26 de junho de 2010

Cuscuzeiro depois de muito tempo...

Nesta Quinta Feira, estive em Analândia, interior de São Paulo, para escalar no Morro do Cuscuzeiro, um dos melhores locais para escalada em arenito que eu conheço. Durante a época em que eu morei em Rio Claro, há 55 Km do morro, eu ia escalar lá toda semana, principalmente entre 2003 e 2005.

Na verdade fiz uma breve viagem ao interior, comecei passando em Araras para conhecer a fábrica de alimentos liofilizados da Liofoods, que foi bem interessante. Pra quem não sabe, o alimento liofilizado passa por processo em que sua água é sublimada, isso faz com que o alimento preserve o sabor, o cheiro e as caracteristicas nutricionais, perdendo 3/4 do peso e volume. Estas características fizeram que a NASA utilizasse estes alimentos em viagens espaciais, por isso o Liofilizado é conhecido como comida de astronauta e agora está disponível à montanhistas brasileiros pela Liofoods. Eu já fiz meu estoque!

Na sequência fui para Rio Claro, visitar a UNESP, universidade que aonde eu me formei. Visitei professores, conversei com meu ex. orientador (com quem vi que minhas idéias evolucionistas são bem coerentes, mas não vou falar disso agora).

Aproveitei também para visitar meu colega de república, que hoje faz doutorado nas Geociências, Jeferson Lourenço. O Jef, foi meu principal parceiro de escalada durante a época em que eu morei em Rio Claro na época em que batia cartão no Cuscuzeiro.

Relembrei este meu passado recente, revivendo da melhor maneira possível, escalando no Cuscuzeiro. Já estava me esquecendo como era, mas não tem igual, o Cusc é mesmo muito bom! Melhor ainda é reencontrar os amigos e curtir um arenito jurássico de estratificação cruzada e alta concentração de silica.

O Morro do Cuscuzeiro

Paredes de arenito Botucatu

Jef na Denorex.

Eu e o Jef na parada da Denorex

Batata gratinada com creme de leite, aprovadíssimo!

Jeferson de segundo na Manga, via linda!

Jef na primeira enfiada da Visual, uma das vias mais linda do local.

Visual

Visual

Jef após o tetinho da visual

No cume do Cuscuzeiro

Jeferson no cume e a lua cheia aparecendo...

Não escalamos nada demais para os padrões da escalada esportiva que está se desenvolvendo na região. A via mais dificil que escalei foi a Sunday Blood Sunday, que mudou desde a ultima vez que eu escalei lá, pois um bloco foi removido da via, mas isso não alterou a dificuldade da via. Apesar de eu não ter escalado muito este ano ainda, pois em Curitiba ainda não parou de chover, vi que não perdi muito técnica, e a via saiu sem muitas dificuldades, o mesmo passa com mo Jef, que não escalava há mais de um ano. 

Infelizmente não deu tempo para eu escalar minhas vias favoritas por lá, que é o Paredão e a 97 bons motivos. Mais dois motivo para eu voltar pra lá, juntando o fato de haveram mais outras vias novas no morro, agora tenho 100 bons motivos! rsrsrsr.....

22 de junho de 2010

Escalada tradicional pra fazer bem pra mente

Escalada tradicional é um estilo de escalada em rocha em que o objetivo não é dificuldade ou a performance da escalada, mas sim a aventura, quase sempre com o intuito de chegar no cume de uma montanha. Estas vias, muitas vezes, são protegidas como podem, na maior parte das vezes em móvel, pois reflete sua conquista, de baixo para cima.

Escalada tradicional, clássica ou de aventura é o estilo de escalada que eu mais gosto e um dos melhores locais para se praticar é Andradas, no Sul de Minas, onde podemos dizer que há um verdadeiro campo escola deste tipo de escalada, já que tem vias de sobra neste estilo e diferentes dificuldades.

Fui para Andradas na sexta junto com o Davi Marski com o intuito de escalar para se divertir e tivemos uma surpresa ao chegar lá, ficamos com o tradicional refúgio do Pântano só para nós, pois ninguém apareceu neste fim de semana, que teve tempo bom o tempo todo.

