Blog do Pedro Hauck: O difícil caminho até o Llullaillaco

22 de janeiro de 2014

O difícil caminho até o Llullaillaco

Veja o relato anterior da expedição...

O Llullaillaco não é apenas uma montanha difícil de pronunciar, é também difícil de chegar.

A cidade grande mais próxima é Salta, capital da província de mesmo nome. Salta fica a cerca de 1000 metros de altitude na região das “Yungas” que é o sopé dos Andes formado por vales mais úmidos recobertos por uma vegetação mais verde e densa. Não chega a ser a Mata Atlântica, mas para eles aquilo é uma selva.

Subindo pelo pronunciado vale del Toro, aquela vegetação florestal dá lugar à uma mata de cactos gigantes, os Cardones, que de tão grandes são lenhosos e são utilizados na construção e na decoração das casas da Puna. O vale del Toro é uma fronteira entre duas civilizações etno culturais, a civilização gaúcha com fortes laços da colonização espanhola sobre guaranis da bacia platina e a Kolla, com forte descendência incaica. O nome “Kolla” que veio da Bolívia, advém de “Kollasuyo” que era o nome da região sul do império Inca, chamado por eles mesmos de Tawantisuyo (O país das quarto regiões; Kolla = Sul; Suyo = região).

Cardonal no vale del Toro


São 170 km apenas entre Salta e San Antonio de Los Cobres, localizada a 3800 metros de altitude em plena Puna do Atacama. Para quem não sabe, a Puna é a região Sul do Altiplano, que tem sua maior expressividade na Bolívia. Trata-se de um planalto imenso entre as chamadas cordilheiras “Ocidentais” (vulcânicas) e “Orientais” (formadas por dobras e cavalgamentos). Ela começa em La Rioja na Argentina, na região da Corona del Inca em Alto Jagüe e vai até o Peru.

Esta estrada é quase toda asfaltada, quase, pois há trechos tão instáveis que a rodovia deve mudar seu trajeto toda vez que há uma enchente ou terremoto, mas este é o trecho mais fácil do acesso ao Llulla. A partir de San Antonio há uma trama de estradinhas de terra que nos conduz aos rincões mais ermos da Puna. São estradinhas poeirentas que rasgam salares, planaltos vulcânicos e precipícios, locais pouco frequentados, aliás locais nada frequentados que qualquer pane no veículo pode significar a necessidade de andar centenas de quilômetros para buscar ajuda, isso se o sujeito conseguir ficar sem beber agua por dias a fio.
Carro que encontramos abandonado no meio da estrada com a chave no contato. Um problema no carro e só depois de dias você encontrará alguém para pedir ajuda.

No caminho normal até a montanha, logo após passarmos por San Antonio, são 100 km de terra até Pocitos, onde há uma mineradora. A estrada aí é boa, tanto que passam caminhões, mas foi neste trecho em que arregaçamos um pneu e tivemos que mudar nossos planos e ir para o Chile fazer o conserto.

Digo Caminho normal, pois há outro acesso via Chile, passando pela Mineradora La Escondida e uma série de caminhos abandonados de antigas lavras onde se errarmos o caminho, iremos cair num campo minado instalado pelo Pinochet durante a ditadura militar naquele país. Este foi o caminho realizado pelo Waldemar Niclevicz em 2004, que até então tinha sido o único brasileiro a escalar a montanha.

Passando por um campo minado no Chile.


Com esta mudança de planos, voltamos à Puna pelo Paso de Jama e tivemos que voltar à Pocitos por outro caminho, passando ao lado de um Salar pela quase abandonada Ruta 70. Em Pocitos, atravessamos o salar de mesmo nome e logo demos de cara com uma região onde há labirintos de morros formados por rochas Vulcano sedimentares, onde há várias curvas e uma paisagem de tirar o folego de qualquer um. São mais 90 quilômetros por esta estrada até Tolar Grande, que é uma cidade totalmente isolada onde vivem umas 500 pessoas ou menos.

