Blog do Pedro Hauck: Janeiro 2013

29 de janeiro de 2013

Tempestade no deserto

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No começo da viagem tivemos sorte com o tempo e fizemos vários cumes sob céu azul e pouco vento. No entanto, depois do dia 8 de janeiro, nossa sorte mudou e começou a se formar uma instabilidade climática que marcou o resto da temporada com muito temporal nos vales e nevascas nos cumes de toda a cordilheira.

Esta instabilidade nos fez mudar os planos, nos atrasou no cronograma e dificultou muito as escaladas e os deslocamentos.

Primeiramente, toda a região andina do norte argentino e chileno é desértica. Lá os rios são quase todos intermitentes, muitos mal tem seu canal de drenagem definido, formando leques aluviais que descem de maneira difusa dos vales estreitos nas montanhas e se espalham nas planícies, depositando cascalho e areia nas baixadas. Estes fluxos acontecem somente quando chove bastante, o que é muito raro.

Neste ano, estes eventos que ocorrem entre um ano e outro, ou alguns anos, ocorreram diversas vezes em intervalos de dias, limitados por pequenas janelas de bom tempo, que tivemos que aproveitar, como fizemos no Mercedário.

O problema é que aproveitar a boa janela significa se deslocar quando o tempo estava ruim, o que nos deu problemas, já que tivemos que enfrentar cortes de estrada, fluxos de lama e pedra que correram sobre as estradas, entre outras coisas.

Nossa saída do Mercedário foi um exemplo. Lá pegamos grandes corridas que cobriram a estrada com detritos. O tamanho dos blocos rochosos transportados pelas águas impressionam. Eles demonstram a força da água para conseguir transportar algo tão grande e pesado. No Passo internacional de Água Negra, esperamos por horas até que a estrada fosse liberada para nossa passada.

No dia que descemos do Tórtolas, chegamos a quase presenciar ao vivo o começo de uma corrida de lamas. Tive que desobstruir a estrada no momento em que pedras rolavam de uma vertente na chuva. Obviamente não ficamos lá para presenciar o que ia acontecer. Um dia depois, em pleno deserto do Atacama, perto de Copiapó, presenciamos uma leve chuva na estrada e depois disso, já no Passo San Francisco, onde ficam algumas das maiores montanhas dos Andes, tivemos alguns problemas com autoridades por conta do mal tempo.

Quando fomos nos apresentar aos Carabineros do Chile, que é a policia local, eles não aceitaram que a gente fosse às montanhas por conta da neve. Sem alternativas, sugerimos ir ao refúgio Santa Rosa, localizado ao lado da laguna do mesmo nome, uns 30km em frente à aduana de Maricunga, onde fica a polícia e o controle fronteiriço. O Carabineiro em plantão, bem gente fina, aceitou nossa ideia e liberou a passagem.

Ao chegar no refúgio, nos encontramos com diversos escaladores que se preparavam para procurar um montanhista argentino desaparecido no Cerro 3 Cruces. Uma destas pessoas era o guarda parque Nicolai, que conhecia o Irivan e estudou com o Sassá na Espanha. Conversamos bastante e desta forma ganhamos a confiança do grupo. Eles sugeriram que a gente fosse antes ao Ojos Del Salado, para não atrapalhar as buscas e disseram pra gente ir a um refúgio na base da montanha, o Claudio Lucero, para iniciar a escalada no dia seguinte. Fomos contentes, pois ali no Santa Rosa teríamos que compartilhar o parco espaço com muita gente.

Eis que quase chegando ao refúgio Claudio Lucero, cruzamos com uma viatura dos Carabineros, que nos obrigou a voltar. O chefe destes carabineros, um militar baixinho e gordinho, foi bem arrogante e mandou a gente voltar, fazer o que? Desrespeitar uma autoridade num país super militarizado? Voltamos à aduana putos com a ordem e sabendo que aquilo ia custar caro, pois andamos 120km a mais e talvez não teríamos diesel para completar nossa escalada.

O resultado disso é que tivemos que dormir na aduana, ao invés de poder dormir no refúgio, fazendo uma super farofada juntos com outros farofas que lá estavam. O tempo estava ruim na montanha, mas tinha a previsão de uma boa melhora a partir daquele dia, não custava a gente esperar isso em um lugar mais adequado. O militar que autorizou nossa ida ao Santa Rosa recebeu uma super dura do baixinho arrogante, que ainda ligou para um superior para contar que a situação era “catastrófica”. Tudo isso por conta da avaliação de um cara que não sabia nada de montanhismo.