Com a montanha só pra gente, mas sem croquis, decidimos escalar a via “Pão Francês”, que eu conhecia por ter feito o rapel nela quando escalei a “Andragônia”, uma das vias mais exigentes do local no ano passado, junto com o Jacaré, dono do refúgio.

Entramos na via com as informações da Headwall n. 1, que dizia que a via tinha um crux de 5sup.  Logo de começo erramos a via e fizemos a primeira enfiada da “Manteiga derretida”, mesmo com este deslize, conseguimos voltar pra Pão e eu guiei a segunda enfiada, que era super exigente e muito interessante.

Esta enfiada começa escalando por baixo de algumas lacas grandes, que fazem um tipo de mini tetos em móvel. Usa-se o vão destas lacas para equipar em móvel e a laca propriamente dita, é pinçada com a mão. Os pés, ficam na aderência e assim vamos progredindo. Na seqüência, há um lance delicado de aderência, mas com proteção fixa, um lance digno do “quintinho de Andradas”, que em escalou sabe o que é... Se “quinto” grau por lá já é difícil, imagem um sup? O Davi também achou difícil e pediu para eu continuar guiando...

A terceira enfiada é uma canaleta inteira em móvel, super legal, mas IV! Ô Jacaré, ta certo que não é nenhum bicho de sete cabeças, mas também não é fácil assim né!

Cheguei na parada cansado e sedento, já meio mole de sede.... Antes eu já estava sentindo falta de água, mas como subimos como apenas 600 ml de água, tivemos que racionar. Quando fizemos uma reunião na parada da  4 enfiada, vimos que erramos na estratégia de levar pouca água, mas mesmo assim continuei, até chegar em outro lance de 5sup, aonde eu já estava zonzo de sede e tive que descer, pois nesta altura do campeonato, o prazer havia sido substituído pelo cansaço.

Chegamos cedo no refúgio e sedentos... que horrível é ficar desidratado! Já descansando, peguei uma outra revista Headwall que falava sobre Andradas e vimos que numa edição mais recente, a Pão Francês estava graduada em 6sup... Aí sim entendi que este “quintinho” de Andradas estava de fato equivocada... Escalando isso em móvel e esticando corda, é melhor pensar que era mais fácil, ajudou na escalada.

No dia seguinte fomos para o campo escola, aonde fizemos algumas vias e repetimos a Nirvana, uma das linhas mais bonitas do local. Esta escalada fluiu com muita facilidade e chegamos de volta ao refúgio a tempo para ver o Brasil ganhar da Costa do Marfim na Copa.

Apesar de não ter feito nenhuma escalada excepcional, nosso climb for fun foi muito bom. Foi bom também ver que mesmo tanto tempo longe da rocha eu ainda estou bem psicologicamente e tecnicamente. Claro que não estou 100%, mas o montanhismo é assim, um eterno desafio aos seus limites, sempre se esforçando pela melhor prática e nunca parando de aprender.

Passagem de um dos lances mais difíceis da Pão Francês.

Corujas entocadas na via....

Bonita colocação...

Davi no começo da Nirvana

Pedra do Pantano.

Indo de segundo na Nirvana.

Davi Marski e Eu na P2 da Nirvana.

Guiando a terceira enfiada da Nirvana.

E subindo...

Fogão a lenha e Toby no refúgio do Pantano.

Davi e dona Nice.

15 de junho de 2010

Preservacionismo vs. Conservacionismo

Em vários textos, eu escrevo estas duas palavras sempre atentando para o significado conceitual delas: Preservacionismo e Conservacionismo. Entretanto, não são todas as pessoas que sabem as diferenças entre estes conceitos e não é raro ver eles serem misturados ou serem mal empregados. Confesso que eu mesmo já cometi estes erros, mas agora já sei bem as reais diferenças.

Na conjuntura atual do montanhismo, estes conceitos aparecem toda hora, pois vivemos um paradigma de crise ambiental e como montanhistas, somos diretamente afetado por eles, pois dentro da visão Preservacionista, a presença humana não é bem vinda em áreas naturais protegidas.

