Blog do Pedro Hauck: E se a aventura acabar?

19 de outubro de 2010

E se a aventura acabar?

Hoje por acaso me deparei com um texto antigo de meu amigo Hilton Benke, que fala sobre um tema polêmico, mas que precisa de ser mais discutido, sob pena de causar uma mudança muito grande nos valores do montanhismo.

Sempre deixei muito claro que parar mim, os principais valores do montanhismo são a aventura e a liberdade. Vamos ver as palavras do Hilton e refletir sobre a atualidade destas questões:
E se a aventura acabar?

Tem uma máxima que logo aprendemos, quando iniciamos nossas experiências no montanhismo: quanto maior a roubada, melhor será a história!

E isso é verdade! As grandes narrativas das montanhas, ou melhor, dos montanhistas, são das grandes enrascadas que estes se metem. Dias atrás, inclusive, ouvindo um amigo contar sobre a conquista de uma nova via na parede do Ibitirati, pude perceber claramente isso. Ninguém arredou o pé da roda, enquanto ele não terminou a saga!

E isso é intrínseco ao ser humano que, ambicioso por novas aventuras, deixa o conforto e o sossego de seu lar, e parte rumo às montanhas, almejando novas conquistas pessoais.

Porém, estas aventuras são seguidas de perto pelo famoso risco comumente acompanhado e medido pelo tamanho da aventura proposta, seja ele grande ou pequeno. E, como disse anteriormente, é isso que o aventureiro procura, ou não?

Aliás, fazendo um adendo, quando verificamos o saudoso 'Aurélio' encontramos que aventura é 'uma experiência arriscada, perigosa, incomum, de finalidade ou decorrência incertas.'

Ocorre que com a popularização destas atividades, acidentes começaram a ocorrer, o que é natural quando o tal risco existe e é iminente e, ainda, quando muitas pessoas literalmente 'sem noção' aderem ao desejo pelas aventuras!

Assim, sob um pretexto parvo de possibilitar maior segurança ao aventureiro, verificamos uma explosão de grampos, chapeletas, escadinhas, correntes, degraus, fitas, totens, bandeiras e sei lá mais o quê nas vias, trilhas e rotas em montanhas.

Com relação à escalada, existe certo compromisso dos escaladores com as chamadas vias tradicionais, no qual consiste o respeito às características da região, ao padrão utilizado pelos conquistadores da via e, principalmente, as fendas, fissuras e demais características da rocha que possibilitam a chamada 'escalada limpa', utilizando-se de equipamentos móveis.

Apesar de existirem grupos infelizmente contrários a esta visão, no momento vou dedicar este texto ao famoso trekking, que é o estilo mais utilizado no Brasil e, como regra, possibilita maiores acessos à maioria dos cumes brasileiros, os quais, como disse, possuem trilhas abarrotadas de escadinhas, degraus e correntes!

Ora, sei que é importante todo o auxílio e a manutenção visando à segurança que é feita nas trilhas, mas também entendo que quando procuramos as montanhas, procuramos um algo a mais que um contato com a natureza, pois com certeza, se fosse isso que eu procuro, eu seria pescador, freqüentaria hotéis fazendas e alternativas do gênero, menos subir montanhas...

Assim, é de se pensar que se é a essência da aventura que buscamos, retirar toda e qualquer aventura das montanhas, sob o pretexto de que elas têm de se tornar mais seguras, é no mínimo uma grande incoerência da nossa parte.

Outra vez, conversando com amigos que fazem manutenção nas trilhas, estes exclamaram que temos de pensar nas pessoas que não conseguiriam subir o Pico Paraná ou outra montanha da nossa querida Serra do Mar paranaense, se não fossem os degraus ou as escadinhas que foram encravadas nas rochas. Porém, novamente meu pensamento é crítico com relação a isso. O Aconcágua está lá, com toda a sua dificuldade, e não é porque muitos gostariam de escalá-lo que devemos colocar 'escadas e passarelas rolantes' em suas encostas, sob o pretexto de possibilitar o cume, aos menos afortunados fisicamente.

Ou em outras palavras, um pouco mais duras: A montanha está lá, e se você quer chegar ao seu cume, mas não consegue, vá treinar e tente novamente. Ou simplesmente reconheça sua limitação e procure algo que seja 'realizável'. E em minha opinião, isso vale para o Everest, Serra Fina ou Marumbi!

E o pior é que este pensamento nem discutido foi, nem questionado é, e nem examinado será, se não repensarmos esta nossa visão de facilidade de acesso e, principalmente, de segurança, que nos foi imputada.


Original em: http://altamontanha.com/colunas.asp?NewsID=138&CatID=10

3 comentários:

tacio philip disse...

Muito bom o texto, concordo plenamente. E aproveitando, já que pelo 'Aurélio' aventura é 'uma experiência arriscada, perigosa, incomum, de finalidade ou decorrência incertas', logo concluímos que o "turismo de aventura" não tem nada de aventura, devia ser chamado só de "turismo rural" (como em alguns lugares é), "turismo pisa na terra", "turismo te leva pro matinho" ou algo assim. Afinal não vai ser nenhuma experiência arriscada, perigosa, incomum e muito menos com finalidade ou decorrência incertas.
Os afixionados pelo "turismo de aventura" deviam perceber que o máximo que eles estão fazendo é turismo de shopping só que pisando na terra com roupinha "adventure".

Ana Paula disse...

Parabéns pelo texto, que deveria ser tema a ser discutido de forma reflexiva sobre o montanhismo. :D

Paulo Roberto - Parofes disse...

Concordo com o Hilton no texto e com o comentário do Tácio.
Se a intenção é proteger ou facilitar os acessos mediante medidas proibitivas ou construção/ colocação de estruturas que ajudem o escaladores/ caminhantes, onde estará a aventura???
Já falei isso mil vezes e repito: Quando vamos pra montanha (e quando digo "vamos" entenda-se montanhistas de verdade e não excursionistas/ campistas, sem querer denegrir a imagem das pessoas que praticam tais atividades, cada um com seu cada um! :D) queremos dificuldade, aventura, imprevistos. São eles que fazem valer a aventura e nos dão ferramentas pra um bom relato.
Se um montanhista se fere, sofre uma queda, congela extremidades: Literalmente: FODA-SE! Foi idéia dele ir lá, ninguém o obrigou!
Eu nunca vou pra montanha já contando com resgate. Por isso já passei fome, já passei sede, quase tive congelamento de mãos duas vezes. Estou com uma unha necrosada porque tive uma lesão por causa da bota que facilitou um leve congelamento. E daí? Foi opção minha!
Quanto mais se facilita, menos aventura se tem.
Quanto mais regras e facilitações existirem, mais vou me marginalizando buscando os proibidões do Brasil.
E se for preso, quero cela especial porquê tenho nível superior! ahahahahahha