Blog do Pedro Hauck: Outubro 2013

30 de outubro de 2013

São Francisco encontra o mar

Lembro me bem do dia em que conheci o seu Zé. Era um sábado à tarde em 1992 quando decidi que precisava aprimorar minhas técnicas de futebol, chutando a bola contra muro sozinho. Fui surpreendido por aquele senhor negro de cabelos brancos que parecia algodão. Com sua fala mansa me interrompeu para falar do Pelé, Leônidas da Silva e Friedenreich.

Minha mãe o havia contratado para cortar a grama e fazer pequenos trabalhos no jardim. Era uma pessoa mística e filosófica, diferente das normais. Enquanto a reforma da Casa da Agricultura era levada à cabo pela prefeitura, todos os peões paravam na hora do almoço para dormir na sombra do enorme Flamboyant, jogar cartas ou prosear. Separado de todos, seu Zé chamou atenção por ficar sozinho lendo as revistas de capa amarela da National Geographic. Foi assim que minha mãe o conheceu e convidou para fazer estes serviços no quintal.

Ele era de Piaçabuçu, Alagoas, lugar onde o São Francisco encontra o mar. Veio a São Paulo ainda jovem e trabalhou em muitos lugares, indo parar anos mais tarde em Itatiba, onde trabalhou para a prefeitura fazendo trabalho de peão.

Nunca estudou, mas aprendeu a ler sozinho. Imagino que ele olhava admirado as belas fotos que tornaram a National Geographic famosa no mundo inteiro e assim decidiu que precisava saber ler.

Não lembro exatamente como ele foi morar em casa. Acho que foi depois dele quebrar o pé, quando foi atropelado por uma bicicleta em 93. Ele passou anos na edícula, sempre silencioso e discreto, ouvindo rádio CBN, comentando as notícias do mundo e interessado com suas revistas que lia em voz alta, com dificuldade, interrompendo o silêncio do quintal.

Preferia o trabalho braçal na roça que o trabalho no jardim e assim acabou indo morar numa casinha velha na Fazenda Aves do Paraíso que pegou fogo junto com suas revistas e fotos, que contava um pouco de seu misterioso passado. Acabou voltando para a casa da minha mãe onde ficou até que ela se mudou para o Ceará em 1998.

Não tinha família, mas adotou uma afilhada que aparecia para receber a mesada do pai de adoção. Ficávamos com raiva que ela só ia para receber e esquecia do velho solitário no resto do mês. Mas era o próprio São Francisco, dava toda sua aposentadoria e ficava sem nada, vivendo na absoluta pobreza e sem se importar com isso.

Não precisava trabalhar, mas ainda assim queria a vida na roça, foi parar no sitio do meu pai. Era um destemido e pegava cobras com a mão. Só se esqueceu que estava velho e ruim dos olhos, acabou sendo picado por uma cascavel. Quase morreu e ficou desfigurado. Sempre reclamou da nova mão e dizia que ia arrancar o dedo imobilizado com um machado.

Acabou voltando para a cidade, desta vez para morar na edícula da casa do meu pai na rua José de Paula Andrade, onde passou bastante tempo. Ouvia a rádio CBN e cuidava dos passarinhos. Vez ou outra ia no quintal para conversar com o velho, que me contava histórias que lia nas revista.

No futebol não fui mais adiante do que aqueles chutes no muro, mas me tornei Geógrafo e montanhista. Certa vez ouvi dele uma história que me comoveu: Ele pediu para que quando eu fosse ao Himalaia escalar, que eu o contratasse como carregador e que apesar de velho, ainda aguentava muito peso.

Mudamos de casa e ele foi junto. Teimoso, se aprofundou na síndrome da acumulação, levando lixo para dentro de casa, o que deixava a Fátima furiosa. Nessa época, as pessoas começaram a evitar ele. Deixou de ler a National Geographic e começou a pregar a bíblia, sempre interrompendo o trabalho objetivo da Dalva e da Claudete.

Saiu de casa, deixou a barba e o cabelo crescer e se tornou um personagem messiânico. Andava pela rua pregando, apresentando sinais de demência.

Morando no Sul, há anos não o via. Perguntei para minha mãe se ela tinha notícias e ouvi que da última vez que ela o vira, ele havia dito que ia voltar a Piaçabuçu e virar pescador com uma jangada. Reclamava com os taxistas no ponto em frente ao Rosita e pedia que o Fattori pagasse a passagem dele até Alagoas.

Perguntei ao meu pai e ele disse o viu sentado na sarjeta com uma poça de urina no chão, escorrendo pela calça e parou para ajudar. Já não percebia o estado em que se encontrava, estava magro como um palito e falava sozinho, confundindo as coisas. Ao reconhecer o meu pai, ele perguntou de mim. O seu Zé já não era o mesmo que eu conheci há mais de 20 anos atrás...

Recentemente sonhei com ele. A imagem que tenho é do seu Zé no quintal da José de Paula Andrade, que foi demolida há pouco tempo. Estava sentado na cadeira de plástico, de frente ao pé de Jaboticaba, perto da gaiola dos canários. Tinha em mãos uma revista de capa amarela e ao lado dicionário sem capa que ele achou no lixo, apenas para ganhar mais vocabulário. Ele olhava para o vazio no silêncio, num fim de tarde bucólico.

