suas peças. Então o convidei para voltar ao setor e escalar a linha sacando os móveis. Foi o que fizemos. A via fica na direita da Sétimo Dia em móvel e na esquerda da Diversão Garantida. Esta linha apenas utiliza a ultima chapa da Diversão e sua parada e ela começa na laca grande, saindo da base da Sétimo Dia. É possível proteger ela inteira com peças pequenas e quem quiser "treinar" antes, é possível fazer em top.

Com isso, o setor da Sétimo Dia, de muita parede com pouca via. Apenas com a instalação da Parada da Diversão, ganhou inúmeras possibilidades de escalada em móvel. Ela é de fato uma bela parede com muitas vias: São 5, tirando as possibilidades de top rope e solo (ver ultima foto).

O Morro mostra sua vocação de escola. Reunindo inúmeros estilos num lugar só. E a gente que achava que não havia lá local para escalar em móvel, Havia uma via que ninguém sabia que havia. Para repetir esta linha, é necessário peças pequenas e médias. Camalot 0.2, 0.5, 0.7 e 1. 

Não estou afirmando que conquistamos a linha. No entanto após questionar sobre ela para diversos escaladores (Julio Nogueira, Chiquinho, Bonga e os já citados), ninguém sabia o nome e se ela havia sido escalado nesta maneira (sabemos que por ali muita gente escalava transversalmente em solo da Peón até a Sétimo Dia). Se alguém souber o nome avisa. Vale a pena repetir!

* As fotos são de Roniel Fonseca

Começo da escalada. É possível proteger com um camalot n. 1 local no começo.

Escalando logo após a primeira proteção.

Local onde é possível colocar uma segunda peça.

Local onde se pode colocar uma terceira peça. 

Uma visão geral onde se tem noção pode onde se escala.

Com Roniel no fim da via a parada da Diversão Garantida.
As vias do setor Sétimo Dia (fora a possibilidade de vias em top rope: 1) Sétimo Dia, VIsup, 2) Sétimo Dia em Móvel, VI sup(?), 3) Via em móvel (nome?), V, 4) Diversão Garantida, V, 5) Peón, IIIsup. 

14 de maio de 2017

Fim da expedição ao Nepal

Evidentemente cansado após ter aproximado e escalado o Mera Peak tão rápido, passo uma noite apagado em Khare.

O dia seguinte amanhece claro, mas cheio de neve no chão. Neste dia começamos nosso retorno, indo até Khote, onde chegamos debaixo de uma forte nevasca.

Lá neste pitoresco vilarejo tomo um banho depois de 10 dias. Este banho foi dentro de uma casinha de madeira, com um balde de 10 litros de água quente que tinha uma torneirinha. Foi rápido, mas muito bom para limpar também a alma.

No dia seguinte fomos até um lodge um pouco antes do passo Zatrwa. As condições de tempo, com chuva e neve, nos fizeram ficar ali, mesmo chegando cedo. Aproveitei para finalizar um livro e secar roupas ao lado de um aquecedor a lenha. Tirando a meia, vejo meu pé descascando inteiro, que não estava no dia anterior quando tomei banho. Será que lá eu peguei um fungo no pé?

Muito cedo no dia seguinte, conseguimos atravessar o passo e lá é apenas uma longa descida de 1700 metros de desnível até Luckla. Cansado vamos chegar em nosso destino apenas no meio da tarde.
Nos hospedamos no hotel do aeroporto e o dono consegue manejar a passagem sem custo. Assim conseguimos remarcar o vôo para o dia seguinte.

Novamente acordamos super cedo. Logo estávamos no aeroporto, que mesmo pequeno tem suas regras de aeroporto. Com as botas rígidas no pé e roupa pesada no corpo, consigo passar sem precisar de pagar excesso de bagagem. Mas o tempo estava ruim em Kathmandu, somos obrigados a esperar.
Um vôo antes do nosso decola, mas volta meia hora depois. Isso preocupa. No entanto um avião de nossa empresa pousa na pequena pista. Logo, somos chamados a embarcar.