Esta era nossa situação, tínhamos duas montanhas pela frente, pouco combustível na Andina, muita neve acumulada nas montanhas e um desaparecido na montanha...

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Grande corrida de lama e pedras numa estrada na provincia de San Juan.

Mais corrida de lama no asfalto. Desta vez em La Rioja.

Isso era um rio intermitente.

Nuvens negras no deserto de Atacama

Nuvens no Vulcão Copiapó (segundo plano) na frente, laguna Santa Rosa.

Neve nas montanhas do Passo San Francisco.

Farofada na aduana chilena.

21 de janeiro de 2013

Las Tórtolas 6160m

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Logo após a perrengue no Mercedário, começamos nossa viagem de retorno, fazendo meia volta para o Norte, mas desta vez do lado de lá da cordilheira, pelo Chile. Nossa ideia é escalar mais algumas montanhas acessíveis no caminho e uma delas tinha nome: Cerro las Tórtolas, uma montanha de 6160 metros localizada na fronteira Chile Argentina entre a Província de San Juan e a região de Coquimbo, ao lado do Paso de Água Negra.

Logo na estrada percebemos os reflexos dos temporais que pegamos na montanha. Nos vales e nas planícies também choveu muito e as estradas foram preenchidas com sedimentos. Em nossa ida para o Chile, tivemos que esperar horas até que a estrada internacional pelo Paso de Agua Negra fosse restaurada para podermos passar. Definitivamente este não é um verão normal, pois o clima daqui é do tipo mediterrâneo, que faz seca e calor no verão e chuva e frio no inverno. Este verão daqui tá parecendo com o do Brasil, muita chuva, enchente e enxurradas.

Após ziguezaguear a estrada e chegar aos 4700 metros de altitude (mais uma vez), começamos o mesmo processo, mas pelo lado chileno, perdendo altura aos poucos e se afastando das nuvens negras que pairavam na argentina. Uma vez na aduana, aqueles velhos procedimentos de sempre: Coloca a mala no raio X, revisa a bagagem pra ver se não tem nada de origem animal e vegetal... O controle fronteiriço no Chile é levado a sério, aqui tudo é revistado e coisas que podem prejudicar a colheita e criação deles é confiscado.

Bem ao lado da aduana começa a estrada de terra que vai aos Tórtolas, 30 km numa estradinha de mineração, que percorremos rapidamente e instalamos nosso acampamento base ao lado de um riacho que dizem ser contaminado com arsênico. Passamos uma noite ali, a 3900 m.

No dia seguinte percorremos os cerca de 7 km montanha acima até o refúgio Gabriela Mistral, localizado a 5200 metros de altitude. Levamos 5 horas para fazer este caminho, que está bem mercado. No caminho tivemos uma bela vista para a montanha e a companhia de alguns guanacos que perambulavam por ali. O refugio foi uma grande surpresa, uma construção super bem planejada que dá abrigo na montanha e conforto. Dentro tem até colchões para gente usar. Ele está ali há 7 anos e parece que foi recém construído. É impressionante como o montanhista chileno sabe respeitar os outros. Se fosse no Brasil, este refugio certamente estaria destruído por vândalos.

A existência do refugio foi uma facilidade imensa, não precisar carregar a barraca, poder ficar em pé dentro de um abrigo, poder se trocar com facilidade, ter uma mesa para cozinhar, cadeiras... Tudo isso facilita muito a vida da gente. Com isso, às 8 já estávamos dormindo, em colchões.

3 da manhã todos estavam de pé. Tomamos um café da manhã rápido e sumimos na escuridão da noite rumo ao topo da montanha. O Waldemar foi na frente encontrando o caminho, a Silvia foi no meio e fechando a fila fui eu, sem me preocupar com a difícil missão de se orientar com a ausência total de luz da lua crescente.

A noite, como sempre, estava muito fria e quem sentiu primeiro foi a Silvia, que nunca tinha passado pela experiência de ficar com as mãos e os pés duros. Ela sofreu muito, até chegar os primeiros raios de sol. Mesmo com todo o sofrimento do frio, nosso encontro com o sol se deu acima dos 5900 metros. A madrugada rendeu e em pouco tempo, à 9 da manhã, estávamos todos no cume. Foi a primeira montanha de 6 mil da Silvia, e a 8 montanha minha e do Waldemar nesta viagem.

