Blog do Pedro Hauck: A ascenção ao Llullaillaco

29 de janeiro de 2014

A ascenção ao Llullaillaco

Veja a parte anterior...

Chegamos na base do Llulla na quarta feira, dia 8 de Janeiro, por volta das 11 da manhã, um horário que achei tarde para tentar qualquer aproximação. Decidi ficar no acampamento base, montar a barraca, nos alimentar e hidratar bem, ao invés de sair às pressas rumo a um acampamento superior.

Nesta tarde, como ficamos sem muito o que fazer, resolvemos subir um pouco e reconhecer a rota de ascensão. Foi uma sabia decisão, pois lá pudemos sentir o terreno e tecer estratégias. Durante esta caminhada, como era previsto, avistamos uma tempestade na parte superior da montanha. Em pouco tempo as cumulus nimbus tomaram conta da paisagem, evoluindo para pesadas nuvens negras que despejou neve na montanha. De longe vimos estas nuvens encobrir o Lllulla e após dissipar, deixar a montanha inteira branca.

O vento levava e trazia estas nuvens e as vezes floquinhos de neve vinham cair e se acumular em nossas roupas. Apesar disso, o base permaneceu como ele geralmente é: seco!

Acampamento base do Llullaillaco, 4900 mts de altitude.

Luca e Luiz em nosso acampamento base
Mas foi só a noite cair para a nevasca romper o silêncio da montanha com seu habitual sussurro. Tive uma noite de bom sono, mas acordei meio sufocado com a barraca esgrouvinhada com o peso da massa branca. Ao sair para mundo exterior me dei de frente com outra paisagem: a Puna tinha dado lugar à uma paisagem polar. Tudo estava branco!

Não pude avaliar se a nevasca havia sido boa ou ruim pra gente, mas foi um tanto quanto bonito e até mesmo divertido se deparar com aquele novo mundo e ver nosso carro inteiro abaixo da neve. Contudo, desmontar acampamento e arrumar as mochilas se tornou uma tarefa mais difícil e lenta e só começamos a caminhar às 11 da manhã!

Como ficou o acampamento após a nevasca

Paisagem polar

Carro totalmente coberto de neve

Montanha totalmente branca, muito mais bonita!

Café da manhã, onde foi parar as panelas?

Há 2 acampamentos altos no Llullaillaco, um a 5500 metros e outro a 5900. Pelo Trackmaker, através do tracklog que o Maximo Kausch me cedeu, calculei que do base ao 1 teríamos 3 km de trilha e deste acampamento para o 2, somente 1,5, mas 400 metros de desnível. Com isso em mente, comecei a achar melhor fazermos uma aproximação mais longa e irmos direto ao 2, ao invés de fazermos duas caminhadas curtas em dois dias e com isso perder mais tempo e uma boa janela que estava se formando na sexta feira.

A neve caída na noite anterior nos ajudou a caminhar. Ela cobriu os pedregais existentes na trilha e deixou o terreno mais fácil, embora tivéssemos que andar com botas duplas. Durante a tarde, o tempo, repetiu-se o mal tempo do dia anterior. Desta vez, no entanto, estávamos num lugar mais alto na montanha e ficamos no meio da tempestade. Os ventos carregavam a neve em pós na superfície e a jateava contra nossos rostos. Em alguns momentos, raios caiam perto de nós. Mesmo num cenário que pra muitos pode parecer ruim, eu estava me divertindo, pois o mal tempo deu origem a uma temperatura agradável de caminhar e assim eu ganhei um bom ritmo, me divertindo com a situação.

Eu sabia que aquilo era temporário. Que durante a tarde o tempo estaria ruim, mas a noite os ventos se cessariam o as estrelas iriam brilhar como nunca. Depois da tempestade a calmaria. Aliás, depois da temporada passada quando eu e o Waldemar Niclevicz escalamos 10 cumes nas piores condições possíveis, aquilo parecia brincadeira de criança.

E assim, nestas condições “boas”, chegamos aos 5500 metros, no local onde ficava o acampamento 1, ou melhor, onde deveria ser. 

Subida na neve


Por volta do meio dia fazia muito calor

Mas a tarde o tempo fechou e a temperatura ficou agradável

No horizonte, pode-se ver o Vulcão Socompa todo nevado.

As vezes nuvens com neve nos alcançava

O acampamento 1 não era bem definido. Dava pra ver que embaixo da neve deveriam haver uns locais para montar a barraca, mas deveria fazer muito tempo que ninguém acampava ali. O terreno era meio exposto ao vento e ao mal tempo e as rochas estavam soterradas pela neve. Pensei em como eu iria montar o acampamento sem pedras pra segurar a barraca, ou então como seria difícil limpar o terreno para montar a barraca com o tempestade nas costas. Como era muito cedo, 3 da tarde, joguei a possibilidade para o Luiz e o Luca de acamparmos no 2 naquele dia. O Luiz titubeou, mas o Luca concordou com o meu argumento. Acabamos prosseguindo.