A pequena aeronave bimotor imbica na cabeceira. Acelera na pista que é inclinada rumo a um grande precipício e antes que comece a cair no profundo vale começa a planar e ganhar altura. O aeroporto de Lukla sempre te reserva algumas emoções.

O visual das montanhas desaparece quando entramos no meio de uma chuva. Ao passar por ela a paisagem verde passa a estar recoberta por neve.

A paisagem pré Himalaia é composta por morros arredondados e vales profundos. Há casinhas, pastos, plantações e florestas. Num relevo tão escarpado e com solos, é difícil construir estradas, que aparecem esporadicamente rasgando as vertentes em forma de caracóis, sempre seguida de grandes erosões. Somente bons 4x4 para passar por estes lugares. Isso sem falar que são caracóis para subir e descer e no fundo de vale há sempre um rio bastante movimentado, cruzados por pontes precárias ou mesmo sem ponte alguma. É por isso que o transporte ali é feito por trilha. Construir e manter uma rodovia neste relevo é muito caro.

Em pouco tempo as casinhas esparsas se aglomeram e passamos a sobrevoar Kathmandu. Um estopido e o trem de pouso é acionado e rapidamente o bimotor toca o solo, o que faz que os passageiros aplaudissem o piloto.

Kathmandu está debaixo de uma chuva monsônica, tivemos sorte em voar.

Retiramos nossa bagagem e tomamos um táxi para Thamel, a "Batel" de Kathmandu onde iria me hospedar. Fiquei no mesmo hotel da ida, paguei um almoço ao fiel Tendu e desejei-lhe sorte. Ele ficaria mais alguns dias numa hospedagem procurando outro trabalho nas agências do bairro.

Com minha passagem marcada para dali 9 dias, eu tinha que resolver minha vida. Também trocar de hotel para um mais barato.

Gastei todo o primeiro dia em Kathmandu arrumando meus duffels. Maximo havia deixado pra trás bastante coisa para eu levar ao Brasil. Tive que comprar outra bolsa marinheira para acomodar tudo é esquecer o plano de levar alguns presentes, pois as duas malas excediam em muito o peso e o volume de uma bagagem normal.

Com a indicação do Felipe "Dawa" Diniz, fui me hospedar num hostel cinco vezes mais barato que o hotel e uma vez instalado fui dar uma banda na cidade.

Na primeira caminhada, fazia calor e como sempre a poeira levantava do chão.  Vendedores, pedintes, traficantes de drogas e golpistas me assediavam. Porém, depois de tanta caminhada já não tava afim de aguentar aquilo tudo.

O estopim aconteceu quando sai do hostel certa manhã e fui abordada por uma mulher hindu com uma criança. Ele veio me pedir ajuda. Não estava muito bem humorado e ela começou a insistir. Disse que não tinha dinheiro, mas ela falou que não queria dinheiro, queria leite para a criança e me indicou onde eu poderia comprar.

Entrei numa birosca e ela apontou para uma caixa de leite em pó. Perguntei ao senhor dono da venda quanto custava. Ela imediatamente colocou o leite embaixo do braço enquanto o homem numa calculadora digitou o valor: 1800 rupias, que dá cerca de 18 dólares!

Na hora disse que não é caí fora. Golpe! 

A mesma mulher tentou no dia seguinte fazer a mesma coisa comigo, esquecendo do dia anterior. Olhei feio pra ela e continuei meu caminho. Golpista salafrária. Usa uma criança para tomar dinheiro dos turistas.


Claro que Kathmandu tem coisas legais e gente legal. Neste tempo na volta fiz amizade com o dono de um restaurante que virei cliente, porém não é todo dia que você quer lidar com a malandragem nas ruas. Com tanta coisa a fazer no Brasil, grana curta e sozinho, decidi antecipar meu vôo e deixar para outra oportunidade de conhecer melhor os atrativos do vale de Kathmandu.

Estava na hora de voltar pra casa.

Tendu e eu em Khare
Tendu aguardando o voo no aeroporto de Luckla.
Aguardando a hora de embarcar.
Homens santos em Kathmandu
Ruas de Thamel.

