Blog do Pedro Hauck: Itupava depois da reabertura

24 de outubro de 2011

Itupava depois da reabertura

Junto com o pessoal do Conrados Adventure e da Beatriz Azevedo do Rio Grande do Sul, tive a oportunidade de descer o Itupava mais uma vez. Estava muito curioso para ver como ficou o caminho depois que foi reaberto, após 6 longos meses de interdição para que fosse recuperado.

Para quem está de fora da conversa, após a chuva trágica que caiu no Paraná em Março, diversas árvores caíram neste histórico caminho colonial e muita lama se acumulou sobre o calçamento de pedras. Por este motivo, o IAP, Instituto Ambiental do Paraná, fechou o caminho para que ele fosse recuperado.

Todos sabem como é lento o sistema publico e no Itupava não foi diferente. Sabendo das demoras burocráticas, o IAP estipulou um prazo altíssimo para a reabertura: 90 dias! Este prazo assustou os freqüentadores. Seria necessário tanto tempo para tirar as árvores e lama do caminho?

O fato é que eu não fazia o caminho há muito tempo e não sei apurar qual era o estado de degradação do caminho do Itupava. Porém o que eu sei é aquilo que todos sabem: Os 90 dias não foram suficientes para a burocracia do IAP. Foram necessários 4 longos meses até que o Edital de licitação fosse finalizado e que uma empresa assumisse o serviço e recuperasse o caminho. Esta empresa começou a trabalhar em meados de Agosto e no dia 15 de Outubro, um mês e meio depois, o serviço foi finalizado. No total foram 194 dias de interdição de quando foi anunciado o fechamento à data de reabertura.

O que eu vi no Itupava?

Bom, eu vi um Itupava muito semelhante àquele de 2007, ano em que foi restaurado com o financiamento do banco alemão KFW. O serviço está muito bem feito, além da lama ter sido retirada foram feitos diversos drenos para que a água da chuva não levasse mais sedimentos sobre o calçamento.

Além disso, vi diversos locais com o mato bem aberto e troncos de árvores recém cortados. Era os locais onde haviam caído as árvores grandes de março. Os trabalhadores não só desobstruíram o caminho, como também utilizaram a madeira dos troncos para segurar a erosão e fazer contensões.

Mesmo depois de tanto trabalho, eu afundei meu pé na lama diversas vezes, o que é normal, afinal ali é a Serra do Mar, chove muito e há sempre muita lama. Imagino como deveria estar na época da interdição? Por mais que tenha sido feito um bom trabalho, julgo ser impossível resolver o problema da lama sem grandes interdições. Alias eu julgo que ir ao Itupava sem lama é como ir à Roma sem ver o Papa. Do jeito que está ficou bom.

Interdição, algo necessário?

Pro meu gosto acho que foi desnecessária a interdição, pois não acho arriscado pisar na lama e nem pular tronco de arvore caído, isso faz parte da aventura de percorrer o Itupava. Porém se o IAP o fez, acredito que tenha sido baseado em algum relatório técnico.

Apesar do bom serviço, minha opinião é que a interdição de 6 meses, nos exatos melhores meses do ano para a prática de trekking foi exagerada. Analizando o que aconteceu, vemos que o caminho demorou o dobro de tempo do previsto para a entrega, mas o tempo gasto em trabalhos na trilha foi a metade desta previsão inicial de 90 dias.
 
Tomara que os técnicos do IAP façam uma boa reflexão sobre estes acontecimentos e que consigam melhorar seu trabalho no futuro. Abaixo eu reproduzi um texto do Marcelo Brotto, montanhista e engenheiro Florestal, que fala dos impactos econômicos do fechamento do Itupava. O texto é bem conclusivo, vejam na íntegra:

Impacto econômico da interdição do caminho do Itupava
Na base de dados do IAP referente à visitação nas UCs estaduais no ano de 2010 consta o total de 13.961 visitantes para o caminho do Itupava. A interdição da trilha para manutenção durou 6 meses, de abril a outubro de 2011. Dividindo o total de visitação por 12 meses e depois multiplicando pelo período de interdição o resultado são 6.980 pessoas, que é o valor estimado de pessoas que deixaram de circular pela trilha no período em questão. Agora, inferindo sobre o impacto econômico que a interdição de trilha causou temos o seguinte cálculo.

Seguindo a base de cálculo proposta por Medeiros et al. (2011, p.21, quadro 5) para o gasto médio por visitante (campista) nos parques nacionais, em regiões de grandes localidades (C) como é o caso da região metropolitana de Curitiba, temos R$ 28,00/dia. Isso multiplicado por 6.980 pessoas resulta em R$ 195.440,00, que é o montante em dinheiro que deixou de circular no “roteiro turístico” Itupava. Esse valor gera em impostos (27,5%) aproximadamente R$ 53.746,00 de arrecadação pro Estado. Se dividir esse valor por 12 meses temos R$ 4.478,83. Seria razoável contratar dois funcionários para trabalhar 5 dias por semana na manutenção da trilha ao longo do ano, mais gastos com material. Dessa maneira a trilha estaria permanentemente conservada e nunca fecharia. Mas vamos considerar que a opção pela licitação seja a melhor. O processo de licitação dura 3 meses.

Os meses mais propícios para acontecimento de grandes tempestades, com choque entre massas de ar frio e quente é o início do outono, março/abril. As águas de março como diria Tom Jobim. Para estar com uma empresa contratada em março você abre a licitação em dezembro, depois de 1 funcionário em 1 dia ter caminhado pela trilha fazendo o levantamento.

Você acresce 30% a mais de serviço considerando que vai haver chuvas  fortes até a assinatura do contrato. Pois bem, em abril você assina o contrato e se for realmente necessário interdita a trilha por 15 dias. Em 15 dias aproximadamente 574 pessoas passam pela trilha, multiplicado por R$ 28,00/dia resulta em R$ 16.072,00 que é o montante de dinheiro que deixaria de circular no “roteiro turístico” Itupava. Essa foi apenas uma contribuição para ajudar a refletir sobre o futuro.

Marcelo L. Brotto

Referências:
Instituto ambiental do Paraná - IAP, 2010. Números de Visitantes nas Unidades de Conservação Paranaense – ano 2010. Disponível em <http://www.uc.pr.gov.br/arquivos/File/Tabelas_Ucs/2010_Visitacao_09_03_11.pdf> acesso em 10/08/2011.

Medeiros, R.; Young; C.E.F.; Pavese, H. B. & Araújo, F. F. S. 2011. Contribuição das unidades de conservação brasileiras para a economia nacional: Sumário Executivo. Brasília: UNEP-WCMC, 44p.












2 comentários:

Maumau Ecos Aventura disse...

Muito bom o paragráfo sobre o impacto econômico. Não fazia idéia! Veja a importância de um bem turístico.

Frederico disse...

Caro Pedro,

Compreendo a crítica, mas dessa vez tenho que apoiar o IAP. O problema é o processo licitatório, que é lei e não há como burlar.
Digo isso levando em conta que o tempo de manutenção e o resultado foi adequado, conforme seu texto.
Acredito eu que esse é o ônus do necessário Poder Público.