21 de março de 2012

Adeus ao grande mestre Aziz Ab Sáber

Existem pessoas que a gente nunca chega a conhecer, mas que exercem grande influência sobre nossas vidas. Acredito que o geógrafo Aziz Ab´Sáber foi uma das pessoas que mais influenciou minhas idéias e me ajudou bastante em minha maturidade em pesquisas e também na maneira de pensar.

Minha trajetória pela Geografia começou com na Unesp de Rio Claro pela Geografia Urbana, passou pela Geomorfologia, mas amadureceu com minhas pesquisas biogeográficas com a Teoria dos Refúgios. A disciplina Geografia de Brasil II, ministrada no terceiro ano pelo professor Adler, era uma revisão sobre a Geografia física do país. Foi, no entanto, no final de sua disciplina a maneira de ser das paisagens brasileiras me fez sentido. Ela foi explicada pelas idéias da teoria dos Refúgios, que eu vim a me apaixonar.

Pela primeira vez tive noção do que seria uma paleo geografia de verdade. A proximidade na escala de tempo, final do Pleistoceno/Holoceno, me permitiu ter uma idéia maior e menos abstrata do passado. Pude assim entender as paisagens que eu gostava e freqüentava, as montanhas, que apresentam um padrão do tipo anormal perante a certa homogeneidade de ecossistemas dentro dos domínios de natureza do país. De começo levei até um esporro do Adler:

_ Ab´Sáber tem acento, porra! Nunca me esqueci de citar corretamente o Aziz. Rsrsrs

Tive a percepção que a Teoria dos Refúgios explicava a fantástica paisagem da Serra dos Cocais, em minha cidade natal, Itatiba, no interior de São Paulo. Fiz então um trabalho, minha conclusão no curso de Geografia. Mais tarde, me aprofundei na compreensão desta teoria e na minha dissertação de mestrado, defendido na UFPR, expliquei as origens da paisagem de floresta de Araucárias no Paraná, um trabalho muito interessante e bastante comentado.

Pude rebater algumas afirmações de Aziz, aprimorando a teoria dos Refúgios, não refutando-a.

O Aziz era um grande conhecedor do Brasil, ele viajou por todo país na maneira que pôde de jipe, no lombo de burro e barco. Estas experiências resultaram em importantes observações sobre como as paisagens brasileiras se comportam e como elas evoluíram. Ele colocou isso dentro da escala de tempo geológico e contribuiu para que conhecêssemos como se deu a evolução do relevo e também a vegetação.

Cada leitura que eu faço dos textos do Aziz, eu consigo abstrair uma nova informação. É muito grande sua clareza nas idéias, ao mesmo tempo em que é necessária experiência para retirar dali seus entendimentos. Não que seja difícil de ler, mas sim por que são tantas e tão ricas as informações que a retirada destes dados se faz de acordo com a evolução de nossos olhos e cérebros.

Me encontrei com Aziz diversas vezes, sempre em eventos científicos nos quais sua presença se tornava sensação. Sempre tentei conversar com ele nestas ocasiões, mas isso foi impossível, dado a quantidade de gente que para aparecer ocupava o tempo do grande Aziz com perguntas sem questões que o grande geógrafo respondia com simpatia, não era dele ser arrogante, mesmo diante de quem enchia o saco.

Aziz em evento científico

Exatamente porque eu não queria encher o saco, protelei fazer contato telefônico ou por carta. Uma pessoa com oitenta e poucos anos não deveria ter email... Era o que eu achava. Protelei tanto que perdi a chance de entender mais coisas que o Aziz sabia e que não pude extrair de seus textos. Ficará para outra dimensão esta conversa.

Mesmo sem poder conversar, soube que o Aziz ficou sabendo de meus trabalhos. Foi através do professor Adler que soube que meus trabalhos sobre a Teoria dos Refúgios foi citada pelo Aziz no belíssimo livro Ecossistemas do Brasil, livro tão belo (e caro) que ainda não tive contato, infelizmente.

Fica aí minha homenagem à este fantástico homem, formidável geógrafo e grande mestre Aziz Nacib Ab´ Sáber.

Aziz com meu tcc em mãos.

2 comentários:

Frederico Quintão disse...

Muio legal o texto, Pedro.
Apesar de ser"computeiro", gosto muuuito de Geografia e sei que esta foi uma grande perda para voces.

Paulo Roberto - Parofes disse...

É o ciclo da vida.

Antigamente era: Nasce, cresce, reproduz, morre.
Hoje é: Nasce, cresce, Alzheimer, morre.
O do Aziz foi: Nasce, cresce, produz, produz, morre.