Blog do Pedro Hauck: Fevereiro 2014

18 de fevereiro de 2014

Sinuosidade do Front Montanhoso na Serra do Ibitiraquire (Pico Paraná): Existe tectonismo na Serra do Mar?

A Sinuosidade do Front Montanhoso (Mountain Front Sinuosity em inglês) é um índice morfométricos bem interessante, pois estabelece a relação entre as forças que soerguem o relevo e sua dissecação. Ou seja, ele faz uma relação estatística sobre quais forças são mais importantes para elaboração de uma paisagem montanhosa: O tectonismo ou erosão.

Este índice só pode ser realizar em montanhas delimitadas por escarpas de falha e este é o caso da Serra do Ibitiraquire, tanto em sua face Leste (voltada para o mar) quando na face Oeste, voltada para o Planalto.

O bom observador de paisagens pode notar que na nossa Serra há linhas retilíneas que delimitam escarpas. Estas linhas são falhas, na maioria orientadas para Nordeste, característica de falhas geradas num episódio orogenético chamado de “Brasiliano”, por volta de 550 a 520 Milhões de anos, quando houve uma colisão continental nesta região e daí evolução de um paleo relevo do tipo alpino, que já foi totalmente erodido, restando dele apenas algumas estruturas geológicas e rochas que foram originadas desta colisão.

Serra do Ibitiraquire
Paleosuperfícies na Face Oeste do Ibitiraquire. Foto de Elcio Douglas Ferreira

Lineamentos estruturais na Serra do Ibitiraquire (imagem CBERS) as estrutras Nordeste são as em azul e as Noroeste (diques de diabásio do Mesozóico) estão em preto.

Este relevo alpino que existiu aqui há tanto tempo não tem nada a ver com nossa atual Serra do Mar, mas algumas estruturas desta época, como as falhas continuam na paisagem. Estas falhas foram reativas diversas vezes e hoje são importantes controladores da paisagem.

De acordo com teorias tradicionais de evolução do relevo, as quais admiro muito. A Serra do Mar evoluiu através de ciclos erosivos em ambientes semi áridos. O primeiro e mais potente deles, produziu uma superfície plana potente existente em todo continente: A superfície sulamericana, que atuou por uns 40 ou 30 milhões de anos no final do Cretáceo (era dos Dinossauros). Este seria o início da história da Serra do Mar.

Com a alternância de clima úmido e seco, teria sido produzido diversas superfícies planas, produzindo o relevo de ombreiras na serra do mar, atualmente muito vem visíveis nas cristas que descem das principais montanhas do Ibitiraquire, como é o caso do Morro do Getúlio, que é a crista do Caratuva. A forma topográfica do Getúlio, inclusive, com seus blocos aflorantes empilhados, é uma típica forma de relevo de ambiente semi árido. O relevo de Tor.

Junto com meu amigo de doutorado Edenilson Nascimento e meu orientador, Eduardo Salamuni, obtivemos o índice de sinuosidade da Serra, na localidade onde fica o Pico Paraná. Para isso medimos a distância da escarpa Leste do Pico Paraná com a distância do vale mais pronunciado que a disseca, o vale do rio Cacatu. O resultado foi impressionante.

Quando menor é índice de Sinuosidade, maior é a influência tectônica na paisagem. Fizemos comparações onde este índice foi aplicado em outras montanhas ao longo do mundo, em locais, diga-se de passagem, de tectônica ativa, como nas rochosas dos Estados Unidos, na Espanha e no Himalaia e o índice da Serra do Ibitiraquire é menor que muitos destes locais. No Ibitiraquire, obtivemos 0.74 para a face Leste e 0.76 para a face Oeste. A título de comparação, nos Estados Unidos ele varia entre 1.2 a 7.2. 


Saliento que apesar dos números interessantes, isso não significa que aqui temos uma tectônica ativa, pois há muitas variáveis que influenciam neste resultado, como a diferença de clima, a resistência das rochas e outras coisas. De qualquer já é um importante argumento que vem fortalecer minha tese, que será de fato sustentada com umas análises laboratoriais que cedo ou tarde estarão aí.

Para entender melhor o que isso significa, leia o artigo na íntegra publicado na revista RAEGA:

http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/raega/article/view/29458

11 de fevereiro de 2014

Corupando

Sol e calor, tempo perfeito para uma cachoeira, mais que perfeito seria uma cachu com um bom pico de escalada. A perfeição neste caso chama-se Braço Esquerdo, a famosa cachoeira localizada em Corupá - SC.

Há anos ouço falar deste pico e suas famosas vias super difíceis e exatamente por conta desta fama, que lá só tem vias de décimo grau pra cima, eu nunca havia cogitado a hipótese ir pra lá, pois achei que não valeria a pena viajar para levar pau das escaladas. Grande engano, em Corupá há também vias fáceis e vias difíceis fazíveis.

