8 de janeiro de 2011

A maior estrada da Amazônia: O rio

Depois de conhecer um pouco da metrópole da floresta e dos campos e savanas de Roraima e a "Gran Sabana", chegou a vez de adentrar a amazônia e por aqui isso só é possível através das verdadeiras estradas da região norte, que não são as "transamazônicas", mas sim os rios.

Eu havia comprado minha passagem de um agenciador no dia anterior em Manaus e não sabia ao certo aonde pegava o barco. Liguei para o cara pela manhã e ele me avisou (as 9 horas) que era para eu estar urgente no barco (que saia às 11). Não dei muita bola à ele, dei uma enrolada no albergue e sai apenas uma hora depois em destino ao porto.

Atravessando o centro comercial de Manaus com a cargueira nas costas, fui driblando os camelôs até chegar ao porto que eu conhecia, que não era o local onde eu ia embarcar... Descobri que em Manaus há vários portos e o meu era um tal de "escadão".

Fui ao tal de escadão e cheguei no meu barco... Era a visão do caos, o local parece a Índia! Obvio que me diverti um monte e me senti como se estivesse chegado à estação do trem do morte no Bolívia. Eram camelôs, carregadores, caminhões, carros, motos e muita gente num grande fuzuê. Lá encontrei meu agente e um menino que trabalhava pra ele me levou até o barco, que se chamava Anna Beatriz. O Agente, muito gente boa e atencioso havia colocado uma rede dentro do barco para assegurar meu lugar e assim consegui ter onde dormir.

 Vista do escadão para o porto popular de Manaus

 O visual é bem interessante, parece a Índia, mais original que isso não há!

 No meio da multidão

 Enfiam acho meu barco!


Já era quase hora de partir, eis que o barco começa a sair do porto. Entratanto mal deu pra sentir a brisa no rosto e voltamos ao porto. Os fiscais da Antaq (Agência Nacional de transportes aquáticos), multaram o barco por excesso de passageiros. Ele suporta 400, mas haviam 580 a bordo.

Isso acontece pois há muita gente que não compra passagem e vai entrando no barco para não perder a viagem. Eles acabam comprando o ticket mais tarde. Mesmo sendo multado, essas pessoas não sairam do barco e fomos navegar assim mesmo...

 Barco lotadaço! Minha rede tá aí no meio

 A única ponte que atravessa o Rio Negro, em estágios finais de construção. O problema é que se forem asfaltar a estrada para Rondônia, terão que fazer outra ponte.

 O agito no porto

 Minha mochila, minha rede.

 Veja a altitude do rio em Manaus!!!!

Imagem do Porto

Pouco mais de uma hora de meia de viagem, há exatos 40 km de Manaus, o Rio Negro e o Rio Solimões se encontram. A água do Solimões é barrenta e a do Negro, bem, nao preciso nem dizer... Como as águas têm densidades diferentes, elas não se misturam e andam por quilometros lado a lado até que a água barrenta fica predominante. Ali é o começo do rio Amazônas de acordo com o IBGE. 

Os peruanos, no entanto, dizem que o Amazonas não nasce da confluência de dois grandes rios. É dificil dizer onde começa o rio Amazonas, mas para mim ele é o tronco mais extenso da bacia, ou seja, ele nasce nos Andes, ali nas encostas do Nevado El Mismi perto da cidade de Arequipa.

 Posto de gasolina no Amazonas

 Estaleiro desmontando um navio

Transporte de gás no rio

Navios de bandeira liberiana navegando no amazonas.


 Marinha do Brasil

 Se aproximando do encontro das águas

 Rio Negro, esquerda e Solimões, direita



Após o encontro das águas, a viagem começa a ficar mais monótona... Dali pra frente vemos a imensidão do Amazonas que se extende para além de suas margens. Isso por que o que vemos muitas vezes são ilhas. A terra firme fica muito mais distante das margens do que podemos imaginar. Geralmente a mostra de que estamos numa margem de terra firme é ver fazendas e casas. Quando isso acontece, ao olhar para o outro lado, não vemos nada e aí podemos ter a certeza que de neste lado vazio temos uma ilha ou banco de areia.

Quem acha que o vale do rio é um lugar selvagem está enganado. Há muitas fazendas e casa ao longo do rio e quem navega por ali não morre de solidão. São diversos tipos de embarcações passando o tempo todo. Quem mora ali tem sempre uma canoa, ou uma voadeira. Vemos vários tipos de barcos, uns pequenas que são os transportes locais e outros como o meu, que andam longas distâncias. Há também transatlânticos de turismo que entram no rio e vão até Manaus.

Para transporte de cargas, é comum ver as chatas, ou balsas, levarem carretas de caminhões, grãos e todo tipo de coisas. Vi uns navios que se parecem petroleiros e devem levar petróleo até a refinaria de Manaus. O rio Amazonas é uma grande hidrovia plenamente navegável por navios de grande tamanho.