Enfim cume no Mera Peak

À noite Tengba veio me contar como seria nossa escalada. Acordaríamos à 1 da manhã para sair para o cume às 2.

Na verdade já havia ouvido isso do guia do outro grupo, ou seja, era algo "standard". Mesmo eu tendo chego no campo alto em apenas 4 horas a partir de khare, o que grupos normais levam o dobro de tempo e ainda considerando que havia iniciado a caminhada em Tangnak, ele decidiu seguir as regras comuns. Tentei falar com ele sobre a estratégia sem contrariá-lo, mas para não ficar chato aceitei.

Acordei à 1 da manhã sem que chamassem, apenas com o barulho do outro grupo. Me arrumei e fui na barraca refeitório. Fazia muito frio.

Me serviram um chá pelando e um mingau que neguei. Não queria vomitar. Odeio mingau.

Encontro Tengba no meio da confusão e aviso que estou pronto, ele vem com uma corda e começamos a caminhada montanha acima.

Logo nos 30 minutos iniciais passamos todo mundo e já não há lanterninhas acima de nós. Tengba para algum vezes em gretas e com o piolet deixa elas abertas para sinalizar para quem vem.

As gretas eram pequenas, nem me preocuparia com elas. Porém o que era preocupante era o frio. Meu deus que frio!

Comecei a me incomodar com os pés. Me questionava porque não comprei as meias Alta Montanha da Makalu na loja e deixei elas esgotar. Também sentia frio nas pernas e era difícil não pensar em outra coisa.

Olha pra trás e as lanternas estão muito distante. Então digo para o Sherpa que ele desacelere, pois senão chegaríamos no cume de noite. Ah que raiva, porque não insisti para sair mais tarde. Estava morrendo de frio e ainda poderia ter a decepção de chegar no topo antes do sol nascer.

Nos cursos de escalada em gelo e alta montanha que ministro na Bolívia sempre falo aos alunos que é necessário vencer a madrugada. Agora sou a dizer isso em meu interior.

O frio sugou minha energia. Se antes tive que dizer à Tengba para desacelerar, agora nem precisa mais. Naturalmente virei uma lesma tonta. Nem olho para o lado. Apenas tento seguir um ritmo mínimo de caminhada.

O dia vai amanhecendo lentamente. Paro para guardar a lanterna e pegar os óculos.  A bandeira do Nepal que Tendu me deu voou e a esperada adição de energia do sol não vem. Uma brisa congelante impede que me aqueça. Sem opção vou caminhando.

Olho para cima e vejo um cume. Ele não é o verdadeiro. Vencemos este ressalto e já posso ver os dois cumes da montanha. Pergunto qual é o verdadeiro e o Sherpa me aponta para a esquerda. É pra lá que vamos. Insisto na pergunta

_Are you sure that one is the higher?
_Yes Sir, that's the highest...

Vamos nos aproximando e o cume vai ficando mais íngreme, até que no final ele tem uma pequena parede, facilmente escalável, porém, como uma mãe, Tengba sola na frente e fixa uma corda.
É aí que eu entendo pra quê daquele jumar.


Subo jumareando o trecho final e rapidamente estou no cume.

Tiro a câmera para fazer uma foto, mas ela está congelada. Consigo fazer algumas imagens com o celular, que não focaliza. Perco a chance de fazer uma bela fora de 5 montanhas de 8 mil metros que estavam na minha frente: Cho Oyo, Everest, Lhotse, Makalu e Kangchenjunga.  A imagem ficará guardada em minha memória.

Rapelo o trecho de corda fixa e logo fico protegido do vento congelante. Consigo até gravar um vídeo.

A descida foi bem tranquila, me aqueço e retomo minhas energias. Chegamos ao campo alto em apenas 2 horas. De lá são 4 até Khare, pois preciso parar muitas vezes por conta da dor terrível que tenho ao usar por muito tempo botas rígidas. Uma herança de tanta experiência escalando alta montanha foi o facinte plantar, uma dor terrível na palma dos pés provocado pelas botas duplas.

