Blog do Pedro Hauck: Retrocesso na Escalada: Comentários

11 de dezembro de 2008

Retrocesso na Escalada: Comentários

Gostaria de agradecer as pessoas que leram minha coluna do site Altamontanha.com e colocaram suas opiniões.

Acho que uma discussão de toda a comunidade escaladora é muito importante neste momento e vou embasar meus argumentos, complementando o texto e replicando alguns comentários.

Para começar, vou justificar porque eu utilizei a palavra retrocesso ao invés de decadência em meu texto. Retrocesso é o ato de retornar ao estado anterior, enquanto que decadência é o declínio ou enfraquecimento de algo. Através desta simples explicação justifico que o fechamento da Casa de Pedra e de outros 5 ginásios de escalada no Estado de São Paulo representa claramente um retrocesso.

A questão é o que acontece depois de um retrocesso. Geralmente uma crise e crises podem resultar em decadência, ou superação.

Este assunto sobre o retrocesso, crise e decadência na escalada já foi discutido por mim outras vezes:

25/05/2008: Uma crise no montanhismo e escalada.
24/07/2008: Reflexões sobre os velhos problemas nas montanhas.
16/09/2008: Pessoas Físicas na Fepam
21/10/2008: Parques Proibidos

Vários fatores aconteceram para que esta crise viesse a abater a escalada brasileira. Eu não sei qual deste fatores teve o papel mais forte nisso tudo que aconteceu, mas não é preciso ser um gênio para perceber estes problemas...

Primeiramente, como eu disse no texto, a escalada, assim como qualquer atividade é passivel de se transformar em uma moda e atrair muitos adeptos que depois de um tempo migram para outra atividade e isso aconteceu com certeza, ainda mais dentro dos ginásios que apresentam uma grande comodidade e facilidade para as pessoas começarem.

Em seguida, temos outros problemas com a escalada muito graves que foram as proibições e restrições. Realizamos nossas atividades em áreas naturais e elas sofrem de problemas de degradação. A escalada em si não é muito impactante, mas nossos orgãos ambientais não vão trabalhar ao nosso favor para provar isso. A atitude de proibir antes de conhecer foi algo tomado em quase todas as unidades de conservação no Brasil. Em muitos casos travamos grande lutas e quedas de braço e conseguimos algum progresso, mas em muitos lugares que são importantíssimos para a escalada, como a Lapinha em Minas, essa briga ainda teve resultados para nós.

A proibição da escalada é um retrocesso em nossa atividade, pois além de sermos impedidos de fazer aquilo que nos propomos, ainda somos marginalizados diante da sociedade.

Em seguida, há a questão da falta de educação de muitos escaladores. Gente que não sabe respeitar a cultura dos locais onde tem escalada. Saibam que muitos dos locais onde proprietários proibiram a escalada foi por este motivo, embora existam também muitos proprietários sacanas e ignorantes. Entretanto, fumar "um" dentro da propriedade dos outros, fazer bagunça, barulho, jogar lixo no chão, estragar plantações e largar porteiras abertas para o gado fugir são irresponsabilidades nossas que voltaram mais tarde contra nós através das proibição particulares.

O problema da falta de educação é um ato de auto-boicote, pois com o mal comportamento e a falta jogo de cintura, os próprios escaladores acabam por contribuir para sua própria marginalização.

Há ainda o problema da falta de incentivo. A escalada precisa de constantes renovações, pois alguns param e outros começam a escalar. Este é um problema grande, pois há uma falta de incentivo para que apareçam novos escaladores.

Para começar, o preço dos equipamentos assustam muitos pretendentes a serem escaladores, mas isso sempre foi assim. Quem não tem grana pra escalar tem que se virar, seja comprando equipo usado, ou comprando coletivamente e aos pouquinhos. O que não contribui, e muito, com a pouca renovação são os próprios escaladores mais experiêntes, pois infelizmente nosso meio tem muita gente arrogante que se sente superior à outras pessoas e não é incomum ver um escalador se achar melhor do que outro só por que escala melhor e por isso julga o principiante de "mané" "farofa" e outros adjetivos negativos.