Me acompanharam nesta climb trip meu sócio e amigo Rafael Wojcik e alguns ex alunos de nosso curso de escalada, três gurias ávidas por rocha: Maria Tereza, Raquel e a Carol, além da Eliza, com quem eu não escalava há muito tempo. O objetivo não era se comprometer com as vias, mas sim curtir e se refrescar no escaldante calor que está assolando o Sul do Brasil desde Dezembro. Deu tudo certo!

No primeiro dia escalamos bastante num setorzinho onde há vias mais fáceis, mas não gratuitas, o setor Café com Leite. Logo de cara as meninas, que só tinham conhecido o granito do Anhangava, puderam entender um pouco a diferença entre uma escalada um pouco mais de montanha e outra mais focada na performance, para quem não está acostumado, há pouco leite no café forte.

No dia seguinte pudemos conhecer os setores principais os quais fiquei muito admirado, pois parece um pico europeu, lembrando muito as escaladas nos conglomerados da Espanha, embora eu nunca tenha escalado por lá. As vias são enormes, com mais de 30 metros, sendo necessário dois rapeis pra voltar pro chão. A parede é inteira negativa, cheia de agarrões que podem ser tanto os seixos e calhaus dos conglomerados quanto os buracos deixados quando os mesmo caem. Há também agarras abaoladas, regletinhos, enfim, há muitas pegas, mas a negatividade e a extensão da parede dão o grau. É uma escalada pra quem tá forte e resistente e sabe trabalhar os pés e descansar corretamente.

Não pude escalar vias com grau mais elevado, como a Abonai, que é um oitavo bem fazível, mas entrei numas vias médias e achei bem interessante, mais parecido com ginásio do que calcário. Há agarras doloridas, mas em geral é tudo muito bom. Gostei muito da via Dona Lila, na minha opinião um sexto constante e muito alto.

Certamente voltarei a Corupá muitas vezes, oxalá bem acompanhado como foi neste ultimo final de semana.


Rafael se refrescando entre uma escalada e outra

Noite linda e a cidade lá embaixo

Acampamento iluminado

Dando um pega na Processo Anabólico





Setor 45, aí é só pra Super Herói

Dona Lila



Na lanchonete a noite. Ótima infraestrutura e boa receptividade.


Segue de preguiçoso

Setor Café com Leite

Raquel
Maria Tereza - Foto Eliza Tratz

Maria Tereza: Foto Eliza Tratz


Caramba! o que é isso???


Esse aí sim é que fez sucesso com a mulherada...
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7 de fevereiro de 2014

Do Direito à violência e à ignorância


Por que motivos a sociedade, mesmo após tanto evolução filosófica e civilizatória ainda convive e tolera a violência? O leitor mais civilizado e adaptado às regras e leis dos homens pode contestar: A violência é intolerável e criminosa, seja ela realizada pela força bruta ou verbal.

A penalidade contra os valores morais humanos, o patrimônio e a violência em si justificam a aceitação da coibição feita pela própria violência. Exemplos podem ser dados na vida privada das pessoas, aquele sujeito que traiu a mulher, causa a ojeriza de todos no círculo de relacionamento dela e não é incomum alguém desejar dar uma “coça” no traidor. Outros atos ainda mais hediondos, como um homem que molestou uma jovem, causam sentimentos ainda mais repulsivos, ao ponto de que muitos cheguem a desejar sua morte.

A violência é desejada e tolerada pela sociedade ocidental contemporânea, mesmo após o processo civilizatório.

A violência é aceita como punição, feita pela dor e pela humilhação. Ela, no entanto, não é aceita em qualquer ocasião. Ela é um ato machista pois é uma ferramenta para defender a honra do homem e seu território. Por isso, a covardia não é aceita, pois não é honrada.

Usando o mesmo exemplo anteriormente citado, um homem traído não pode usar a violência contra sua mulher, mas pode contra seu amante, ainda que ele não tenha culpa, ou consciência que participou de um adultério. 

Estes fatos corroboram para a afirmação que a sociedade ocidental, mesmo tão evoluídas em seus princípios e conceitos, evoluiu sobre conceitos machistas, onde o mais forte prevalece sobre o mais fraco e até hoje a violência, mesmo sendo proibida, é aceita.

A aceitação ao direito à violência permite resolver pendências através da porrada à favor, mas também contra quem dela pratica. Logo, fica demonstrado que prevalece lei do cão conta a razão e a lei dos homens. Ela é injusta, pois o forte, mesmo estando errado, sempre vence.

Ainda que eu não concorde com o direito à violência e à ignorância, é melhor quebrar um nariz (do outro) do que dar um murro na porta de vidro, nunca, obviamente, aplicando a lógica do contrário.