Já a visão Conservacionista é aquela que tolera pequenos impactos e um uso racional de recursos. A visão de mínimo impacto do código de ética do montanhismo é baseado neste conjunto de idéias.

Pelo tom desta apresentação e pelo texto abaixo, redigido por Suzana Padua reproduzido na íntegra do site O Eco, deixo um questionamento: Qual é a filosofia dos órgãos ambientais brasileiros? Ela é adequada à realidade social e ambiental do Brasil?

Preservacionismo, Conservacionismo ou alguma (ou falta de) outra Filosofia (foto de Tacio Philip)

Afinal, qual a diferença entre conservação e preservação?      

Por Suzana Padua

É comum haver confusão entre os termos conservação e preservação. Muitas vezes usados para significar a mesma coisa, na verdade expressam idéias que têm origem em raízes e posturas distintas. Conservacionismo e preservacionismo são correntes ideológicas que representam relacionamentos diferentes do ser humano com a natureza.

Um precursor do pensamento ambientalista foi John Muir, para quem a natureza tinha valor intrínseco. Mesmo que em sua época ainda não houvesse distinção desses termos, Muir hoje seria considerado um preservacionista, pois ficou conhecido pelo seu deslumbramento pela natureza em geral, e compartilhou suas emoções em vários textos e livros que se tornaram marcos do movimento ecológico que se formaria mais tarde. Compreendia a continuidade que é inerente à natureza, como mostra esse seu trecho: “Os dias quentes e ruminantes são cheios de vida e pensamentos de vida por vir, como as sementes que amadurecem contendo o próximo verão, ou uma centena de verões”. Ao enfocar a natureza sem a interferência humana e sem pensar no uso que determinados elementos poderiam representar, Muir se destaca por seu amor pelo mundo natural.

Com o correr do tempo, o preservacionismo tornou-se sinônimo de salvar espécies, áreas naturais, ecossistemas e biomas. Tende a compreender a proteção da natureza, independentemente do interesse utilitário e do valor econômico que possa conter.

Conservacionismo

Já a visão conservacionista, contempla o amor pela natureza, mas permite o uso sustentável e assume um significado de salvar a natureza para algum fim ou integrando o ser humano. Na conservação a participação humana precisa ser de harmonia e sempre com intuito de proteção.

Por volta de 1940, Aldo Leopold deu uma grande contribuição ao conservacionismo, pois demonstrava o amor de um preservacionista pela natureza, mas trabalhou para integrar o ser humano às áreas naturais, atribuindo uma dimensão de maior acessibilidade e importância a elas. Propôs o que na época foi inovador e que continua sendo recomendado até hoje: um manejo que visasse maior proteção do que a ‘intocabilidade’. Leopold introduziu uma nova ética ambiental como no capítulo “Land Ethics” (A Ética da Terra) em seu livro Sand County Almanaque. Precursor da Biologia da Conservação, tratava a conservação como ciência, com os diferentes campos se complementando, de modo a que se atingisse maior efetividade na própria proteção ambiental. Suas idéias expressam a necessidade de se assumir novas posturas que compreendam a integração dos elementos e a noção de longo prazo: “ ... a ética da terra transforma o papel do Homo sapiens de conquistador da comunidade da terra, a um mero membro e cidadão dela. Implica em respeito pelos membros-companheiros, assim como respeito pela comunidade em geral”.

Uma outra tendência liderada pelo escandinavo, Arne Naess, vale ser mencionada. Conhecida como ‘ecologia profunda’, considera que o conservacionismo tem uma visão reducionista, pois, segundo o autor, está limitado a concepções do primeiro mundo. De acordo com Naess a conservação depende da compreensão de aspectos mais profundos, tais como:

- a ótica precisa ser abrangente para incluir todos os seres e suas inter-relações, e não apenas a visão humana;
- é fundamental que haja maior eqüidade nas relações planetárias com posturas anti-classe, para que a diversidade biológica possa ser verdadeiramente valorizada e consequentemente protegida de fato;
- medidas que se opõem à poluição e à degradação ambiental devem ser levadas adiante com seriedade e compromisso;
- a complexidade deve ser contemplada, evitando-se visões que levam à complicação;
- a autonomia local e a descentralização das decisões podem ser chave no processo de inclusão social e valorização da natureza.