A escalada ocorre sempre entre amigos ou grupos pequenos. É uma relação de confiança e amizade, mas a individualização excessiva também contribuiu com a não renovação da escalada, pois grupos fechados muitas vezes não permitem que novas pessoas se formem como escaladores. A individualização e a falta de compromisso com a escalada tira as pessoas de clubes e associações que históricamente desempenham o papel de formar novos escaladores. Sem pessoas experientes nos clubes de montanha, não há o desenvolvimento do montanhismo em sua forma mais técnica, a escalada.

A falta de comprometimente não é responsabilidade apenas de escaladores e montanhistas experientes e egocêntricos, mas também dos próprios empresários do meio da escalada. Muitos reclamam que o meio não dá dinheiro. Dinheiro é algo importante, pois ninguém vive de filantropia, entretanto estes empresários tem que pensar que apoio e patrocinio é investimento. Você gasta dinheiro em um atleta com projeto interessante e depois tem seu retorno em divulgação.

As marcas de montanha, foram aos poucos deixando de patrocinar eventos e atletas de escalada e sem este investimento, acabou-se a renovação, divulgação, etc. Hoje, nem mesmo os campeões brasileiros de escalada, Janine e Cesinha tem patrocínios, assim como o montanhista brasileiro mais experiente, Waldemar Niclevicz não tem para escalar montanhas no Himalaia e nem mesmo o site Altamontanha tem para divulgar gratuitamente a cultura da montanha na internet, vide que nele não há anuncios de marcas, apenas do Google.

Sem dinheiro, não é possivel organizar campeonatos de escalada profissionais. Embora termos grandes talentos individuais de atletas que treinam e se dedicam como profissionais, nossos campeonatos não são profissionais, pois só são realizados na boa vontade de alguns voluntários. Se conseguimos alguns patrocínios, eles bancam apenas as despesas operacionais de um evento, mas a premiação de nossos campeões continuam sendo injustas. Sabe quanto o Cesinha ganhou quando ele levou a etapa curitibana do brasileiro este ano? R$ 250,00. Por mais que exista boa vontade e trabalho de muita gente para conseguir esta premiação, temos que concordar que isso não é suficiente e algo falhou para que nossos campeonatos não fossem mais atrativos.

Falo de campeonato pois eles são importantes, pois são um cartão de visitas da escalada, pois é aí que está a parte que deveria ser mais lucrativa da escalada. Campeonatos têm público, tem apelo na mídia, são emocionantes e causam grande impacto. Se você faz um campeonato que tem visualização, haverá certamente retorno para os patrocinadores. Só para comparar, quanto não deve ter custado para os organizadores construirem aquela mega-rampa em São Paulo para o skatista Bob Burnquist voar no meio do sambódromo? Muito dinheiro! Mas mesmo assim teve muito retorno e por mais que o skate seja muito mais conhecido e praticado do que a escalada, quantas pessoas daquele público enorme iriam saltar da mega-rampa? É a mesma coisa na escalada, nem sempre quem está assistindo vai escalar, mas aquilo irá chamar a atenção das pessoas certamente e isso voltará em divulgação ao escalador.

É neste momento de crise que vamos sentir se a escalada irá se recuparar e contornar a situação, ou, se nada mudar, sofrer com a decadência... Só nosso comportamento irá dizer o futuro, o caminho é esse e pra começar é preciso reconstruir o que perdemos.

7 comentários:

cami disse...

Nossa! Ta escrevendo mesmo hein Pedro! Varios artigos nas ultimas horas!!hehe!! Abraço!

tacio philip disse...

