Blog do Pedro Hauck: Face Leste do Pico Maior de Friburgo: 700 metros de escalada!

20 de agosto de 2008

Face Leste do Pico Maior de Friburgo: 700 metros de escalada!



O Pico maior de Friburgo é a montanha mais alta da Serra do Mar, na minha opinião é também a mais bonita, pois é um enorme monolito de Granito/Gnaiss que sobressai entre dois outros de também grande beleza, o Menor e o Capacete.

A região onde fica esta magnífica montanha é considerada a meca de escalada de aventura do Brasil, Salinas, um nome que veio de um vale próximo à montanha e que causa muita confusão, pois o nome verdadeiro do local é Três Picos e hoje é um Parque Estadual do Rio de Janeiro.

A Face Leste é uma das escaladas mais tradicionais dos Três Picos, a via foi aberta em 1974, um grande feito para a época e apesar do jeitão tradicional, a Leste é ainda uma via moderna, mas com toques de escalada de antigamente, com lances de chaminé e A0 em 700 metros de parede, o grau da via é: 5 V (6sup A0) E3.

Há muito tempo queria escalar a Leste, mas nunca tinha tido a oportunidade de ir para Nova Friburgo, pois escalar lá não é para qualquer um, apesar de ser uma via técnicamente fácil, ela é muito mais fácil de se perder e é preciso ter experiência para não se incomodar com a exposição.

Como estava vindo de uma escalada também longa, que foi a Obra do Acaso no Pico do Baiano, achei que estaria pronto para encarar uma escalada em Salinas e fui direto na via mais clássica.

Como a gente estava sem informações, passamos no refúgio do Sergio Tartari onde compramos o guia recentemente reeditado, aproveitando para conhecer o local e a lenda, um cara muito tranquilo que mora na região há 17 anos!

Depois de pegar uns "betas" fomos para a parede, onde bivacamos na base para começar a escalar cedinho no outro dia. Só havia um problema, havíamos esquecido de comprar algo salgado para comer e tudo o que tínhamos de jantar era bolacha, "Goiabinha" de chocolate e água, foi comer e passar uma noite tranquilo, muito estrelada, à espera dos primeiros raios de sol.

Ao amanhecer, tomamos um café da manhã com Goiabinha de Chocolate, bolacha e água e às 6:30 estávamos começando a escalada.

A primeira e segunda enfiada são bem fáceis e positiva. Entre a terceira e a quarta senti o que é escalar em Salinas, interpretei mal o croquis e errei a via, estiquei a corda e acabei parando num lugar onde fica uma parada de rapel, fora da via. Tive que desescalar para voltar para a via e puxar um baita dum arrasto para depois dar segurança para o Tacio que vinha de segundo.

Corrigindo o problema, voltamos para a escalada. Dá para sentir como a via reflete a época que ela foi conquistada. Em vários trechos há aderências que poderiam ser escaladas sem problemas, mas a via desvia destes lugares por causa disso, a via tem enfiadas curtas, pois estes desvios fazem que a corda fique com muito arrasto, sendo difícil de escalar assim.

Há também vários trechos onde esses desvios não são sinalizados, ou seja, não há grampo nenhum e vc acaba indo reto, por isso que para fazer esta via é preciso estar com o croquis na mão e saber ler ele direito.

As chaminés são outros lances à parte. São duas, sendo que a primeira tem uma saidinha que pode deixar muita gente na perrengue, não dá pra cair nestas chaminés, pois elas só tem grampos no começo e na saída, um tombo ali é pra deixar o neguinho todo ralado. se ele tiver sorte.

No final da última chaminé há uma enfiada em A0, protegida com grampos caseiros. Passamos este lance usando estribos, o que facilitou muito. Há um outro lance em artificial, mas é muito fácil livrá-lo, pois lá é um 5 grau!

Fizemos a Leste em 17 enfiadas, pois há muitos lugares onde é preciso para no meio por causa do arrasto, nem por isso demoramos muito, fizemos a via em 8 horas, chegando no cume às 14:30 e depois, rapelando pela Sylvio Mendes, chegamos na base às 17 horas! Nada mal para quem nunca tinha ido à Salinas, terra das longas noites!

Comemos mais "Goiabinhas de chocolate", bolachas e água para comemorar esta escalada, nossa última nesta "geomorforocha trip". Temos certeza que estaremos em Salinas em breve para fazer mais vias, o lugar realmente é uma meca e merece muitas outras visitas.

Antes de voltarmos para São Paulo, demos uma passada no Rio, mas sem ânimos para escaladas. Passamos uma noite na casa da Gerusa Palhares, e depois mais estrada. Foram quase 20 dias de viagem entre Simpósio de Geomorfologia e escaladas, cerca de 2600 quilômetros rodados, agora preciso de pôr a vida em dia, até a próxima...

A Face leste do Pico Maior

Local do bivaque na base da via.

A montanha com os primeiros raios de sol.

Começando a primeira enfiada.

Limpando a segunda...

Subindo a quinta enfiada.... as vezes o Quinto grau da via parece o Quinto dos infernos! Impossivel escalar a Leste sem passar um veneno!

Parando para descansar no bloco no começo da primeira chaminé.

Tacio vindo de segundo em uma das 17 enfiadas, não me pergunte qual que já esqueci!

Mas essa foto se não me engano é na décima segunda!

Ô montanha grande!!!!!!

Quase lá...

Mas antes tem que se ralar mais um pouco na segunda chaminé!

E guiar os artificiais...

Agora sim, penúltima parada! As árvores ficaram do tamanho de brócolis!

Enfim, cume!


E o visual, com a Serra dos Órgãos no fundo!

E o Pico Menor

Foto de cume, antes de fazer intermináveis rapéis por outra via. Pelo menos não precisamos levar duas cordas!

Pra ver mais fotos, não deixe de ver as fotos do site do Tácio: www.tacio.com.br

2 comentários:

gabriel disse...

fala ae grande pedro! parabéns pelo trabalho sobre a via "leste do pico maior de friburgo". estou indo no feriado do 7 de setembro passar aquele perrenge lá, andei pesquisando e vi que algumas pessoas reclamaram de croquis mal feitos da via. vc me sugere algum? quaisquer outros betas tbm são bem vindos! abçs, Gabriel Tropia

Ester Capela disse...

Pico dos meus sonhos... e frustração também...
Vendo as fotos, escalei junto \O/

Pedro, parabéns! Relato lindo com b.e.l.í.s.s.i.m.a.s. fotos!
Bjuxxx