Nessa visão de mundo tudo está integrado; tudo é importante porque tem valor próprio. O ser humano passa, assim, a ser mais uma espécie e não mais “a espécie”. Essa linha de pensamento tem sido chamada de holística e se afina com escritores como Kapra (Ponto de Mutação), Lovelock (Teoria Gaia) e, no Brasil, com Boff, Brandão e outros.

Nem sempre esses pensadores são aceitos sem críticas. Lovelock, por exemplo, foi bastante refutado no mundo científico, que dizia faltarem provas concretas para suas afirmações. No entanto, a metáfora que criou com o planeta como um ser vivo acabou sendo respeitada e largamente conhecida: os rios são comparados às veias, os pulmões aos oceanos e florestas, e assim por diante. Sua ênfase é na interligação de tudo o que se encontra no planeta, estando todos os elementos conectados. Nesse sentido, tudo precisa estar sadio para que o todo funcione e se manifeste plenamente. Segundo Boff, a hipótese Gaia confere unidade e harmonia no universo, constituído por uma imensa teia de relações, “de tal forma que cada um vive pelo outro, para o outro e com o outro ...” (Ecologia: Grito da Terra Grito dos Pobres, 2004).

Com a compreensão da necessidade de se proteger a natureza e devido aos altos impactos que o modelo de desenvolvimento estava causando no equilíbrio planetário, surgiram termos como ‘eco-desenvolvimento’, proposto por Ignacy Sachs, que posteriormente evoluíram para ‘desenvolvimento sustentável’ e ‘sustentabilidade’. Esta terminologia tem sido usada em reuniões internacionais, inclusive na Rio-92. Existem também discussões acirradas sobre o significado dos termos, uma vez que alguns autores não desenvolvimento e sustentabilidade ambivalentes, um invalidando o outro ao pressupor a continuidade de uso e de impacto que certas atividades causam. O desafio parece estar no conciliar produtividade, conforto e conservação ambiental.

Uso dos termos

Todos esses termos são relativamente novos, já que a necessidade de se conservar ou preservar só apareceu há poucas décadas. Por isso, acabam sendo empregados sem muitos critérios até mesmo por profissionais das áreas ambientais, jornalistas e políticos. Mesmo na legislação brasileira, os termos são usados de maneira variada, apesar de se ter a noção das diferenças de significados. Conservação, nas leis brasileiras, significa proteção dos recursos naturais, com a utilização racional, garantindo sua sustentabilidade e existência para as futuras gerações.

Já preservação visa à integridade e à perenidade de algo. O termo se refere à proteção integral, a "intocabilidade". A preservação se faz necessária quando há risco de perda de biodiversidade, seja de uma espécie, um ecossistema ou de um bioma como um todo.

No Brasil, a necessidade de se incluir as necessidades sociais tem sido uma constante nos movimentos ambientalistas. Por exemplo, o envolvimento comunitário vem sendo conquistado por meio de programas de educação ambiental direcionados a populações que vivem ao redor de Unidades de Conservação. Primeiro como uma ferramenta de apoio à conservação, mas aos poucos assumindo novas frentes. Em muitos contextos tem incluído alternativas de renda que visam a melhoria da qualidade de vida humana com práticas que enfocam e valorizam a natureza local. Esta abordagem resulta da impossibilidade e da injustiça de se pensar em conservar espécies e ecossistemas ameaçados, quando as condições de humanas são indignas. Com base nesse novo pensar surgiu o termo ‘socioambiental’, onde o social e o ambiental são verdadeiramente tratados de maneira integrada.