Falta divulgação e propaganda da escalada.
Custo de equipamento não é desculpa já que outros esportes (como por exemplo corrida de aventura que tive um bom contato no final de semana) são muito mais caros e estão cada vez maiores.
Falta também é que o "empresário" da escalada (seja de um ginásio, site, escalador, lojista etc.) veja a escalada como um negócio, não só um modo de vida, tem que saber separar hobbie de trabalho.
Mas a falta de educação que vc comentou realmente afeta em muito. O Guaraiuva mesmo esta fechado por isso.
Mas não podemos esquecer também que agora chegou a época das chuvas e uma crise global que esta abalando muita coisa, é fácil falar que a escalada esta diminuindo com o aumento das chuvas. Afinal como todos escaladores acho que fico deprimido nessa época do ano e só esperando a próxima temporada...

Ciça disse...

Então Pedro, quanto aquele caso lá de Floripa, pelo que fiquei sabendo é pura má vontade da prefeitura, que alega que não houve nenhum contato por parte dos idealizadores, quando na verdade houve, além disso a prefeitura vem deixando a desejar com outro parque da cidade, o Parque Aventuras, onde ficaria responsavel pela manutenção e nem isso fez... Infelizmente, podemos torcer para que a secretaria de esportes da cidade tome conciência da importancia desses locais e ajude a resolver os problemas.... Beijos!

Tite disse...

A escalada definha por absoluta culpa dos... escaladores!!! Nunca vi uma categoria esportiva que tivesse tanta gente mesquinha e miserável! Se o proprietário de uma terra cobra R$ 10,00 para permitir o acesso, manter as trilhas etc o escalador miserável briga alegando que a rocha "pertence à natureza". Estão pagando pela miserabilidade.

Há 3 anos divulga uma área virgem de escalada am Socorro, SP. Tem potencial para abrir várias vias. O dono investiu maior grana pra construir banheiros, restaurante, lanchonete, trocar as proteções e o miserável chega lá e reclama de pagar R$ 15,00 para escalar. QUINZE REAIS, PORRA! Meio ingresso de cinema em SP.

Eu desisti de divulgar essa rocha e agora fica esse bla-bla-blá de "oh, de quem é a culpa...".

A mesalidade da CP estava em R$ 99,00 com direito a biomecânica e uma aula de Yoga. O neguinho reclamando! Então vai ter de ir na Competition pagar 300 paus pra correr na esteira!

Não falta nem propaganda, nem divulgação: falta é abrir a mão!

gerusapalhares disse...

Falta de divulgação da escalada... Tantos outros esportes, como por exemplo o boliche são tão pouco divulgados como a escalada e são até esportes olimpicos.
Concordo com o Tacio que não é o custo dos equipamentos não é desculpa e que existem outros esportes onde o material é tão caro e estão crescendo.
Todo esporte tem seus altos e baixos.
Tudo é um ciclo. Pelo menos o que vejo aqui é que só entra gente. Nunca vi tanta gente nova como este ano começando a escalar.

Neudson disse...

Concordo em tudo contigo Pedro.
Tenho ficado muito indignado com o posicionamento de muitos escaladores com o que está acontecendo. Gente que parece que quer a escalada só pra eles.

Mas é isso ai, temos que dar tempo ao tempo e ver como as coisas vão ficar. Aqui no Ceará a tendência é de crescimento. Com a federação, o campeonato, e o esforço de algunns em manter o único muro de escalada aberto, nova gente tá aparecendo e gente antiga q tinha parado, têm voltado. E isso é muito bom.

Vivian disse...

O seu texto toca em vários pontos importantes.
Como escaladora iniciante, percebo que o esporte é pouco divulgado, e quando feito, se torna algo distante da realidade, um esporte para poucos.
Vivênciando essa crise em São Paulo, percebi que muito se deu pela falta de profissionalismo dos ginásios, falta de divulgação e principalmente falta de união entre os escaladores.
Sou obrigada a concordar com o depoimento do Tite, ao que diz respeito a categoria ter muita gente mesquinha.
Tudo na vida necessita de investimento, de incentivo, apoio e união....