Blog do Pedro Hauck: Pampa del Infierno

18 de dezembro de 2012

Pampa del Infierno

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Se eu pudesse fazer um resumo do dia de hoje em uma palavra eu diria: Calor!

É impressionante como o norte argentino é quente no verão. O ar vem do chão queimando a pele, assando a gente devagarzinho, parece um forno. Se formos ver o porquê disso, é fácil responder...

Estamos quase no centro do continente, longe de qualquer massa de água. Então quando o sol bate pela manhã, ele esquenta tudo, deixando as tardes insuportáveis. Talvez daí venha a necessidade do argentino fazer a ciesta, descansar depois do almoço, já que de fato este período é improdutivo. Nossa pele fica salina, a roupa gruda no corpo que fica mole.

Além da distância do mar, temos outro fator que faz este clima tão quente. Aqui, na calha do Paraná, estamos numa altitude muito baixa. É exatamente esta questão topográfica que eu acho interessante.

Curitiba, em oposição, é uma cidade alta. Fica a quase mil metros de altitude. Antes de chegar em Foz, somos forçados a subir duas escapas, uma logo após a capital, onde afloram os arenitos brancos da Formação Furnas, em São Luis do Purunã, que dá o nome da escarpa de “Devoniana”, já que esta rocha sedimentar foi depositada neste período geológico. Após esta rápida ascensão, perdemos altitude e um pouco antes de Guarapuava, subimos a chamada escarpa da Esperança, que pela lógica que nomeia a outra quebra no relevo deveria se chamar Escarpa Jurássica, já que as rochas que afloram ali, o Arenito da Formação Botucatu e o Basalto Serra Geral são deste período.

Até ai temos uma historia geológica. Confundir a historia destas formações rochosas com a historia do relevo é um erro. Isso porque no Devoniano e no Jurassico, o relevo era totalmente diferente de hoje.

É difícil contar toda a historia geológica em poucas palavras, porem, chegando em tempos mais recentes, há menos de 20 milhões de anos, saímos de uma historia geológica para uma geomorfológica, ou seja, uma historia do relevo.

Nesta historia, nosso ponto de partida foi a grande planície formada num ambiente semiárido que perdurou durante 40 milhões de anos no final da era dos Dinossauros, o Cretáceo. Após este período, houve uma fase de desestabilidade tectônica que soergueu o leste do Paraná, abriu o planalto de Curitiba e foi aos poucos moldando a Serra do Mar. Concomitante à este evento, houve a atuação de processos erosivos poderosos em ambientes tropicais, leia-se, houve a atuação de um clima semi árido, que aplainou regionalmente diversos compartimentos de relevo no Estado.

Durante muito tempo, acreditou-se que todo o sedimento originado por este processo erosivo foi escoado pelas drenagens que se estabeleciam a Oeste, em direção ao rio Paraná. Mais tarde, pôde-se comprovar que partes destes sedimentos estão embaixo da cidade de Curitiba. Porém, a atuação desta superfície à Oeste produziu sedimentos que foram de fato escoados, como aqueles que foram originados com a esculturação da depressão periférica de São Paulo, onde esta a cidade de Campinas.

A relação disso tudo com esta viagem de hoje vem com a própria percepção da paisagem das províncias de Misiones e de Corrientes. Saindo de Foz, numa altitude de quase 200 metros, vamos perdendo altitude lentamente. Pela ruta 12, observamos colinas, cortes de estrada onde afloravam nossos basaltos. Os solos dali evoluídos sustentam florestas tropicalizadas, com Araucarias, mas também lianas (cipós) e Palmeiras do ambiente tropical.