A idéia não é abrir mão nem da conservação da natureza nem das necessidades humanas. É contemplar a vida de forma ampla e integrada. Sendo assim, a opção de qual termo utilizar pode variar entre preservar ou conservar, desenvolvimento mais sustentável ou medidas que visem a sustentabilidade de um sistema amplo. Ainda há quem discuta apaixonadamente qual a tendência mais correta. Entretanto, a escolha muitas vezes lembra crenças religiosas, o que nem sempre vale questionar. O importante é incentivar a reflexão e a análise das idéias que têm sido elaboradas no Brasil e pelo mundo afora. Só assim poderemos escolher o que queremos preservar de nossos pensamentos e atitudes e o que estamos dispostos a mudar para que possamos aumentar as perspectivas de melhor conservar a biodiversidade brasileira.

Suzana Padua é doutora em educação ambiental, presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, fellow da Ashoka, líder Avina e Empreendedora Social Schwab.

Fonte: http://www.oeco.com.br/suzana-padua/18246-oeco15564

14 de junho de 2010

GDM em revista na Argentina, mais outra vez!

A revista Weekend continua publicando os relatos da equipe GenteDeMontanha. Desta vez, a revista argentina publicou, nesta edição de Junho de 2010, uma matéria sobre a escalada de Maximo e Isabel na face Sul do Cerro Mercedário, a segunda maior parede dos Andes.

A matéria tem 6 páginas, com muitas fotos. Uma pena que os autores não poderão pegar a revista em mãos agora, pois Isabel está guiando na Bolívia e Maximo já está no Karakoram à caminho de escalar duas montanhas de 8 mil metros.

Não só na Argentina teremos nosso merecido destaque. Aqui no Brasil, a próxima edição da Revista Aventura & Ação promete uma matéria especial sobre a Jordânia, onde Maximo abriu uma via tradicional em rocha junto com seu amigo israelense Eyal. Aguarde!

Duas primeira páginas da revista que abrem a matéria!

10 de junho de 2010

Livro Escalada e Trekking em Alta Montanha



Finalmente ficou pronto o primeiro livro/manual sobre montanhismo de altitude em língua portuguesa, trata-se do livro Escalada e Trekking em Alta Montanha de Davi Marki.

Fico muito feliz com a publicação deste livro, primeiro porque era um sonho meu ter uma publicação desta espécie e depois porque sou um dos maiores contribuidores deste livro, junto com meu colega Maximo Kausch. Somos autores de alguns capítulos deste livro e nosso site, o AltaMontanha, contribuiu com muito conhecimento também.

Estes artigos publicados agora em papel fazem parte de nossa história. Não sei se todos sabem, mas no ano de 2002 eu e Maximo começamos a escrever nosso site próprio, o GendeMontanha. Este site está até hoje no ar, mas de principio ele era bem diferente.

Hoje o GentedeMontanha é apenas um site pessoal, o seu conteúdo tem apenas nossos relatos de montanha, mas de começo a gente reunia nele todo o nosso conhecimento adquirido com a experiência e nossos “artigos técnicos” foi ganhando corpo.

A gente escrevia sobre aclimatação, curiosidades, equipamentos etc... e logo nosso site começou a ficar famoso na internet e a ajudar muita gente que pretendia começar na montanha.

A fama do site ganhou uma grande proporção, até que em 2007, eu atualizei meu blog dizendo que eu estava morando em Curitiba. Bastou isso para que algumas pessoas que liam meu site viessem querer me conhecer pessoalmente, uma dessas pessoas era Hilton Benke, que escrevia o site AltaMontanha.com... Foi aí que comecei mais tarde a escrever para este conceituado site de montanhismo.

Contribuir com conhecimento sempre foi algo que gostei de fazer e me deixa muito contente. Certamente este livro será muito bem usado por muitos montanhistas.

Quem quiser adquirir o livro, entrem em contato com Davi Marski.

8 de junho de 2010

Globalização até de publicidade na Copa do Mundo da África do Sul

Falar que o torneio de futebol mais importante do mundo é algo globalizado é óbvio, perda de tempo falar...

Mas veja como uma das empresas mais globais que existe, a Coca Cola, explora a publicidade dos países sulamericanos de língua espanhola que vão à Copa.

A idéia da propaganda é genial: Usar o caso do Lesotho, um pequeno país incravado no meio da África do Sul, como se seus habitantes pudessem ser potenciais torcedores de uma seleção estrangeira. Eles são 2 milhões de habitantes e estão no meio do país da Copa, sem estar na competição....