Tendu me espera no restaurante. Lá todos já sabiam de minha história, mas sabe  como é gringo, eles nunca falam com estranhos e querem saber de você.  Eles ficam horas a fio sentados lendo livros. Mal sabiam que este seria o último dia de tempo bom por muito tempo.

Vou dormir com uma grande nevasca despencando do céu. 

Fiquei com uma pulga atrás da orelha e mais tarde, pelo mapa, consegui identificar o que fiz. De fato, Tengba não me levou ao cume Norte, apenas no Central, que é cerca de 30 metros menor. Fiquei bem decepcionado, pois suspeitava que aquele não era o cume principal. Chegamos lá super cedo e poderíamos ter feito o cume verdadeiro sem problemas e com sobra de tempo. Uma pena.

Trecho final do Mera Central
Everest Visto do cume do Mera
Cume do Mera Central
Everest e Lhotse

10 de maio de 2017

Corrida contra o tempo, 4o dia do Mera Peak

Após conseguir conectar a internet em Tangnak pela primeira vez desde praticamente Phakding, pude ver a previsão de tempo. Não era muito animador, teria o próximo dia inteiro limpo e a manhã do outro dia. Após isso não havia nenhuma janela de bom tempo.

Foi preocupante! Demorei 19 anos para vir ao Himalaia e poderia perder minha primeira oportunidade de escalar por aqui por mau tempo. Seria muita falta de sorte...

Fui dormir super cedo com uma estratégia na cabeça: Chegar cedo em Khare, conhecer meu "climbing Sherpa" e convencê-lo de fazer o ataque ao cume no dia seguinte à partir do campo base.
Assim partimos Tendu e eu pela trilha acima logo após o café. Tendu anda bem mais rápido. Minhas passadas são curtas. Chego a ficar com raiva dele por termos andado tão pouco no primeiro e terceiro dia.

Muitas coisas vão passando por minha cabeça. Seria extremamente frustrante não conseguir escalar.
Após 2 horas caminhando chegamos em Dig Kharka. Tendu me esperava ao lado do refúgio. Quando chego ele me avisa que faltava mais um hora para Khare.

_Só isso!? Pensei....

Mas não tive tempo de reagir algo. Teríamos como ter chego ali no dia anterior. Porém não disse nada. Preferi caminhar para chegar mais rápido.

A trilha fica mais inclinada e ganhamos altura rapidamente. Mantenho a velocidade de caminhada da planície. Ando sempre igual, essa é uma característica minha.

Passamos por um sistema de lagos alpinos, vamos caminhando por uma encosta pedregosa até avistar umas casas com teto verde. Lá é Khare.

Tendu aperta o passo e quando chego ao vilarejo não o vejo. Sento numa escada de pedras para tomar fôlego e quando decido continuar adentrando a vila, o Sherpa sai de dentro de um restaurante e diz:

_Pedro Sir. Come here!

Entro na construção, belamente acabada em seu interior, com piso de madeira polida, mesas e cadeiras também bem acabadas. Havia uma máquina de café italiana e muitas opções de cafés. Não para meu bolso infelizmente.

No fundo Tendu e outro rapaz falavam sherpa. Só consigo entender algumas palavras como "high camp", "climbing".

No final ele me diz:

_ Pedro Sir, it's okay. They will find a climbing Sherpa for you. You just need to make your back pack. Is your equipment ok?

Fico feliz com a notícia e já peço um macarrão frito com legumes para dar energia para o que viria.
Meu "climbing Sherpa" aparece na sequência, vê minha bota,  cadeirinha, crampon e pede para que eu alugue alguns equipamentos, piolet, jumar, mosquetões um freio 8 e um cordelete de 7 mm.

Com isso ele construiu uma solteira e faz um cabo que se liga com o jumar. Tudo pronto é hora de partir. Ainda eram 11:30.

Fico extremamente feliz, pois minha expectativa era de pernoitar no campo base, que é a 5300 metros. Khare fica a 5 mil e o campo alto fica 5700!