O cume é estreito e como muitas montanhas, tem indícios da presença incaica no cume. Lá tem também uma homenagem à Gabriela Mistral, poetisa chilena da cidade de Vicuñas que ganhou o premio Nobel da literatura em 1945, além da caixa de cume do projeto 6 mil do Chile patrocinado pelo Banco do Chile.

A descida transcorreu sem problemas e foi somente chegar ao refugio que caiu uma tempestade de neve. Descemos até o carro com a tempestade me nossas costas e foi somente dar a partida para a tormenta nos alcançar. Descemos os 30 km fugindo do granizo e da neve. Em um local, a chuva provocou um deslizamento de pedras, que desviamos por pouco.

Assim como no Mercedario, soubemos aproveitar a janela de tempo e fazer o cume, nosso oitavo nesta viagem.

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Caminho ao Tórtolas.

Campo Base a 3900 metros.

Indo ao campo alto.

Caminho bem marcado até o refúgio




Interior do refúgio Gabriela Mistral

Refúgio Gabriela Mistral

Amanhecer na montanha

Trecho perto do cume onde há um trepa pedra.

Vista para o cume.

Chegando ao cume.

Caixa onde fica o livro de cume.

Assinando o livro de cume.

Vista do cume

Vista do cume


No cume

Nós 3 no cume da montanha. Waldemar, Silvia e eu.
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16 de janeiro de 2013

Mercedário em 2 dias e com muita perrengue

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O tempo continuou ruim no Oeste argentino, com chuvas todos os dias nas montanhas. Quando nos deslocávamos de La Rioja até Barreal, na província de San Juan, acampamos numa reserva biológica chamada La Cienága, onde pela primeira vez na viagem pegamos uma chuva torrencial como se vê na Serra do Mar.

São chuvas de verão as que estão acontecendo, aquelas que o apresentador do telejornal chama de “pancadas de chuvas à tarde”. Só que na montanha isso vira neve.

Chegamos em Barreal sábado à tarde e nem ficamos na cidade, indo direto ao Mercedário que fica 80 km de distância percorrendo uma estrada que pertence à minerador Rio Tinto, que está preparando a Mina El Pachón para explorar cobre, num projeto grandioso.

Chegando a Las Juntas, onde fica a porta de entrada da mina, ficamos sabendo que a estrada até o Mercedário estava cortada. As chuvas em excesso destruíram parte do caminho que estava sendo reparado.

Tivemos a permissão de entrar, sem saber o que fazer. A ideia era acampar em um local e esperar a abertura da estrada.

Sem achar um local atraente, fomos andando até chegar no Rio Colorado, que nasce na parede Sul do Mercedário, drenando um vale que além daquela montanha, ainda tem mais quatro seis mil. Estive ali em 2008 com o gaúcho Antonio Gadenz e junto com os americanos Steven Sheets e Colin Tucker, quando escalei o Ramada e fizemos a parede Sul do Cerro Negro.

Naquela ocasião, atravessei o rio colorado à pé diversas vezes, numa deixei cair um radio VHF Yaesu, perdendo-o para as águas barrentas do rio, que desta vez estava muito mais forte e muito mais cheia devido às intensas nevascas na montanha. Ficamos olhando para o rio, sem saber o que fazer.

Antes de tomarmos qualquer decisão, chegou no local o Don Lisandro, que faz o serviço de levar e buscar montanhistas no Mercedário. Ele estava com um grupo de 3 pessoas de Córdoba que também ficaram sem saber o que fazer para atravessar o rio.

Enquanto esperávamos o rio baixar, o Waldemar aparece com uma estaca de metal e começa a cruza-lo a pé, testando a profundidade do mesmo e atestando que era possível passar. Ele pegou a caminhonete Andina e cruzou o Colorado, sendo depois seguido dos amigos argentinos.

Fomos seguindo estrada adentro, até enfim chegar ao ponto onde a estrada estava cortada. Uma grande enxurrada desceu de um rio intermitente e erodiu a estrada que fica no meio de uma vertente íngreme, com um precipício pra cima e outro pra baixo. Ficamos ali observando o trabalho de uma pá carregadora, até que enfim ela tampou o buraco e pudemos todos prosseguir, chegando ao refúgio Laguna Blanca, base do Mercedário à 3100 metros, quase ao anoitecer. Nos acomodamos e jantamos com os cordobeses, que aparentemente não botaram muita fé em nosso plano de no dia seguinte subir acampamento, atacar o cume e voltar dali 2 dias.