Onde foi parar o Seu Zé? Pensei que tivesse morrido, ou que estava pescando com sua jangada.

Hoje tive a confirmação, São Francisco encontrou seu mar.

Pôr do sol no morro do canal. Dia 29/10/2013.

18 de outubro de 2013

Pôr do sol no morro do Canal

Viver em Curitiba tem suas peculiaridades, uma delas é em relação ao tempo.
Curitibano tem sempre um guarda chuva fácil, anda de bota na calçada e sempre consulta a previsão. Eu mesmo já ganhei uma mania, tenho dois termómetros, um dentro e outro fora de casa e fico sempre de olho no tempo.

Em razão disso é dificil dar cursos de escalada aqui. Todos os que eu ministrei até hoje, desde a época do CPM, tiveram chuva no dia de uma prática, todos! Neste ultimo curso não foi diferente, escalamos no sábado e no domingo cancelamos, pois a previsão não era das melhores.

Uma outra peculiaridade de Curitiba é que as previsões de tempo sempre erram e neste domingo também não foi diferente...

Uma das minhas alunas, a Sandra, é minha professora de culinária e gastamos o domingo de manhã fazendo um delicioso yakissoba, responsável para dar aquele "bode" depois do almoço. Entretanto, lá pelas 3 da tarde percebi que a tal chuva não vinha e aí bateu aquela idéia: Vamos pro Morro do Canal!

E pra lá fomos, chegando no sitio do saudoso seu Zezinho enquanto todos já iam embora. Subimos o morro apressados e a tempo de subir a Pirilampo de tênis (pra economizar tempo) e ainda fazer a Viaduto, uma via muito bonita que há anos eu não escalava. Foi no término desta via que presenciei uma coisa que também há muito tempo eu não via, um belo pôr do sol no Morro do Canal.

Outra peculiaridade da cidade é a proximidade da Serra do Mar. O Canal mesmo fica apenas 40 minutos da minha casa (com mais 40 minutos de subida). Dá pra viver aqui e ver o pôr do sol todos os dias. 

Acho que isso compensa a falta de sorte com o tempo. Ver este pôr do sol compensou a falta de sorte com a má previsão de tempo. Pelo menos neste dia.

Fazendo a Pirilampo de tenis

Escalando a Viaduto de sapatilha.

Samuca na segue.

Parte superior da Viaduto

Samuca fazendo macaquice.

De olho nas vias




14 de outubro de 2013

3a. turma do curso de escalada de Curitiba

Escalar é fácil, difícil é não se machucar quando algo dá errado numa escalada. Pra isso que se aprende os procedimentos e técnicas de escalada. Saber dar um nó corretamente, usar um procedimento para cada situação, isso é faz toda a diferença para se progredir no esporte.

Após 5 anos de experiência com cursos de escalada, 3 anos com o curso em São Paulo que faz um super sucesso e já formou mais de uma centena de novos escaladores, estou trazendo para o Paraná este formato que tanto deu certo.

Estou ainda no começo, com a terceira turma, com a participação do Samuca, da Sandra e da Dih. Sábado estivemos no Anhangava aproveitando o sol para dar os primeiros passos na rocha.









Só lembrando aos que desejam ainda fazer este curso, alunos do curso de escalada de montanhismo GenteDeMontanha, ganham desconto na loja AltaMontanha, a maior loja de equipamentos de montanhismo, escalada e camping.

:: Veja o tracklog do Anhangava no Rumos: Navegação em Montanhas

6 de outubro de 2013

Pico do Braço Feio (Serra do Azeite) o Marumbizinho de São Paulo

Há muitos e muitos anos eu passo pela Régis Bittencourt (BR 116) sentido Curitiba x São Paulo e sempre me chamou a atenção uma montanha bastante escarpada, mas não muito alta, alguns quilômetros antes de Cajati. Diversas vezes parei no comércio simples que existe na beira da estrada e perguntei o nome daquela bela formação montanhosa, se existia trilha ou se alguém já tinha subido até o cume. A resposta sempre foi negativa e o nome da montanha sempre variou entre Braço Feio e Serra do Azeite.

Serra do Azeite, foto tirada em 2012
Acontece que "Serra do Azeite" é o nome de todo o conjunto de montanhas que existe ali, entre o planalto de Alto Turvo e Cajati. Braço Feio é o nome de um bairro rural e também de um rio que nasce naquele conjunto de picos de forma escarpada e florestal que lembra muito o Marumbi, com a existência, inclusive, de um pico um pouco mais baixo e meio rochoso que lembra bastante o Abrolhos.

Eu sempre tive vontade de escalar estes cumes, mas nunca sequer tentei armar uma investida com os amigos, eis que nesta semana o Johny foi pra São Paulo e voltou com esta proposta. Ele jogou a ideia no Facebook e algumas pessoas a encamparam. Com uma semana de chuva, poucos acreditaram que isso fosse realmente sair, mas eis que a previsão se mostrou positiva e sexta a noite fechamos um grupo: Johny, Julio Fiori, Vitamina e eu. Sim, tivemos a companhia ilustre do Vitamina! 