A caminho de Tolar Grande


Tolar Grande tem prefeitura e tem até secretaria de Turismo. Dá pra ver que eles estão sabendo tirar proveito de seu isolamento para se oferecer como um lugar turismo alternativo e pitoresco pra quem vem de muito longe. Aproveitamos a Infra pra pedir informações sobre como estaria a estrada dali até a base do Llullaillaco. Fomos à Oficina de Turismo, localizada num container provisório e a secretária, a simpática Gabriela, nos perguntou se tínhamos a autorização para escalar a montanha. _ Autorização? Que autorização! Este foi meu susto quando soube da notícia.

Pois então, como o Llullaillaco é um sitio arqueológico, era necessário obter uma autorização junto ao Museu Arqueológico de Alta Montanha de Salta para podermos acessar a montanha. Dessa eu não sabia...

Simpática como era, Gabriela se sensibilizou com nosso problema e conseguiu uma solução: _ Então vamos pedir permissão para o Cacique da cidade! E não é que estávamos no Kollasuyo mesmo? 

Fomos até a casa do Cacique, 100 metros da oficina de Turismo. Nos atendeu um senhor baixinho vestindo um macacão da “Mineria La Escondida”. Seu nome, Julio Cruz, ou então o senhor Cacique. Geralmente o Cacique não gosta de receber estrangeiros enxeridos, mas pegamos ele num bom dia e o combinado foi o seguinte: Se a polícia nos autorizasse, ele também nos autorizaria. E lá fomos nós atrás da Polícia, que para felicidade geral da nação, estava sendo representada por um oficial muito boa gente que fez um termo circunstanciado sem nenhum problema e propina. Problema contornado, pé na estrada...
Igreja de Tolar Grande

Ruinas em Tolar Grande
Ir para O Llulla não é tão fácil. Acho que o cacique esqueceu de falar com Pachamama e uma hora depois de nossa partida, nosso pneu furou de novo, a quarta vez na viagem! 

Como já tínhamos perdido um pneu bom e já estávamos rodando com um estepe e nosso estepe era um pneu pra lá de vagabundo comprado de segunda mão em San Pedro, achamos melhor voltar e consertar nosso pneu furado. Tivemos que dormir em Tolar...

Partindo no dia seguinte pela manhã, conseguimos chegar rapidamente na estação de Caipe e começar a subir uma encosta íngreme que segue serpenteando o trilho do “tren a las nubes”, numa região chamada localmente de “Corniza” que há um ano era intransitável, mas que, com cuidado, conseguimos vencer sem muitos problemas.

A estrada dali em diante ficava bem mais precária e perigosa, adentrávamos de fato um mundo selvagem e inabitado há séculos por humanos, é uma região histórica, por onde Incas passavam com destino à sua montanha sagrada. Hoje as pessoas não dão tanta atenção às montanha e o caminho virou um local fantasma onde a sensação é sempre a de ser o primeiro, sensação de estar num mundo novo e de estar explorando o desconhecido. Sensações causadas mais pelo isolamento e aparência que pela história, pois como disse, os Incas dominavam aquele mundo hostil com grande intimidade.

Não tarda muito e a estrada se torna um caminho, onde é obrigatório da reduzida. Os pneus castigados pelos pregos e espinhos gruda nas rochas vulcânicas, o carro sofre, mas faz força para vencer os obstáculos e assim, após 160 km nestas condições chegamos ao fim. Ao ultimo local onde um veículo motorizado pode chegar: O Acampamento base do Llullaillaco, 4900 metros de altitude.
Caminhos da Puna

Indo para Tolar Grande

Delegacia de Polícia em Tolar

Atravessando o Salar de Arizaro

Puna sem fim

Corniza

E a estrada virou um caminho....

os que ficaram pelo caminho...

Vista para o Vulcão Socompa

Primeira vista para o Llullaillaco

Caminhos na altitude

Enfim: Base!!!!

3 comentários:

Miriam Chaudon disse...

Que linda imagem do Llullaillaco!!!! Imagino o alívio de vocês ao avistá-lo....

Alcides Battistin Junior disse...

Pedro, muito interessante sua abordagem sobre essa remota região, principalmente sobre as etnias e o domínio incaico. Parabéns pelo relato.

Careli disse...

Muito bonita as fotos! Cara, que trip irada!