Como planejado, acordamos às 5 da manhã e às 6 eu e o Waldemar já estávamos com as cargueiras nas costas subindo o vale do Rio Blanco rumo à qualquer local bem alto o suficiente para empreender um ataque ao cume.

O dia não estava bom, mesmo de manhã haviam muitas nuvens e mal dava para ver as montanhas mais altas. Em ritmo forte de caminhada, nem prestei atenção no GPS e deixamos de entrar no vale que dá acesso à rota normal da montanha, nos obrigando a corrigir o caminho fazendo uma hipotenusa para não ter que caminhar dois catetos de caminho. Nessa perdemos uma hora de caminhada.

Corrigido o problema, adentramos no vale correto e fomos ganhando altura rapidamente, até que um mar de pedras substituíssem a rala vegetação do vale do rio Blanco. Ainda em ritmo forte, chegamos à “Cuesta Blanca”, onde observamos um grupo subindo sua forte vertente. Seguimos o caminho deste grupo e quase no topo desta quebrada, começamos a pegar uma forte nevasca, que deixou a paisagem toda branca e apagou as pegadas do grupo de andinistas.

A tormenta continuou forte e senti uma coisa estranha na cabeça. A eletricidade estática era tão grande, que produzia faísca no cabelo que fazia um barulho parecido com o de uma abelha, inclusive eu sentia como se tivesse uma abelha enroscada no meu cabelo, era uma sensação estranha, de como se de repente viesse um raio do céu me fritasse ali mesmo.

A tempestade passou, o sol abriu e pelo meio do vale nevado prosseguimos nossa caminhada.

Passou-se menos de uma hora, e quando nos acercávamos de Pirca de Incas, um dos mais frequentados acampamentos da montanha, a nevasca voltou a nos atingir. No meio do “White out” encontrei o acampamento do grupo que estava em nossa frente em Cuesta Blanca. Era um grupo liderado pelo guia san juanino Anibal Maturano, quem conheci em 2008. Como nevava muito, resolvemos acampar ali mesmo, à 5100 metros, 12 km de distancia do base e quase 1700 metros verticais do cume.

Derretemos neve, obtivemos informação da montanha com o Aníbal e comemos, para antes da 8 já estarmos dormindo nas cama saco, tudo isso ao som da neve caindo na barraca e acreditando na previsão do Mountain Weather Forecast que dizia que no dia seguinte haveria uma janela boa pela manhã.

Às 11 o Waldemar me acorda e já começamos a nos preparar para empreender o ataque, tomando chá, comendo pão e o que tinha em mãos. As estrelas desaparecem em segundos e uma tormenta com neve em pó nos saúda logo à meia noite e meia, o horário preciso que saímos do acampamento.

Era noite de lua crescente, ou seja, noite sem lua. Nevava e não era possível enxergar rastros de trilha e tão pouco algo além dos 2 metros. Saímos navegando com o tracklog do Maximo Kausch (que escalou a montanha em 2009 junto com a Isabel Suppé). Waldemar ia na frente e eu atrás ia guiando. _Waldemar, vire levemente à direita. Agora faça uma curva pra esquerda... Nem sabíamos que tipo de terreno era o que enfrentávamos, mas assim fomos ganhando altura até que as estrelas preencheram o céu novamente, dando um alívio e fortalecendo a esperança de que a previsão ia estar correta.

Se por um lado foi um alívio ver as estrelas, por outro o frio que se pôs agregou mais uma dificuldade à ascensão, que incluía a neve branda e fofa, o caminho longo e alto, a inexistência de sinais que indicassem o caminho correto, a escuridão da noite e a certeza que pela tarde o tempo se fecharia de novo e com tempestade elétrica.

Revezamos na tarefa de abrir pegadas na neve e fui na frente até cansar. O dia não amanhecia e fui pego por um incontrolável sono. Bocejava todo minuto e não conseguia parar em pé, andava sonhando com minha cama em meu delicioso apartamento em Curitiba. Até perguntei pro Waldemar porque a gente não tirava um cochilo, já que ele sofria do mesmo mal. Fui aconselhado a gritar para acordar, ao tempo em que ele passou à frente na tarefa de abrir caminho na neve.

Amanheceu e com ele se foi meu sono. Tomei a dianteira até chegar num local chamado “El Diente”. Ali pegamos um caminho contornando a encosta da montanha, sempre abrindo caminho pacientemente no meio da neve, às vezes escorregando e às vezes afundando até o joelho.

