Blog do Pedro Hauck: Arenitos de Vila Velha: Relevo Ruiniforme e paisagem de exceção

14 de novembro de 2008

Arenitos de Vila Velha: Relevo Ruiniforme e paisagem de exceção

Alguns lugares chamam muito atenção devido a afloramentos rochosos que assumem formas enigmáticas, um destes lugares é o Parque Estadual de Vila Velha em Ponta Grossa - PR.

Vila Velha é um típica sítio de relevo ruiniforme, ou seja, são formas de relevo em estágio final de erosão. Assim como Vila Velha, há muitos outros sítios de relevo ruiniforme no Brasil, como o Parque Nacional de 7 cidades no Piauí, o salão de Pedra em Conceição do Mato Dentro em Minas, e também a Chapada dos Guimarães no Mato Grosso, entre outros.

Todos estes lugares (menos Conceição do Mato Dentro, que é quartzito) tem em comum a litologia sedimentar de arenito, que é uma rocha pouco resistente.

A história morfológica destes lugares passou por diversas fases e processos erosivos, desde processos morfogenéticos, que são aqueles de climas secos e também pedogenéticos, em climas úmidos.

Entretanto o que chama atenção, no caso de Vila Velha, são os sulcos provocados por água com grande energia, o que indica que no topo dos arenitos havia um grande planalto que drenava uma grande quantidade de água que caía exatamente naquele local, provocanado grandes cachoeiras que sulcaram todo o arenito. O estranho é que este arenito, que era o limite daquela escarpa, ainda está lá, enquanto que tudo o que havia para trás foi erodido, o que mostra que aquele arenito em especial é mais resistente, ou seja, mostra que ali ocorreu uma erosão diferencial.

Em todos os locais da ocorrência destas formas fantásticas, há interpretações fantasiosas sobre suas origens. Fala-se em extraterrestres, Egípcios e Fenicios trabalhando para erguerem monumetos e por ai vai. A criatividade popular é muito grande para explicar as origens e também para ver formas, daí o nome das formações, como Taça, Bota, Garrafa...

Estes sítios de relevo em ruínas são paisagens dotadas de grande excepcionalidade. Mais do locais propícios para conduzir estudos geomorfológicos de processos e de história do relevo, devemos enxergar a totalidade da paisagem e notar quão excepcional se comporta a geoecologia destes locais.

Em Vila Velha encontramos espécies arbóreas endêmicas dos Planaltos meridionais e subtropicais do Brasil, mas também encontramos espécies de gramíneas e palmeiras típicas de cerrado. Temos Araucárias, mas temos também Angicos e Perobas tipicas da Mata Atlântica, isso pra não dizer em cactaceas, cuja origem eu ainda não sei dizer, mas que é uma vegetação relictual de um clima mais seco que existiu na região durante o começo do Holoceno, já que no Pleistoceno terminal as médias de temperaturas por lá deviam ser muito baixas para a existência de espécies suculentas.

Tenho muito a dizer sobre esta paisagem. Esta será minha missão até Abril do ano que vem. Estou escolhendo a região de Ponta Grossa como área laboratório para comprovar uma hipótese sobre como se comportou a paisagem na região com as mudanças ambientais que existiram há 10 mil anos atrás em decorrência do último máximo glacial. O que tinha nesta época e como a paisagem se transformou para aquilo que nossos avós conheceram, já que vou ignorar a história ecológica da ação antrópica, quero apenas saber da originalidade (uso de histórico solo fica pra quem se interessar depois).

Enfim é isso, vamos por a mão na massa.

Meu amigo engenheiro florestal e montanhista Marcelo Brotto, está dando uma grande ajuda na pesquisa. Em foto, portando um podão devidamente autorizado para coleta.

Uma fisionomia aberta próxima aos afloramentos de arenito.

Um belo paredão bastante sulcado por paleocachoeiras.

Um campo edáfico, fisionamia aberta condicionada a solos hidromóficos.

Um Capão de Araucárias com espécies de Syagrus, que são coqueiros comuns em climas mais quentes.

Incontestável testemunho de uma paleocachoeira, a chamada "Garrafa". (E não é que parece!)

Mais arenitos em ruinas.

Mais formas esculpidas por água.

Uma falha geológica. Assim como esta, várias outras serviram de ponto de incisão para a erosão e penetração de água.

Paisagem ruiniforme dos arenitos.

Mais formas em ruinas.

Formas que são relativas à climas secos e deserticos, com dias quentes e noites frias (ao exemplo do Saara). De Dia o arenito se dilatava como calor e a noite se contraía, com o tempo formou-se este desplacamento em forma de escamas, comuns em muitos sitios de relevo ruinifiorme. No Piauí popularmente são chamados de "cascos de tartaruga", mas no Paraná está bem suavisado pelo clima mais umido atual.

A famosa Taça. Este é um monumento que restiu a muitos eventos erosivos, dentre eles, pode ser que tenha ocorrido jatemento de areia em um antigo deserto que adelgou a base do arenito. Com o clima (mais ou menos) umido dos ultimos 1,5 milhões de anos, ele arredondou-se e ficou mais suave. Em lugares deserticos, como o Atacama, é comum achar estes monumentos com o nome de "cogumelo" devido a forma bem peculiar.

Estas microformas (pequenos Tafonys) são indicios de um jateamento de areia numa época seca.

Uma furna, um relevo karstico em rocha não carbonática (arenito). Neste local havia uma caverna que teve seu teto desabado. Fora estas formas karsticas, há na região muita dolina de dissolução e sobre elas campos edáficos, pois o solo é hidromórfico.

4 comentários:

Ricardo disse...

Olá, caro companheiro de formação e de esporte! Apenas para evitar um disseminação mais ou menos equívocada das formas em Vila Velha, pois sou estagiário do parque a algum tempo e temos lutado para erradicar de uma vez a disseminação da atribuição das feições de relevo ruiniforme a ação dos ventos quando na verdade existem diversas evidências que demonstram a ação das águas pluviais como principal fator de esculturação do relevo.

Veja : < http://www.uepg.br/Propesp/publicatio/exa/2002/01.pdf >

Se ainda estiver desenvolvendo as pesquisas no parque podemos fazer uma campo juntos para compartilhar algumas informações.

Forte abraço, Boas pesquisas e Boas escaladas!!

Ricardo Letenski

Pedro Hauck disse...

Oi Ricardo

Conheço bem o texto do Melo, aliás não só este, mas muitos outros.
Concordo com o que disse sobre a importancia da agua pluvial como agente na evolução do relevo de Vila Velha. Se vc ler atentamente o texto principal, irá notar que atribuo à agua seu papel nesta história.
Entretanto não podemos deixar de salientar que o relevo de Vila Velha tem pelo menos 1.5 milhões de anos e que no Quaternário tivemos grandes oscilações climáticas com climas tendendo do semi-árido ao úmido. Embora os períodos secos não tenham sido tão prolongados como no Terciário, certamente eles tiveram sua importância na morfogênese do relevo de Vila Velha.
O que temos lá é o resultado de uma sucessão de climas bem distintos que também é verificado em outros locais também excepcionais do sul do Brasil, como em Caçapava do Sul. Em breve esta pesquisa estará sendo publicada e terei o prazer de poder comentá-la aí em Ponta Grossa. Abs.

Ricardo disse...

Ainda tenho algumas ressalvas e confesso que fiquei bastante curioso para ver o resultado desse trabalho. Quando ele estiver pronto gostaria muito de poder lê-lo e trocarmos algumas idéias. Sds

Pedro Hauck disse...

Blz, me manda um email que conversamos: pedro@gentedemontanha.com.