Seria um grande esforço inicial, mas do campo alto, o cume que está a 6470 metros seria moleza! Porém ainda teria que chegar lá.

Com a bota rígida nos pés e muito mais leve, vamos ganhando altura e deixando Khare para trás. No Nepal é proibido escalar sem um sherpa, daí a necessidade de um climbing Sherpa, uma cara que teria que me guiar goste ou não.

Meu climbing Sherpa se chamava Tengba. Ele era rápido na caminhada e não falava bem inglês. Também não gostava muito de falar e nunca me chamou pelo nome, apenas de "sir".

Pelo menos não perdia tempo. Andava rápido e eu por sorte conseguia acompanha-lo também rapidamente.

_ Crampon place! Diz Tengba.

Antes que ele estivesse cramponado, já estava com meus pés no glaciar pela primeira vez no Himalaia.

_ Finalmente, pensei eu. Estou escalando!

O Mera é uma das montanhas de 6 mil mais populares do Nepal. Um grupo de montanhistas se enfileiravam mais para cima e no gelo havia uma marca de pisoteio, uma trilha no gelo.

Tengba e eu fomos subindo rapidamente, como se ele estivesse me testando. Vamos ultrapassando todos , até que num dado momento ele pára para me esperar e diz que o acampamento está próximo.  Olho para o relógio e vejo que ainda nem eram 15 horas. Ele diz:

_ You are fast!

Aproveito o comentário e digo que na próxima vez eu vou sair direto de Lukla. Ele sorri e depois diz que na frente para pegar uma barraca pra mim. Digo ok e como Sherpa ele vai voando montanha acima.

Chego no acampamento por volta das 15:30. O local é uma plataforma de rocha ao lado de um rochedo com alto grau de metamorfismo. Tengba já tinha reservado minha barraca e ele aponta aonde devo ficar.

Após me alojar, vou dar uma volta e conhecer a barraca refeitório, onde me dão suco quente e sopa de macarrão. Facilmente vou quebrando o gelo com os sherpas e eles vão me conhecendo como o "brasileiro rápido".

Aproveito para me hidratar. Afinal nesta viagem ainda não tinha estado há 5700 metros.  Aproveito para dar uma olhada na paisagem quando as nuvens deixam e assim consigo ver o Makalu, a quinta montanha mais alta do mundo.

Vou dormir tranquilo, mas tenho que urinar 9 vezes por causa do chá. Hidratar é um saco!

Mera Peak visto de Khare
Minha mochila com a bandeira do Nepal que o Tendu me deu.
Acampamento alto do Mera Peak.
Barraca refeitório do acampamento alto do Mera.
Mera Peak visto do Campo Alto.
Chamlang (direita) e na esquerda dele, atrás das nuvens, o Makalu

O vale do hakhu khola, 3o dia do Mera Peak

Tive uma excelente noite no lodge da floresta de Ginepros. Meu mapa está com os nomes errados e acho que a trilha também. Nele eu deveria estar em Tashing Ongma, mas não era esse o nome do local.

Após um ótimo café da manhã com omelete e pão tibetano, começo a caminhada pelo prazeroso bosque. O preço do jantar com café e hospedagem,  30 dinheiros verdes...

Dinheiro é algo que começa a me preocupar. Você pede água, custa. Pede chá, custa. A comida é mais cara que em Kathmandu e sempre tem imprevistos.

A trilha vai descendo sinuosamente. A beleza dos raios solares atravessando os pinheiros pela manhã é indescritível. Decido então fazer várias filmagens, o que toma um tempo. Porém minha câmera não filma e meu celular está com defeito. Ele não focaliza direito. Perdi muitas imagens bonitas. Ficarão gravadas somente na minha memória.

Enfim a trilha chega no leito do rio Hakhun Khola. Seu vale, no entanto, é bastante irregular. Ao invés de caminhar em seu leito, somos obrigados a andar numa encosta cheia de sobe e desce que termina exatamente na vila de Khote, onde chegamos exatamente duas horas depois de sair.

