Blog do Pedro Hauck: Outra relação escalador mídia: Patrocinios!

3 de junho de 2007

Outra relação escalador mídia: Patrocinios!

Patrocinio, algo tão desejado por uns, e por outros execrado!

Dentre as várias críticas, uma é que tem gente que não aceita se "vender", o que é uma grande besteira, pois dentro de nosso modo de produção capitalista e acumulativo, nós pobres mortais nada mais temos na vida a não ser nossa pouco valorizada mão de obra, a não ser que o escalador "revoltado" não participe desta esfera do sistema (aí também quem se venderia?).

Outra crítica é que o patrocinado perde sua autonomia, e precisa ficar aparecendo toda hora na mídia fazendo macaquices para vender e se adaptar ao público, e não o público à realidade da escalada. Traduzindo, o cara tem que aparecer na mídia fazendo rapel, enquanto que o que ele queria era escalar a Trango Tower.

É galera, se a gente tem que dançar a música, então é preciso rebolar... Não dá pra sonhar com o patrocinio sem ficar dependendo da mídia, mas isso é ético?

Novamente caímos naquela velha questão! E aqui as coisas se divergem.

Patrocínios não são filantropia. O Patrocinador tem interesses de marketing com o patrocinado.
O marketing esportivo é uma super ferramenta para se criar mercados. Tanto é que anualmente as empresas gastam uma fortuna divulgando suas marcas em atletas, eventos, equipes etc... Quem é que não consegue fazer uma analogia entre a seleção brasileira e a Nike, a Vodafone e a Ferrari, a Toyota e a Copa Libertadores.... a lista é grande, não preciso ficar citando exemplos.

Você sabe quanto custa no horário nobre da Televisão uma cota de 30 segundos para a divulgação de um comercial na Globo? Uma fortuna, algo como uns 200 mil reais!
Imagine quanto que o patrocinador de um time de futebol não iria gastar para fazer um comercial de 90 minutos no domingo à tarde? Muito mais que dar um patrocínio para o Corinthinas! pode ter certeza!!!

São estes os cálculos que fazem valer um patrocínio. O quanto aparece a marca, por quanto tempo e qual a potencialidade de consumo deste espectador.

Agora imagine que a final da Copa do mundo foi televisionada em todos os países do mundo. Até o Bin Laden deve ter assistido!
Imagine o quanto que uma empresa querendo vender seu produto não gastou para ter seu nome no estádio do final da Copa!

Pois bem, com o escalador a lógica será a mesma, mas em uma escala muito menor, é claro! Afinal as marcas que produzem equipamentos de escalada e montanhismo tem um público muito mais restrito, e os escaladores aparecem na mídia muito menos que o Ronaldinho.

Os escaladores patrocinados tem uma missão: aparecer, para vender e conseguir sobreviver!

Para que isto ocorra, num cenário nacional, muitas vezes é preciso apelar para um público muito mais abrangente, e assim ser rotulado não como um escalador, mas como um esportista "radical", e aí vc vai ter que fazer um monte de coisas para aparecer e sua montanha vai ficando cada vez mais distante.

Obviamente tem as pessoas que são muito boas no que faz e conseguem um "patrocinio" na base da filantropia mesmo. No próprio montanhismo há pessoas completamente anônimas para o público geral, mas que têm patrocínios, mas cara merece, mesmo que ele não apareça na mídia!

Mas por que no Brasil há tão poucos escaladores profissionais?
Isso é realmente uma lástima, pois temos evoluído muito nos últimos anos com gente se destacando em todos os segmentos da escalada, seja esportiva, tradicional, alta montanha etc...
Posso citar o caso do meu amigo e companheiro de cordada Maximo Serantes. Ele tem se destacado e virado "lenda" das histórias de acampamentos bases mundo afora, fazendo escaladas técnicas, inéditas e solitárias em vários lugares no mundo, como no Ama Dablan no Nepal, Quitaraju no Peru e Korjenevskoya no Tadjiquistão.

No Brasil ele ralava como técnico de informática e professor de espanhol, mal dava pra ganhar a vida. Ele acabou migrando para a Inglaterra e trabalhando muito, cerca de 70 horas por semana, conseguiu comprar seus equipamentos e ter dinheiro para as expedições no Himalaia, ao ponto de ter o reconhecimento de expedições no Himalaia, que ele tem trabalhado como guia internacional, algo que não sei se outros brasileiros já conseguiram.

O Maximo conseguiu algo que poucos latino americanos conseguiram, entretanto não conseguiu se livrar de um problema que atinge 9 entre 10 atletas da América Latina, a falta de apoio.

Muita gente acha injusto alguém com o "curriculum" que o Maximo tem não ter patrocinio. Pior, não podemos culpar a falta de divulgação dos feitos do meu amigo, pois junto comigo editamos um dos websites mais conhecidos e completos sobre alta montanha no Brasil.

O que faltou neste caso?

Melhor eu nem dar minha opinião... (Qual é a sua?)

Bom, este pode ser um outro motivo para os escaladores execrarem os patrocinios. Juntem todos os outros fatores que eu citei para se chegar ao final e não ganhar nada, só perder tempo fazendo rapel para aparecer na TV e não dedicar nosso tempo e dinheiro (conseguido trabalhando) para ir à Trango Tower.

A lógica do patrocínio eu falei, não se trata de filântropia, mas sim de um marketing ético (tem que ser!). A mídia faz parte deste universo, mas a receita do bolo que faz existir um professionalismo no cenário das escaladas nacionais, parece que não sai da assistência filantrópica... infelizmente!

Maximo em 2000 escalando na Patagônia. piolet de madeira, anorak de brexó, calça costurada à mão com preenchimento de lã de vidro, tênis e um crampon (a gente só tinha um par, eu estava com o outro pé!). Por grande ironia esta foi nossa expedição mais bem divulgada...

Um comentário:

Bruno Alberto disse...

Realmente, patrocínio não é filantropia!!! Mas pouco a pouco, as cabeças se abrirão...
Parabéns Pedro, continue escrevendo, e acima de tudo, escalando!
Grande abraço