É próximo da cidade de San Ignacio, onde estão as ruínas jesuíticas mais bonitas das missões, que a paisagem de floresta dá lugar às pradarias mixtas, com seus campos, arboretas de algarrobos, molles, espinhales e substrato de arenales. Da imagem de satélite, se observa que o Paraná tinha um curso mais retilíneo para o Sul, indo de encontro com o Rio Uruguai, mas ele foi migrando lateralmente, deixando uma planície inundada, com antigos terraços, meandros e lagoas ainda cheias, formando o pantanal da Argentina, os Esteros Del Iberá. Ainda hoje eu pude fotografar o produto desta história, as formações areníticas que são o substrato dos pampas.

Isso tudo só pode ser explicado pelo soerguimento do planalto meridional do Brasil, hoje povoado pelas florestas de araucária, que se alçou a altitudes maiores que mil metros, contrastando com os 40 metros da planície onde hoje, o Rio Paraná e o Paraguai se encontram, na cidade de Corrientes.

Atravessando a ponte Manuel Belgrano, adentramos o Chaco. Uma província que tem um nome um tanto quanto curioso. Pra mim Chaco era sinônimo de charco, mas não é. Tive que esquecer os lagos e brejos do rio Paraná ao lado da cidade de Resistencia, capital da província argentina do Chaco, pra entender melhor o que é o Chaco de fato.

Pra começar, o Chaco é uma região fitogeográfica que começa no norte de Córdoba e Santa Fé e que se estende ate o Sul da Amazônia, passando pelo Paraguai e pela Bolívia. É uma região semiárida, plana, quase sem nenhum alto topográfico, recoberto por diversos ecossistemas que vão do de campos até florestas secas e espinhentas. É uma região mal drenada, quente e extremamente desagradável para a habitação humana. O Maximo de Chaco que temos no Brasil são alguns enclaves no Pantanal, daí nosso desconhecimento sobre este tipo vegetacional.

O Chaco sempre foi uma região desolada e pouco habitada. Na década de 30, a região recebeu atenção especial pela guerra deflagrada entre o Paraguai e a Bolívia, disputando território. O primeiro pais venceu o conflito e a Bolívia perdeu ainda mais espaço. Dizem que a estrada da morte, que liga La Paz a Coroico, foi construída com mão de obra dos prisioneiros desta guerra. No Paraguai, de famoso, temos o nome do estádio do Cerro Porteño, os Defensores Del Chaco.

A Argentina sempre foi um país com mais recursos e mais projetos para esta desolada paisagem natural. No começo do século passado, foram construídas ferrovias atravessando as províncias de Formasa e do Chaco de Leste a Oeste, ligando as orilhas do rio Paraná com as cidades do sopé dos Andes, Salta e Jujuy.

Estas ferrovias foram abandonadas mais tarde e transformando as cidades chaqueñas em desertos maiores que o próprio Chaco, esquecidas e caindo aos pedaços, verdadeiras cidades fantasmas.

Novos projetos e o dinheiro do agronegócio esta transformando estas paisagens em centros de produção de algodão, planta típica de ambientes secos. Terras têm sido aradas e fazendeiros estão prosperando.

Este progresso, no entanto, é mais visto até a cidade de Presidencia Roque Saenz Peña. Depois disso, a paisagem é novamente aquela de deserto, cidades abandonadas e esquecidas. Aos poucos, o agronegócio vem expandindo suas fronteiras, encontrando todas as dificuldades do terreno, mas mudando a paisagem. As toponímias, no entanto, não deixa os viajantes, como nós, esquecer que lugar estamos. Um bom indicador para isso é o próprio local onde estou agora: Pampa Del Infierno! Aliás, um nome que resumo bem o que é esta região natural.

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Waldemar pilotando a andina e a Silvia como co piloto 

 Pradaria e solo arenoso

Solo ou rocha arenosa?  Este rio fica perto de Ita Ibaté e perto do rio Paraná e dos Esteros del Iberá.

Caminhonete andina nos Pampas de Corrientes 

 Atravessando a ponte Manuel Belgrano de Corrientes (ao fundo) até Resistencia

Sistema de navegação. GPS conectado a um netbook e o programa NRoute.

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Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Interessante esses caminhos....
Boa viagem para vocês!