Tendo a certeza que iriamos dormir em grande altitude, acabamos deixando nossas botas simples mocada numa ruína que tudo indica poder ter sido uma construção Inca. Ali descansamos um pouco e prosseguimos rumo aos 400 metros finais até o merecido descanso.

Eis que na retomada, acabei mantendo meu ritmo e quando percebi estava muito na frente de meus companheiros. Parei algumas vezes para esperar eles, mas meu ritmo era muito mais forte, embora minha mochila estivesse pesando uns 20 e poucos quilos. Um pouco na frente avisei meus parceiros que seguiria com meu ritmo até o acampamento e os esperaria lá.

Subi forte e cheguei ao Acampamento por volta das 5 da tarde. Lá limpei o terreno, deixando-o aplainado e livre de rochas grandes no chão. Montei a barraca ancorando-a em rochas grandes e quando eles chegaram, já estava me preparando para coletar uns penitentes e começar a derrete-los para fazer água. Após todo o ritual de fazer água, preparei um belo rango liofilizado e todos nós comemos como rei. Deixei tudo pronto para o ataque final.

Acampamento 2, 5900 metros de altitude.
Vista para o alto do Llullaillaco desde o acampamento 2 à noite.

O relógio despertou às 3 da madrugada. Não fazia frio, ouvia-se o som do silêncio. Acordei o Luiz e ele me disse que estava com dor de cabeça. Dei um analgésico a ele e ao Luca e botei o relógio para despertar uma hora mais tarde, para ver se o remédio podia fazer efeito. Acordei às 4 e desta vez o Luiz além de dor de cabeça, tinha também enjoo. Aí o bicho pega, enjoo e dor de cabeça são sintomas de mal de montanha. Decidi ficar descansando e ver o que fazer depois. Quem sabe ficar mais um dia e tentar cume no sábado.

Eis que dormir se tornou uma tarefa impossível. Virava pra todos os lados e não conseguia pregar os olhos. Eu mesmo fiquei com dor de cabeça e meus pensamentos martelavam meu cérebro. Comecei assistir cenas rápidas passando por meus olhos como se fossem um filme acelerado e sem sentido. Num determinado momento, lembro que saí da barraca e vi no horizonte uma cidade com luzes vermelhas. _ San Pedro! Pensei eu. _ Mas porque luzes vermelhas? Olhei de novo, enxuguei os olhos e de fato, eu via uma cidade com luzes vermelhas. _ Mas não existem luzes vermelhas na cidade! Será que é um vulcão em atividade? Diante de tantas dúvidas sem solução, dei de ombros com o problema que eu via e fui dormir. Foram cenas tão perfeitas que eu não sei até hoje se foram reais ou mais uma alucinação, como aquelas pernas femininas balançando a água da piscina com murmúrios e risadinhas. Risadas bem conhecidas, mas sem rostos, só pernas... Que cena bizarra!

Acordei com as primeiras luzes do dia e não me contive em sair de novo da barraca. As luzes do dia eram convidativas e a temperatura também. Nunca vi a 5900 metros a água não congelar durante a noite...
Notei que o Luiz estava sentado dentro da barraca e o convidei para ver a luz do sol. Sentamos numa pedra e começamos a discutir os planos. Ele não estava bem e achou que era melhor descer. Neste momento pedi licença para fazer o cume sozinho. De princípio ele se mostrou preocupado com minha segurança, mas eu já estava acostumado com isso e assim ele acabou aceitando.

Peguei uns chocolates, água, chá e me mandei para o cume, eram 8 da manhã...

Primeiro metros de ataque ao cume, o C2 está em meio as rochas no plato abaixo. Olhando bem pode-se ver a barraca em laranja. Isso dá uma boa dimensão da imensidão da montanha...

Crista rochosa por onde passa a rota, a neve começou a derreter por volta das 10 da manhã.

Canaleta de difícil progresso.

A neve ainda estava firme nas encostas da montanha e isso facilitou muito o progresso. Fiz 200 metros em apenas uma hora, mas depois das 10 da manhã, o sol começou a pegar forte e a neve firme do dia anterior começou a derreter e eu comecei a me afundar nela e a patinar nos acarreos existentes abaixo da massa branca.

Pra quem não sabe, acarreo é um monte de cascalho que fica solto nas pendentes inclinadas nas montanhas. É o típico local onde se dá um passo pra frente e escorrega dois pra trás. Comecei a ficar cansado, mas muito focado, sem olhar pra cima.