Veja que a Coca Cola economizou na propaganda e fez 4 comerciais iguais, mudando apenas o país e o sotaque (reparem bem!). É muito engraçado como a criatividade, e a falta de, andam junto na homogenização de culturas.

Comercial destinado à Argentina.


 Comercial destinado ao Uruguai


Chile (veja o sotaque do cara!) Cachay!!!

E por último, em homenagem à Coca Cola: O Paraguay!!!

Imaginem os caras filmando este comercial?? Ei vc aí, já mudamos de país... põe a outra camisa... kkkkk

Aliás outras coisa do futebol globalizado é o não amor à camisa... Um comercial cheio de significado esses!

7 de junho de 2010

Origem das Paisagens dos Planaltos do Sul do Brasil na RAEGÁ

Saiu uma publicação minha na revista científica de Geografia da UFPR Raegá. Trata-se de um artigo sobre minha pesquisa de mestrado, revisando o conhecimento sobre a evolução das Florestas de Araucária no Holoceno e dos Campos subtropicais.

 Típica paisagem dos Planaltos do Sul do Brasil, onde Florestas de Araucária fazem mosaico com campos subtropicais - São José dos Ausentes - RS.

Pra quem não sabe, os Planaltos do Sul do Brasil eram originalmente recobertos por Florestas Subtropicais aonde a Araucária (A. angustifolia) abundava. Estas Florestas faziam mosaicos com campos subtropicais, uma cobertura vegetal aberta em total oposição sucessional.

Pra quem não entende, sucessão ecológica é o grau de evolução de uma paisagem. Uma paisagem climax, é a que atingiu o grau de sucessão máximo daquele tipo de paisagem. Na maior parte das paisagens brasileiras as fisionomias climax são as fisionomias florestais e não é diferente nos Planaltos do Sul, mas por que então haveriam tantos locais onde a cobertura vegetal original são campos abertos?

 Campos subtropicais na Serra Gaúcha - Cambará do Sul - RS

Essa pergunta não é recente. Quem formulou a melhor resposta para esta indagação foi o geógrafo Reinhard Maack, que dentre as várias contribuições às geociências é também um dos fundadores da teoria da Deriva Continental e descobridor do Pico Paraná, num episódio onde a história da Geografia e do montanhismo se funde.

Voltando ao assunto, Maack percebeu que aos poucos, as florestas de Araucária substituiam os campos. Logo ele remeteu a ocorrência de campos, como redutos de vegetação da época mais fria e mais seca da última glaciação. Sendo assim, a tendência natural seria que os campos desaparecessem em detrimento das Florestas. Maack estava certo!

Através de técnicas de identificação de pólens antigos de plantas e datação por Carbono 14, podemos hoje saber quais eram as plantas que habitavam as antigas paisagens, com que frequência elas ocorriam e quando estiveram lá. Através desta técnica, a equipe do palinólogo alemão Hermann Behling pôde constatar que as florestas de Araucária recobrem os planaltos do Sul há apenas 3 mil anos!

Ou seja, antes disso, até mais de 10 mil anos atrás, todos estes planaltos eram recobertos por campos. Mas qual é a origem desta cobertura vegetal campestre subtropical? Aí entra minha contribuição...

No Estado do Paraná ocorrem ilhas de vegetação de cerrado, afastado milhares de Km da área central da ocorrência deste tipo de vegetação e sob condições climáticas atípicas de sua área core. Estas ilhas de cerrado, localizadas ao longo do rio Larajinha no Norte Velho do Estado e em Campo Mourão, são redutos antigos deste tipo vegetação que é a mais arcaica do Brasil.

A origem do cerrado é provavelmente remetente ao Terciário. Muito provavelmente ele se originou no Oligoceno, há mais de 30 Milhões de anos atrás.  Na época em que o cerrado se originou, o continente Sulamericano não tinha sua configuração como é a atual. Não existia cordilheira dos Andes, o Amazônas vertia suas águas para o Pacífico e onde hoje é o Paraná era uma faixa de terra tropical, quente com clima sazonal com 6 meses de chuva e 6 meses de seca, ou seja, um clima tipico dos atuais cerrados.