A vila de Khote é um bela vila Sherpa. Suas casas são de pedra com portas e janelas bem ornamentadas em madeira. Há lodges, restaurantes e vendas. Uma pena termos chegado tão cedo. Pois dá vontade de ficar.

Tendu, no entanto pára numa birosca e mostra meus documentos. Não disse que aqui é cheio de surpresas? Ali é um posto do Parque Nacional de Barun e eu como estrangeiro tenho que pagar 3400 rupias para passar, 34 doletas!

Dali pra frente a trilha é totalmente pelo leito do rio. Porém é um leito pedregoso, o que não é agradável. Mesmo assim dá pra andar bem mais rápido e assim vamos subindo o vale.

Em um certo momento avisto uma casa, chegando perto vejo 3 militares sentados ao redor de uma mesa com seus fuzis. Ele me cumprimentam quando passo. São 11 horas, uma boa hora para comer.
Peço macarrão frito com legumes, meu parto preferido na trilha, pois é barato, grande e bem energético. Os sherpas fritam o macarrão com os legumes numa frigideira e adicionam um molho levemente picante que fica delicioso. O preço para minha refeição e de Tendu: 900 rupias. Quase 10 doletas. Tô falando que esse negócio de dinheiro tá me deixando preocupado...

No almoço a mulher que nos serviu diz que estamos perto de Thangnak, o local que iríamos dormir. Porém as duas horas que nos separava de lá parecia tão pouco que pensei em subir mais 2 horas até Dig Kharka. Tendu não gostou da idéia, vamos ver.

Caminhamos menos de 40 minutos e já enxergo algumas construções. Seria lá Thangnak?  Tengdu não andava ali havia 3 anos e não soube me dizer. Nos aproximamos e quando vejo são construções inacabadas e um templo entalhado num rochedo, muito parecido ao famoso templo do Butão, mas bem menor.

Continuamos a caminhada, um grupo de carregadores nos acompanha de perto. Nuvens fecham o céu e já não consigo ver o Tangtsé, uma montanha piramidal que marcava o horizonte do vale o tempo todo.

Logo casinhas aparecem no horizonte e enfim entramos em Thangnak apenas às 13:30 da tarde. A vila não é tão charmosa como Khote, mas tem até um comércio e muitos lodges onde vejo gringos.

Chego até a discutir com Tendu para prosseguirmos, mas ele acha melhor ficar, pois se em Dig Kharka não tiver lugar, chegaríamos tarde em Khare. Decido acatar a decisão dele, contrariado.

Vendo pelo lado bom, o lodge em Thangnak é confortável, tem Internet por 5 doletas, o que tentarei mais tarde. Tem banho quente, o que não tentarei. Ficar a tarde aqui pode ser bom para eu descansar bem e chegar tranquilo em Khare na hora do almoço do dia seguinte.

Porém não deixo de ficar inquieto, pois não sei a previsão do tempo. Não conheci meu climbing Sherpa e sem isso não consigo tecer minhas estratégias de ascensão.

Agora estou muito perto de minha primeira montanha do Himalaia. Espero que o tempo e minha falta de dinheiro colabore.

Primeiro sol da manhã invade o lodge em Tashing Ongma
Primeira vista para o Mera Peak
Belo bosque de Ginepro
Vila de Khare
Entrada do Parque Nacional de Barun
Vista para o Tangtsé ou Kyashar
Local onde almoçamos
Vila de Tangnak

9 de maio de 2017

Cruzando o Zatrwa la Pass, 2o dia do Mera Peak

Ontem um antes de me recolher o tempo limpou e junto com as nuvens se foi meu pensamento negativo.

Até tinha motivos pra isso. Havíamos caminhado super pouco. O tempo estava horrível, não consegui me despedir da Maria e soube que durante o trekking e escalada do Mera, não conseguiria falar com ela e nem ter noticias de casa. Além disso Chutang estava longe de ser um local bacana.

Porém quando o céu limpou, consegui ver o Kongde, as estrelas e até apareceu uma família de yaks com filhotes para eu bisbilhotar. Mesmo assim fui dormir cedo.