A paisagem ao longo do rio é bastante monótona. A mata de igarapé é bastante homogênea e não há muito o que ver. Quem faz este tipo de viagem precisa levar algo pra se entreter, se não fica entediado. Por sorte eu levei um livro e não vi o tempo passar.

Rio Amazonas aumentando sua margem

Adesivo do AltaMontanha no bar do Navio


 É rio ou é mar?

 Anoitecendo

Pessoal já ajeitando suas redes


 Agito no bar durante a noite. O que não faltou foi Brega amazônico, Forró e Sertanejo no último volume.

Cidade de Itacoatiara à noite

À noite os passageiros já foram ajeitando suas redes. Alguns ficaram no convés bebendo e jogando conversa fora. Uma coisa triste que pude notar é a falta de educação das pessoas. A coisa mais normal é todo mundo jogar seu lixo no rio, papéis, embalagens de comida, latinhas... muitas dessas coisas vão parar no rio. Outra coisa que me desagradou foi o volume das musicas, todas gêneros que não gosto nem um pouco.... Mas fazer o que? se tava todo mundo gostando, a única coisa que pude fazer foi me expremer na rede e tentar dormir.

Uma das coisas ruins da viagem é são os banheiros, sempre lotados e sujos. Ainda bem que não precisei de fazer um número dois... Com diz sempre o Maximo Kausch: "A situação faz o barro."

 No convés

 Estreito de Óbidos

 Cidade de Óbidos, parece ser bem simpática

 Porto de Óbidos



O barco fez algumas paradas no caminho. A primeira foi na cidade de Parintins, durante a madrugada. Em seguida paramos em Juruti, já no Pará e logo Óbidos, onde o rio Amazonas é bem estreito. Lá por conta deste estreito estratégico, existe um forte erguido pelos portugueses. Eu não vi este forte, preciso saber se ainda existe.

Do barco eu pude observer uns afloramentos (barranco) de material mosqueado (colorido), que provevelmente deve ser a formação Barreira (quer dizer, um sedimento de idade geologica de mais ou menos 2 milhões de anos). Isso é uma coisa bem interessante, pois conta a história da Amazonia quando não havia floresta, e isso faz pouco tempo, em termos geológicos.... Bom, vou deixar isso pra depois.


Uma balsa levando umas dezenas de caminhões

 Pirata do rio Amazonas

Altitude do rio perto de Santarém, perdemos apenas 7 metros em mais de 700 km


 Santarém

 Encontro de águas entre os rios Tapajós (direita) e Amazonas.

 Rio Tapajós. Simplesmente gigante!

 Terminal graneleiro da Bunge.

Chegada ao porto de Santarém.

Apesar de muito perto, cerca de 100 Km, a viagem de Óbidos até Santarém demorou bastante. Isso por que o barco anda numa velocidade de apenas 26 Km/h. Infelizmente a maioria dos barcos que navegam aqui são muito lentos, mas a navegação fluvial é o melhor transporte para a amazônia. Aqui poderia ter barcos mais modernos e rápidos, como os famosos catamarans, que andam a mais de 100 Km/h e não são nenhuma novidade tecnológica.

Os barcos aqui tb não são muito baratos. Mesmo com tantos passageiros, uma viagem de Manaus até Santarém custa R$120,00 pra ficar na rede. Acho caro, mesmo que a distância seja bem grande, 722 Km medidos no GPS. Não importa as coisas que os barqueiros dizem. Transporte fluvial não é caro, não precisa de manutenção como um ônibus precisa, transporta muito mais gente e as estradas não precisam de asfalto, elas são naturais. Ainda há muito o que melhorar para que estas estradas naturais daqui da Amazônia consiga suprir a necessidade de seu povo com agilidade e preços acessíveis.

A Bunge, uma das maiores empresas de agronegócios do mundo, construiu um grande porto graneleiro em Santarém para utilizar as vantagens que é o transporte fluvial e também pressionar o governo a asfaltar a BR 163, a Cuiabá - Santarém. Esta rodovia continua sendo em sua maior parte de terra. 

Todos sabem que se ela for asfaltada, a expeculação imobiliária irá devastar a floresta em seu entorno. Nos trechos onde ela já é asfaltada, 50 Km em ambas as margens já foram destruídos! Por isso os rios devem ser explorados como uma via de transporte e comunicação, mas para isso acontecer, é preciso mais investimentos em portos e navios de qualidade para que os rios deixem de ser o motivo de isolamento da região norte para serem o meio de integração com o resto do mundo.

Um comentário:

Lynda Leão disse...

Terminal Graneleiro Cargill, antes da foto do porto de Santarém.