 O mundo durante o Oligoceno

Durante o Mioceno, ocorreu um evento tectônico que mudou a configuração do continente. A América do Sul girou em seu próprio eixo, jogando para porções subtropicais uma boa faixa de terra anteriormente tropical. Daí a semelhança do relevo dos planaltos do Sul com os Chapadões Interiores do Brasil Central, hoje recobertos por cerrados e penetrados por Matas Galerias.

As áreas ainda hoje ocupadas por cerrados no Paraná antigamente compunham um proto domínio de cerrados oligocênicos, mas por conta da estratura geológica, solos e de micro climas específicos, estas áreas se tornaram refúgios deste tipo vegetacional, sofrendo retrações em fases de climas desfavoráveis a seu desenvolvimento, mas se expandindo em fases favoráveis, o que lhe deu fôlego diversas vezes na história natuaral, o que lhe proporcional uma recarga genética fazendo com que estas ilhas de vegetação não fossem substituidas por outro tipo de cobertura vegetal.

Pois bem, o que isso tem a ver com nossos campos sub-tropicais?

Nos campos gerais do Paraná, área típica de campos subtropicais dos Planaltos, numa típica paisagem de mosaico campo x floresta do Domínio Morfoclimático dos Planaltos subtropicais recobertos por Florestas de Araucária, temos mais de 585 espécies típicas de cerrado! No Parque Estadual de Vila Velha é onde ocorre com mais tipicidade estas espécies anômalas, mas sequer há uma fisionomia de cerrado, como ocorre por exemplo em Campo Mourão e em Jaguariaíva, onde fica o Parque Estadual do Cerrado.

 Paisagem de Vila Velha - Ponta Grossa - PR

Isso é um indicativo que em Vila Velha havia um refúgio de cerrado, mas ele está em estágio final de desagregação, sendo recolonizado pelas espécies sub tropicais, sobretudo da Floresta Ombrófila Mista, a Floresta de Araucária, que avança sobre os campos.

Muito provavelmente a cobertura vegetal da época em que se formou as esculturas bizarras de Vila Velha era a de cerrado. O tipo de erosão que formou este relevo atesta a presença de água abundante, mas uma cobertura vegetal ineficiente para proteger o solo, ou seja, uma vegetação de cerrado campestre.

Durante a fase mais seca e fria da glaciação, algumas espécies de cerrado, sobretudo campestres e que não tinham como fator limitante as condições impostas pelo clima, avançaram sobre os planaltos, recolonizando-os e conformando a vegetação de campo subtropical, composto sobretudo por Poaceas (gramíneas) e Cyperaceas (arbustos).

 Paepalanthus sp. na Serra do Cipó - MG (foto Giselle Melo)

Paepalanthus sp. (meio sequinha) na Serra do Iqueririm em Santa Catarina

 Relevo de Vila Velha

Isso significa dizer que alguns domínios morfoclimáticos são mais antigos que outros e que nesta história toda, temos um domínio muito antigo (cerrado) e outro bem recente (das Araucárias). Mas peraí, as Araucárias não são um árvore triássica, um fóssil vivo?

 Araucárias em Vila Velha

Sim, elas são! As Araucárias são gemnospermas, ou seja, árvores que vieram antes das plantas com frutas. São árvores antigas da época em que surgiram os primeiros dinossauros. É preciso diferenciar a idade da Araucária (um elemento da paisagem) e o domínio de paisagem (uma área de centenas de milhoes de Km2 onde ecossistemas integrados se repetem com tipicidade conformando um mega sistema geoecológico).

Digo ainda mais: O Domínio Morfoclimático dos Planaltos das Araucárias é tão jovem, que sequer ele havia atingido um climax antes der ser inteiramente transformado pelo homem! Porque?