Acordei as 5:30 da manhã naturalmente. Arrumei a mochila e um pouco depois Tendu acordou para tomarmos café. Comi um chapati com café solúvel e depois veio a conta. Contando o jantar, a hospedagem e o salário de Tendu, gastei logo no primeiro dia, convertendo para reais, R$100.00.

Comecei a caminhada sem pensar no dinheiro, mas é claro que isso é uma preocupação.  Além de Tendu, que é um trekking Sherpa, eu já paguei 500 usd para o climbing Sherpa que irá me acompanhar na escalada. Eu terei que pagar a alimentação de meu companheiro, uma permissão de trekking, o aluguel de uma barraca no Mera e gratificação para os 2 sherpas. Tudo isso vai me custar uns 1500 dólares, para fazer uma única montanha!

Mesmo que vc queira vir o maximo independente, não tem oque fazer.  Aqui é preciso pagar por tudo. Diga-se de passagem o preço da permissão para escalar um 6 mil é de 250 usd. Um 7 mil vai para 7 mil usd e um 8 mil nem se fala. Se for o Everest, prepare-se para vender sua casa e seu carro. Aqui estão as montanhas mais altas e também as mais caras do mundo.

Vamos subindo a trilha tranquilamente.  De tempo em tempos Tendu pergunta se minha mochila está pesada.  Ele nunca viu um gringo carregar tanta coisa e diz que a minha mochila é de Sherpa. 
Como guia de trekking Tendu está acostumado a ser uma mãe. Exatamente por isso o plano dele para a aproximação ao Mera é super conservador.  Por isso caminhamos tão pouco no dia anterior.

Após caminhar 30 minutos passamos por "upper" Chutang e o mesmo tempo depois passamos por outro vilarejo, já a 4 mil metros. Se eu soubesse que havia estas opções jamais teria parado em "lower" Chutang. Porém não disse nada a Tendu. Melhor deixar ele perceber sozinho com quem está andando.

Em pouco tempo atravessamos uma zona de floresta que vira uma Matinha Nebular como em nossa Serra do Mar. Aliás o tempo já começa a piorar e de fato somos envoltos por uma névoa.

Chegando nos campos de altitude, que tinham muitos manchões de neve. Cruzo pela primeira vez com ocidentais.  Era um casal de alemães que avisam que o passo está próximo.

Apesar de ser o segundo dia, este é o pior de todos. Chutang está a 3 mil metros, o passo de Zatrwa la está a 4700. São simplesmente 1700 metros de desnível  para subir e descer. Um ataque ao cume que no meu caso é feito com mochila cargueira nas costas. Mas não estou nem aí.

No meio da neblina consigo ver bandeirinhas de oração e no meio delas meu Sherpa avisa que chegamos no Passo.

Paramos para tirar foto e para comer um chocolate, afinal só a energia do chapati não é suficiente para 1700 metros de ascensão.

O tempo não melhora e continuamos nossa caminhada. No entanto, ao invés de descer continuamos a subir por mais uma hora, quando enfim chegamos a outro passo e de lá, enfim, começamos a descida.
Uma hora depois chegamos em Thuli kharka que é uma pousada com restaurante de madeira. Paramos lá para comer.

Pedi um macarrão frito com legumes. No meio da refeição chega um japonês que se admira com o tamanho de minha mochila. Ele estava super cansado e sujo. Vinha do Mera e me deu ânimo, dizendo que para mim seria fácil.  Após o almoço preparo um café de verdade para ele e meu Sherpa e voltamos à caminhada. 

Cruzamos um altiplano com vegetação rasteira e manchas de neve. E após uma hora começa a descida brava.

Novamente saímos do campo e adentramos a mata literalmente Nebular e após uma hora estamos no meio de uma linda floresta de Ginepros, um pinheiro parecido com a Araucaria, minha árvore favorita.

A atmosfera é mágica. Pra ficar ainda melhor, estamos perto de um lodge com lugares disponíveis. É lá que ficaremos. É a região de Tashing Ongma, 3600 metros. Nada mal subir 1700 metros e descer 1100 num único dia com cargueira nas costas.