Acordei um pouco antes das 4 da manhã para tomar um café reforçado pra logo pegar todo mundo e cair na estrada rumo a São Paulo. Todos distraídos conversando muito, dava preguiça em pensar que teríamos que navegar em serras totalmente desconhecidas, sem trilha e abrindo a vegetação no facão. Por isso, ao chegar no Braço Feio, com a neblina impossibilitando a visão, fui tomar uma Kaiser, quer dizer, um suco de Maracujá, antes de começar.

Aproveitando para conversar com os locais, puxamos papo pra extrair informações e descobrimos o de sempre. Não se sabe nada!! Histórias de onça que habita a montanha e fantasias com ouro escondido em fendas vinha de um local, que de local não tinha nada. Após o Vitamina perguntar o nome do sujeito, ele me diz como se chama e depois fala seu apelido: _ Todo mundo aqui me conhece como pernambuco! Ah, obrigado...

Saímos pela estradinha do bairro em busca de um lugar para se aproximar da montanha. O Johny tinha um pedaço da carta topográfica com escala de 1:50.000. Meu GPS estava sem pilha. Então navegamos com a carta e um iphone, onde descobrimos que seria melhor percorrer um vale que desce suavemente do cume principal da serra. A idéia seria andar pelo leito do rio e depois varar mato até o topo.

No entanto nesta empreitada a sorte esteve em nosso lado desde o começo. Descobrimos um caminho que entrava no vale e várias trilhas que deveriam ser usadas por caçadores e lenhadores (havia muita tábua no caminho). Fomos escolhendo os melhores caminhos na bifurcação, passando por algumas clareiras onde haviam plantações de abacaxis achamos um colo ideal para penetrar no mato virgem e lá fomos nós nos revesando na tarefa em empunhar o facão.

Uma vez no mato, fomos novamente escolhendo bons caminhos, abrindo uma picada que poderá se tornar uma bela trilha no futuro. Tivemos dificuldades, com unhas de gato e bambus fogo rasgando a pele, mas mesmo assim, a divisão de tarefa nos permitiu avançar rápido.

Foi um vara mato divertido, conversávamos muito sobre tudo, deixando algumas gargalhadas romper o silencio das matas. Paramos vez e outra quando encontrávamos algo diferente, como um riacho, ou para subir numa árvore pra ver se de fato nos encontrávamos no rumo.

Assim, por volta das 13 horas chegamos num sub cume em cima de umas grandes pedras (granito) onde pudemos apreciar toda a Serra do Azeite e o cume principal, uns 20 metros mais alto, próximo, para onde fomos após um lanche rápido.

Tínhamos a impressão que ia ser fácil, devido a presença de campos de altitude. No entanto, os campos eram na verdade um emaranhado de arbustos que iam até o peito e que foram muito difíceis de transpor. Tive a missão de abrir caminho com o corpo, me jogando sobre aquele mato numa posição que rendeu gargalhadas a todos, pois parecia que estava nadando no meio da quissassa. Deu certo e chegamos ao cume mais alto sem maiores problemas após cerca de 6 horas de caminhada, muito rápido para um cume fechado como este.

Fizemos a descida em apenas 2 horas. Foi uma caminhada prazerosa no caminho aberto, nem lembramos que no grupo tinha um "senhor" de 83 anos de idade e 75 anos de montanhismo. Só caiu a ficha disso depois, pois em momento algum demos uma colher de chá pro Vita, é impressionante sua performance física!

De volta os quiosques na beira da estrada, a notícias que uns loucos tinham escalado a Serra do Azeite já corria de boca em boca e enfim pude comprovar com uma local (que nasceu ali) que aquele cume que escalamos nunca tinha tido uma ascensão, mas outros sim. Se é verdade eu não sei, mas pouco importa.

Subir uma montanha fechada abrindo trilha tem sempre um sabor de conquista. Neste caso este sabor foi acentuado pelo fato de ter sido numa montanha que há muito tempo eu namorava e que pouco se sabe sobre ela. Ainda mais o fato de termos feito ela tão fácil e tão boa companhia, como foi fazer ela com o Vitamina. Só depois ficamos sabendo que o Vita fez 83 anos naquele dia. Ele não falou nada sobre isso e ter aberto esta trilha deve ter sido pra ele o presente de aniversário.

A Serra pertence a um parque estadual.

Toras transformadas em tábuas apodrecem em trilha

Trilha que aproveitamos para aproximar da montanha.

Roça no meio da mata.

Fiori abrindo caminho na quissassa.

Vita e Johny no meio dos bambuzinhos

Navegação à moda antiga

Vista do topo da pedra grande

Indo para o cume principal com a pedra grande ao fundo

Vita me cumprimenta no cume.

Dino e a Lhama no cume do Braço Feio. Rod. BR 116 ao fundo.

No meio da Serra do Azeite achamos aquele piquinho distante.
Todos no cume

Panorâmica do cume.