No meu GPS eu ia buscando o caminho até um ponto onde a rota normal se encontra com a da Face Sul. Este ponto nunca chegava e eu já estava muito cansado e desidratado. Para piorar, o tempo passara e já era quase 11 da manhã, as nuvens subiam dos vales e estava preocupado.

Enfim, depois de muito esforço, cheguei à confluência das rotas, mas estávamos apenas às 6500 metros. Em linha reta, meu GPS marcava 600 m até o cume em distancia reta e eram também mais de 250m de desnível vertical. Isso ia demorar pra caramba!

Mesmo sabendo da distância ao destino, do horário do dia, do terrível cansaço, desidratação e do sinal de que o tempo mudaria, continuamos, na esperança de que o cume fosse logo ali. E não era...

Subimos penosamente um trecho bastante inclinado. O cume ser ali em cima, mas não era. Tratava-se de um falso cume. O cume verdadeiro era 100 metros verticais pra cima, mas 400 em linha reta. Vocês precisavam ver a cara de desanimo do Waldemar quando chegou ali. Ô montanha fdp!

Chegamos a discutir a desistência da escalada. Me veio um sentimento de frustração enorme. Apesar do cansaço extremo que eu sentia, era terrível chegar tão perto e desistir. Achei que a gente já ia descer, quando o Waldemar falou: _Então vamos! Não esperei nem um segundo e já fui em direção ao caminho que tracei na cabeça.

Desci para um pequeno portesuelo nevado e logo galguei o segundo falso cume, bordejei pelo Sul o terceiro e logo me vi aos pés do cume, que subi muito rapidamente, esperando apenas meu parceiro para chegar junto ao topo. Não dava pra acreditar, quanto esforço pra chegar ali. Acho que foi certamente a montanha mais penosa que escalei e isso não foi pelas dificuldades técnicas da montanha, mas sim pelas condições extremas e a luta contra o tempo (metereológico) e tempo (cronológico), afinal, nossa chance era apenas aquela curta janela que soubemos aproveitar com precisão e muita insistência.

Descemos a montanha pagando penitencia. Uma nevasca nos agarrou ainda antes do “Diente”, a maldita apagou nossas pegadas e tivemos o esforço de abri-las novamente, numa situação engraçada, pois nos trechos que percorremos a noite era tão escuro que foi com passar pelo caminho pela primeira vez, viemos afundando muitas vezes até os joelhos de novo! Pra piorar, ainda pegamos outra tempestade elétrica. Levei choque no nariz, e fiquei com medo de levar um raio na cabeça...

Às 17:40 voltamos ao acampamento em Pirca de Incas, destruídos. O grupo do Aníbal, que ficou lá, estava apostando que horas a gente chegaria. Fora a brincadeira, eles estavam preocupados, pois ninguém sobe a montanha naquelas condições. Eles nos receberam com alegria e com chá quente, que caiu muito bem na minha garganta ressecada.

Eu já estava quase morto, quando o Waldemar deu a ideia de descer. Relutei, mas pensando nas vantagens de não precisar de dormir apertado na barraca fria e molhada de neve, repensei, arrumei as coisas e logo começamos a descer.

Ainda pegamos chuva no caminho, pra lembrar as pernadas na Serra do Mar, e chegamos no refúgio, onde a Silvia nos esperava, às 11 da noite, exatas 24 horas depois que acordamos para escalar a montanha. Essa foi nossa epopéia no Mercedario, 6770 metros, sétima montanha mais alta do continente.`

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Primeiro crux, os rios estavam muito cheios de tanta chuva.

Segundo crux, as chuvas destruíram as estradas. Aqui trabalhadores da Mina El Pachon recuperam a estrada ao Mercedário

Aproximação ao acampamento alto com Guanacos pelo caminho.

Começo da nevasca na ida ao campo alto.

Como ficou depois de alguns minutos, mesmo assim fomos.

Nosso acampamento em Pirca de Incas

Amanhecer na montanha.

Abrindo caminho na neve.

Vista para o falso cume.

Encosta 

Chegando ao falso cume. Desanimo em saber disso.

Vista para o Cerro La Ramada que escalei em 2008.

Vista para o Aconcagua todo branquinho.

Vista para o cume verdadeiro, longe!

Chegando ao cume verdadeiro.

Vista do cume grande.

Precipicio.

Cume.

Waldemar no cume.