Agora Tendu está sacando que é diferente "guiar" um montanhista.

Anoitecer em Chutang

Upper Chutang

Já onde não há mais árvores

No passo Zatrwa com Tendu
Cruzando o passo.

Floresta de Ginepro e neblina

Enfim as montanhas

Tea House onde passei a noite

Cabana no café da manhã

8 de maio de 2017

De Lukla a Chutang, 1 dia do Mera Peak

Uma choupana com paredes de vime este é o local onde escrevo este relato. Lá fora há mais outra como essa e duas casas de pedra, uma delas, com três portas viradas para a aldeia é o alojamento onde devo dormir hoje a noite.

Chutang parece uma aldeia indígena dos yungas bolivianos ou peruanos. Não deixa nada a desejar na questão de simplicidade e nem no meio de vida da população que habita essas paragens. Exceto que aqui o estrangeiro é muito mais comum, tanto que em cada porta do alojamento, que ainda não conheci, está escrito "room number 1, 2 and 3".

Estou indo escalar o Mera Peak, uma montanha de 6476 metros. Um pouco mais alto que o Illimani, mas bem menor que o Everest, que está aqui ao lado. Bem mais modesto, o Mera não atrai tanta atenção como seu famoso vizinho e a trilha aqui é bem menos frequentada. Ao ponto que não vi ninguém nestas quase 3 horas de caminhada até aqui.

É bem diferente mesmo do trekking ao Everest e me lembra bastante a solidão dos Andes. Então bora escrever...

Ontem o trekking solidário ao Everest base camp chegou ao fim.  Foi uma experiência mágica. Parte da equipe já retornou à Kathmandu,  mas a outra metade ficou travada no aeroporto de Lukla por conta deste mesmo mal tempo que me pegou na trilha.

É uma vibe totalmente diferente.  Lá eu tinha internet e gente para conversar o tempo todo, mas agora apenas Tendu, o Sherpa que me acompanha. Sinto falta da Maria ao ponto quando lembro dela me dá um nó na garganta e os olhos pesam de água. Queria que ela estivesse aqui.

O tempo não ajuda mesmo. Essa chuvinha curitibana não pára nunca e aumenta o sentimento de solidão.

Por um momento guardo o celular no bolso, vou até o quarto deixar minha mochila e noto a simplicidade do abrigo: duas camas e o chão com calçado com brita, igual à boa parte do trekking que acabei de terminar.

Volto à choupana e a mulher que trabalha no local me oferece batata assada e chá com manteiga sherpa, não é bom, mas ajuda a manter aquecido.

Bato papo com Tendu, afinal é cedo e não tem nada o que fazer. É deixar o papo rolar pra acabar com o marasmo, conhecer quem me acompanha e quem sabe aprender algo com ele.

Tendu Sherpa é de Pattle, mesma aldeia de Pemba, quem ajudamos a construir a escola no Projeto Dharma, de Karina Oliani e Andrei Polessi.  O mundo é pequeno, "meu" sherpa é da mesma cidade de Pemba e o Andrei é da mesma cidade que eu nasci, Itatiba-SP. Ele estudou com minha irmã.

Tendu  tem somente 26 anos. Ele está estudando para se tornar guia de montanha, uma profissão valiosa aqui no Nepal. Porém ele ainda não escalou nenhuma montanha de 6 mil metros. O levaria com prazer ao Mera, mas ele não tem seguro e por isso burocraticamente complica as coisas.

Tendu é meu guia de trekking,  embora eu não quisesse, não tenho outra opção, pois sou obrigatório aqui no Nepal ter um. Também terei que ser acompanhado de um "climbing" guide  na montanha. Até lá vamos ver como será.

Do trekking solidário ao solitário muita coisa mudou e a sombria neblina lá fora me assombra. Nada bom para um primeiro dia.

Vila de Chutang
Restaurante de Chutang


No restaurante de Chutang


Quarto do lodge