Blog do Pedro Hauck: Nos campos e nos pinhais

19 de janeiro de 2010

Nos campos e nos pinhais





Esta semana meu blog foi homenageado pelo Blog História Viva. Este, um blog que trata de temas reflexivos das ciências humanas, muito interessante...

De uma certa maneira, terem escolhido meu blog se deve , de um lado, por meu afastamento da montanha, o que é triste, já que estou impossibilitado de escalar por conta de trabalho. Por outro lado, este trabalho me deu um pouco de incentivo para eu escrever mais sobre meus pensamentos e minhas memórias, que foram os posts deste mês de Janeiro, um mês que fomos também bombardeados com informações sobre tragédias, onde não deixei de manifestar minhas experiências.

A tragédia do momento é o terremoto no Haiti, um desastre natural globalizado, pois além de atingir diretamente aquela população sofrida, ainda atingiu pessoas que ajudavam no combate à pobreza daquele país que é o mais miserável de todo o continente americano. Dentre estas pessoas estava a Dr. Zilda Arns, responsável pela pastoral da criança e também pelo baixo índice de mortalidade infantil que o Brasil alcançou na última década.

Zilda que é paranaense, começou a trabalhar contra a mortalidade infantil no interior do Estado, numa pequena cidade chamada Florestópolis. Apesar do atual progresso, o Paraná, um dos Estados mais ricos do Brasil, tem em suas origens uma história de muito sofrimento, pobreza e subdesenvolvimento. A economia do Estado foi durante muito tempo atrelada ao extrativismo florestal, sobretudo da exploração predatória da Araucária, a árvore símbolo do Estado. Hoje resta menos de 1% da área natural de Florestas de Araucária original no Paraná.

Por trás desta história de degradação, boa parte incentivada pelo governo a partir da década de 1940, existe a história privada de famílias que moravam nos acampamentos no meio da floresta e que vivam da derrubada da floresta, os Pinhais, com sua população composta de imigrantes europeus, poloneses, ucranianos, com os mesmo pés descalços e barriga vazia que os cablocos originais da região.

Estas pessoas sofriam do isolamento, da falta de acesso à educação, da fome e do frio dos planaltos sulinos, além é claro que ficavam suscetíveis às chuvas comuns que inclusive dão nome científico àquela formação florestal, a “Ombrófila (que gosta de chuva) Mista (por misturar espécies latifoliadas com os pinheiros gimnospermas)”.

Para exemplificar um pouco com era a vida neste Paraná típico, eu escolhi um fragmento do livro “Nos Campos e nos Pinhais” de Hellé Vellozo Fernandes, que faz uma bela descrição das paisagens e do modus vivendi das pessoas neste Brasil subtropical tão pouco relatado e conhecido:

Lá na fábrica as máquinas ficam rodando.

No pinhal, diante das escolinhas de mato, cercam-nos mulheres invariavelmente pálidas e apáticas, em torno, olham-nos com receio e curiosidade.

Fazemos a pergunta de praxe: Já ganharam feltro?

_Feltro?
São novos em Pinheiral. Vieram de um dos povoados da redondeza e não sabem que, na fábrica, os feltros servem de correia transportadora do papel e da celulose, em uma fase do seu processo de secagem. Quando, desgastados, se tornam inadequados a tal uso, são secados e cortados em pedaços – verdadeiros cobertores de tecido duro – mas quente, resistentes ao vento, à geada, à chuva ao frio.

Vamos distribuí-los entre a gente dos acampamentos de lenhadores e plantadores de pinheiro, no início do inverno.

Numa enxerga sem colchão estão deitadas quatro crianças. Enrolam-se num feltro e, aquecidas, dão risinhos de contentamento. Escondem as cabeças, quando nos vêem. Depois, lentamente, os cabelos revoltos vão aparecendo na borda do feltro e quatro pares de olhos escuros nos fitam, risonhos. A mãe explica:

_Dois são da vizinha. Os menorzinhos, vieram aproveitar a quentura da cama.

Esfriou muito estes dias. Geou valendo, nos pinhais. O tempo está brusco. E chover piorará. As crianças não foram para a escola porque não têm agasalhos. Debaixo do feltro, riem, sem se incomodar com o tempo.

Encontramos Virso acocorado diante do fogo aceso, sobre o chão de terra batida, no rancho.

_Então, Virso não vai trabalhar hoje?

O lenhadorzinho de dez anos sorri, fitando-nos com seus meigos olhos azuis:

_ Tá muito frio dona!

Onde ele, um cabloco da terra dos caingangues, arranjou aquele par de enormes olhos azuis?

De escolinha em escolinha vamos distribuindo feltros.

Os olhinhos das crianças luzem. A oferta é generosa; poderá cobrir cinco ou seis irmãozinhos. Vamos seguindo a rotina, como se não nos emocionasse a avidez com que as mãos encardidas agarram o pesado volume.

O Ismair contou-nos que é irmão do Saur. Olha-nos todo satisfeito, mal podendo sobraçar o grande feltro.

_Nome do seu pai?

_João de Jesus.

_ De sua mãe?

Parece não nos compreender. Subitamente ri, os dentes alvos realçados no rostinho escuro. E, de olhos muito abertos, afirma-nos com precisão e firmeza:

_Nome da minha mãe? Mãe, ué!





3 comentários:

Bea disse...

vc mereceu Pedro a indicação!!
tu é, como dizem por estas bandas mais ao sul, de lei!!
abraço, beatriz

Parofes disse...

Parabéns pela indicação, merecido demais!
Opa, começou a trabalhar, sério??? Conte detalhes!
Abraços, viajo hoje, veja o blog!
Paulo

Montanha Ativa disse...

Parabens Pedro.