15 de janeiro de 2013

8 condores e uma montanha fantasma

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No dia em que descemos do Pissis o tempo virou. Ainda na trilha, vimos 8 condores planando sobre nossas cabeças, o que achamos que seria um sinal de boa sorte, mas não foi. Naquela noite ventou muito em Fiambalá e o céu ficou marrom de areia. De madrugada, quando eu fui à praça central atualizar este site, cheguei a presenciar um chuvisco, o que é raríssimo naquela terra, me lembrei de um dito popular de Mendoza que diz: Cuando el condor vuela abajo, montañero al carajo!

Ao ver as notícias na internet, tive um baque: Meu colega de montanha Jamil dos Santos, com quem já fiz algumas pernadas na serra do mar, faleceu. Como pode um cara tão novo, de apenas 42 anos, ir assim de repente?

Em todo o caminho até La Rioja, no dia seguinte, fiquei pensando nas pessoas que se foram, tanto no Jamil, quanto no meu avô, que faleceu no ano passado e deixou muitas saudades. Nosso destino também me fazia lembrar outra pessoa, com quem eu me encontrei diversas vezes entre idas e vindas da montanha, a Oma Margarita, avó do Maximo, que se foi à pouco tempo também.

A Oma já teve uma casa de veraneio em Chilecito, que é a principal cidade na base da Serra de Famatina. Várias vezes quando estive na casa dela em Villa General Belgrano, ela ficava falando de Chilecito e do Nevado de Famatina, dizendo da antiga mina que lá existia e um teleférico que levava os minérios até a cidade, descendo “6 mil” metros até lá.

Desta vez não chegamos a ir à Chilecito, nos hospedamos numa cidade mais próxima à montanha que também se chama Famatina. Aliás, esta história eu preciso contar mais tarde, pois vivemos uma situação que resume bem a situação atual da Argentina.

Desde o dia dos 8 condores no Pissis, o tempo está fechado nas montanhas, com muita neblina e precipitação. A previsão do tempo apontou uma janela na sexta feira 11 pela manhã, então aproveitamos o dia 10 para subir até a base da trilha, seguindo o tracklog que o Maximo nos passou.

Subimos os mais de 45 km até a mina abandonada de La Mejicana. Presenciamos todo o alarde da população contra a reativação da mineração e fomos parar onde está o começo do teleférico de minérios, a 4400 metros, onde há algumas construções abandonadas há décadas.

Em meio à neblina, foi procurar o começo da trilha do Maximo em outro vale. Encontrei um caminho razoável que nos leva até lá em 2.4km de trilha simples, melhor que os 4 desde um acampamento mais abaixo. A neblina e a lembrança de quem já foi, deu um clima fantasmagórico na montanha. Olhando todas estas ruínas e pensando que todo mundo que já trabalhou aqui está morto, aumentou este sentimento.

Acampamos dentro de uma antiga casa de pedra, que segundo me disseram, tinha cem anos. Montamos a barraca para não ser atropelados pelos ratos e fizemos um jantar acendendo a lareira de um dos quartos. Fomos dormir com chuva, acreditando que terminaria em breve, tendo como base pra isso a previsão Mountain Weather Forecast.

Como combinado, acordei às 2 da manhã. Haviam estrelas no céu, que desapareceram assim que chamei o Waldemar. Sem esperanças, voltei à barraca e foi chamado por meu parceiro que falou: _ É pouco provável que se você ficar sentado na beira da montanha, um pato assado entre na sua boca (provérbio chinês).

Até que a intenção foi boa, mas logo que esquentamos um chá, a chuva voltou. Esperamos um pouco e ela não se acalmou. Desistimos de ir ao cume.

Depois que o Waldemar voltou à sua barraca, reacendi a lareira com algumas brasas que ainda queimavam, e assisti por quase 2 horas as chamas consumirem a lenha, sozinho naquela escuridão ao som do tinlintar das gotas de água batendo na telha da velha casa. Talvez tivesse mais gente ali comigo...

Ao amanhecer vimos que a previsão da janela de tempo estava certa. O Famatina estava todo branco, mas já não havia tempo. Não adianta uma janela de tempo pela manhã se na madruga chove. A montanha se fechou novamente poucas horas depois.

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Protesto contra a reativação da mina La Mejicana.

Caminho ao Famatina

Waldemar na porta de nosso "refugio".

Waldemar com espirito Inca.

Teleférico com tempo ruim.

Ouvindo o som da chuva e vendo o fogo na madrugada.

Teleférico com tempo bom, que durou pouco.

Famatina nevado.

Barro amarelo do rio Amarillo.