 Domínios Morfoclimáticos do Brasil. Veja a ocorrência das Araucárias e o fato de ser o único domínio que faz divisão linear com outro domínio sem uma faixa de transição

A Araucária é uma árvore que se adaptou muito bem com o clima mesotérmico e pluvial dos planaltos do Sul do Brasil, mas isso não significa que quando a paisagem passa a ser dominada por elas, chegamos à climax. Isso porque há árvores mais especializadas e de crescimento muito lento que substituem as Araucárias em um estágio mais avançado de sucessão ecológica. São as árvores da família das Lauráceas, as Imbuias, Canelas e Perobas. Mas por que estas Árvores não dominam as paisagens do Sul e as Araucárias são tão abundantes?

Acho que já falei demais por hoje. Vou deixar esta indagação para outro artigo futuro. Enquanto isso leitor, vou deixar aqui o link para que você leia na íntegra o artigo publicado na revista Raegá da UFPR:

HAUCK, P.; PASSOS, E.. A paisagem de Vila Velha e seu significado para a Teoria dos Refúgios e a evolução do domínio morfoclimático dos Planaltos das Araucárias. RA'E GA - O Espaço Geográfico em Análise, América do Sul, 19 29 04 2010.


1 de junho de 2010

Geada o escambau!

Com duas previsões me dizendo que uma cédula da alta estava se aproximando do PR, trazendo estabilidade com massa polar fria e seca, não tive dúvidas que teriámos a primeira geada do ano na Serra do Mar, pura ilusão...

Na estrada à caminho da fazenda do Dilson, eu via o bom tempo e ficava feliz, imaginando o dia nascer com mar de nuvens, para depois ficar aquela brisa gelada e céu azul. Maravilha! Pensei...

_ Vou acampar no Caratuva e vou ver o sol nascer atrás do PP! Será uma redenção para um ano tão chuvoso, finalmente vamos abrir a temporada de montanhismo com chave de ouro. Indagava eu, falando orgulhosamente para minha colega Eliza de minha brilhante idéia.

 Linda tarde na fazendo do Dilson

Quem diria que iria chover?

Pôr do Sol no Getúlio

Chegando na Fazenda, o tempo estava lindo. O ceú estava maravilhoso, num final de tarde típico de outono, com as luzes mais bonitas que existe. Curti um pôr do sol de cima do Getúlio e comecei a subir o Caratuva com a noite já escura.

Eis do meio da matinha nebular sentimos umas gotas:

_Só pode ser uma nuvem! Me indagava. Isso é passageiro, fica tranquila que amanhã veremos mar de nuvens e caratuvas congeladas. Dizia o espertão para uma moça que ainda não conhecia aquelas belas montanhas.

Chegamos nos caratuvais com uma chuva fina e insistente. Nas antenas, a chuva já caia na horizontal por conta do vento e mal podíamos enxergar, por conta da expessa neblina.

Montei a barraca às pressas, com minha parceira quase tendo hipotermia, já imobilizada... Passamos uma noite do inferno, com tudo molhado....

As coisas só não foi piores, pois consegui manter a barraca seca graças ao fogareiro, mas tudo que estava fora dos isolantes térmicas molharam... No meio da noite me indaguei com o barulho contínuo das turbinas de avião, mas era o vento... Como ventou! Acho que passamos bem diante do temporal que pegamos.


Vista de dentro da barraca

Roupa molhada

Desmontar acampamento na chuva e com vento, ninguém merece!

 Trilha de volta

 Vista do Caratuva

A maldita cedula de alta pressão, ao invés se se deslocar para o Norte, foi para para o Leste e empurrou uma massa de ar polar atlântica para o continente, ficamos de frente à ela, que recepção, que decepção!

 Imagem de radar do Simepar

Pois é, frio, água e vento não combinam... Foi complicado desmontar a barraca no dia seguinte e descer com estas condições.

Este ano está muito complicado. Já passou metade do ano e ninguém conseguiu fazer nada. Chovem 10 dias e ficam dois ou três secos somente, o que não dá tempo para as coisas de fato secarem. As chuvas não páram!

Acho que estamos a caminho do terceiro ano seguido sem temporada de montanhismo....

Ps. Todas as fotos são da Eliza, não tive ânimo de bater nenhuma foto....