A subida se dava por uma crista, depois chega-se perto de uma grande torre rochosa, onde desvia-se para a esquerda, entrando num vale bastante íngreme e de difícil progresso. Vencendo este vale, chega-se à primeira construção Inca em ruínas, a 6500 metros, onde fiz a primeira pausa para descansar. Era meio dia e lá comi um pouco de chocolate, tomei água e chá. 

Achei que estava tarde, mas mesmo assim prossegui. Por sorte, o terreno ruim havia ficado para trás e dali em diante era uma pendente suave em terreno estável, progredi muito rápido. No alto avistava duas torres rochosas. Me lembrei de quando o Waldemar me contou de sua escalada naquela montanha, em 2004. Ele tinha feito a ascensão pelo Chile, não pela Argentina como eu estava fazendo e ele disse que o cume era uma torre rochosa e que ele havia chego na torre errada e que teve que fazer uma escalada técnica no cume pra corrigir e chegar no cume verdadeiro. Na hora vi que meu objetivo estava perto.

Serpenteando a montanha cheguei num sub cume bastante amplo, na base daquela torre. Lá haviam duas ruínas Incas bem grandes, numa delas, em 1999, foi achado um menino mumificado, uns artefatos ornamentais de outro e prata, além de bonequinhos de Lhama. A torre do cume ficava na minha frente, eu sabia que era só fazer um “trepa pedra” e estaria no topo.

Subindo no meio das rochas, ora enfiando o pé na neve, ora, o equilibrando numa agarra rochosa, fui vencendo o trecho que não chegava a ser uma escalada técnica e quando percebi não havia mais nada a subir. No meu pé havia a famosa caixa de cume do banco do Chile, patrocinador de um projeto muito bacana que consistiu em escalar todos os 6 chilenos e no topo de cada montanha instalar aquela caixa de cume luxuosa.

Primeiras ruínas Incas a 6500 metros.

Primeira visão para as duas torres onde fica o cume.

Base da torre do cume e ruínas Incas.

Cume

Vista das ruínas incaicas perto do cume.
Apesar de poucas pessoas conhecerem o Llullaillaco, esta é uma montanha especial. São 500 anos de história de escaladas, descobertas arqueológicas num mundo extremamente remoto e selvagem. Ninguém vai lá, ninguém conhece esta montanha, que é sagrada. Aproveitando isso, fiz um pedido à Pachamama que ela dê uma forcinha pro nosso amigo Parofes, que precisa de uma porra de medula óssea pra continuar vivo. Deixei sua foto no caderno de cume e comecei meu caminho de volta.

Às 4 da tarde já estava no acampamento. Às 5, já tinha comido, descansado, desmontado a barraca e estava com a mochila pronta e comecei a descer. O forte sol havia derretido a neve da quarta feira, mas mesmo assim não parei nem para trocar de bota e às 6:30 já estava abraçando meus parceiros pelo sucesso na expedição.

Homenagem ao Parofes no cume do Llullaillaco


Auto retrato no cume

Até esta minha escalada apenas dois brasileiros haviam escalado o Llullaillaco. O primeiro a realizar esta ascensão foi meu amigo Waldemar Niclevicz, em 2004, pelo lado chileno. O relato destas ascensão está em seu site pessoal (http://www.niclevicz.com.br/llullaillaco/).O lado chileno é o que recebe a maioria das ascensões, pelo menos é o que pude constatar pelas assinaturas no livro de cume. Apesar disso, acho meio complicado por ali, pois é necessário conhecer bem o caminho, já que lá tem muitos campos minados e um erro naquelas inúmeras estradinhas pode ser fatal.

O segundo, que embora não tenha nascido no Brasil é brasileiro, foi o Maximo Kausch, que fez a montanha sozinho em 2012 com sua moto pela mesma rota que eu, no lado argentino. As dicas que ele me deu foram cruciais para poder chegar no topo com sucesso e voltar com segurança.

:: Assista ao vídeo da escalada no LLullaillaco

3 comentários:

Miriam Chaudon disse...

Que bacana Pedro! Mais um cume para escrever em suas memórias! E este bem especial por se tratar de uma montanha com poucas ascensões, e também por possuir estas ruínas incas com importantes achados arqueológicos.
Parabéns!

Miriam Chaudon disse...

Que bacana Pedro! Mais um cume para escrever em suas memórias! E este bem especial por se tratar de uma montanha com poucas ascensões, e também por possuir estas ruínas incas com importantes achados arqueológicos.
Parabéns!

Roberson Ludgero disse...

Grande Pedro! Parabéns por mais uma bela conquista. Obrigado por compartilhar sua experiência e assim ajudar outros montanhistas a conhecerem melhor esta grande e desafiadora montanha.
Abraço, Roberson Ludgero