Blog do Pedro Hauck: Cajon del Maipo

27 de fevereiro de 2006

Cajon del Maipo

:: Leia a parte que antecede esta história

A ideia de realizar esta viagem de carro foi a de estar livre para irmos em montanhas que sao dificeis de se chegar com transporte normal e poder ir de uma montanha em outra por nossa própria conta.

Ir para o Cajon del Maipo no Chile parecia ser ideal, pois la existem varias montanhas próximas e acessiveis por estradas mas que nao seria nada fácil chegar se fossemos de ônibus. Outro critério de escolha foi o fato das montanhas do Cajon serem escaladas técnicas em gelo que não necessitam mais que um dia de escalada, ou seja, em poucos dias poderíamos escalar varias montanhas bonitas, técnicas e baixas e também não teríamos problemas com a altitude.

O primeiro lugar que escolhemos para ir foi Baños Morales, um pequeníssimo vilarejo no fundo do Vale.

Para Chegar lá foi uma grande odisseia. Sair de Santiago foi dificílimo, pois a cidade não tem sinalização. Há Placas com o nome das ruas, mas não há placas dizendo onde elas vão, ou seja, perdemos horas nas ruas de Santiago procurando uma avenida para sair da cidade.

Toda esta odisséia piorou com o fato de o povo chileno ser muito pouco amistoso. Nao que isto seja um preconceito, mas o chileno eh muito fechado e não sabe dar informação, aliás, parece que não gosta muito de estrangeiros que, como nós, não querem pagar pelas informações que eles teimam em vender e não dar.

Estivemos no Club andino Alemão de Santiago, perguntando sobre as condições das montanhas e coisas do tipo.... Eles não estavam nem aí conosco, e fomos ao Cajon del Maipo sem saber de nada do que iriamos escalar ou encontrar pelas montanhas.

Assim chegamos em Baños Morales... Olhando as montanhas do vale, vimos o Cerro Morado e decidimos que ele seria a nossa primeira montanha a ser escalada no Chile.

O Morado eh uma montanha de dois cumes envolta por glaciares. Há Dois acessos à ela, um eh por Baños Morales e outra mais acima por uma lagoa chamada Morado, fomos por esta ultima pois pela informação que tivemos, lah tinha mais gelo.

O trekking de aproximação na montanha era bem curto, o fizemos em apenas 3 horas. O local era muito bonito, uma lagoa de borda de glaciar com uma cascata de gelo imensa pendurada numa parede de uns 300 metros de altura, este eh o glaciar colgante del Morado.

glaciar colgante del Morado

No primeiro dia apenas descansamos e deixamos a escalada para o dia seguinte, quando fomos ao colgante del Morado.

Este glaciar tem todas as características de uma cascata de gelo, como a do Khumbu no Nepal. Muitos seraks e gretas grandes, tudo isso em movimento, imperceptível à nós que estávamos lah a pouco tempo.

Dormimos bastante e só chegamos na base da geleira por volta das 11 da manha. Chegando lah procuramos uma boa torre de gelo para praticar a escalada em gelo. Encontrada nossa parede de gelo, Maximo subiu por um caminho fácil e no topo montou uma ancoragem para escalarmos um pouco em Top Rope.

Enquanto esperava o Maximo montar a ancoragem no topo da parede de gelo, um estrondo parecido com um trovão se rompeu no topo da geleira e quando olhei ao alto para ver o que havia acontecido, uma imagem que nunca imaginei que iria ver na minha vida, ou que pelo menos apenas imaginei que seriam as ultimas de minha vida aconteceu: Uma grande massa de neve e pedaços de gelo caiam exatamente na direção em que eu estava. Nao dava para acreditar, mas eu estava exatamente na rota de uma avalanche!

Olhei para o alto e vi aquela massa branca se aproximando em velocidade, pensei comigo que nao poderia estar vindo à mim. Varias vezes eu jah havia visto uma avalanche, mas elas nunca caiam onde eu estava. Antes de meu cérebro processar esta realidade, minhas pernas jah tinham respondido ao impulso de sobrevivência e eu sair correndo até embaixo de uma torre de gelo, onde nenhum pedaço de gelo caiu e assim saí sem nenhum arranhão, apenas com o coração na garganta e pernas bambas.

No topo da torre de gelo, Maximo berrava meu nome, achando que talvez eu tivesse sido engolido pela avalanche. Demorei a contesta-lo, pois naquele momento mal conseguia falar. Entretanto, quando recuperei a fala ele se acalmou.

Mesmo depois de um evento que poderia ter acabado conosco, não havia porque nos preocuparmos, pois estatisticamente não ocorrem muitas avalanches num mesmo dia, assim que decidimos continuar escalando. Entretanto o tempo fechou e logo tivemos que voltar para a barraca.

A imagem da avalanche ficava martelando minha cabeça. Esta foi, sem duvida, uma experiencia desagradável.

Escalada no Morado

Glaciar Morado

Dia seguinte acordamos antes do sol nascer e voltamos cedo para a geleira. Começamos a escalar e logo  pegamos altura.

Entretanto a característica da cascata de gelo era a maior dificuldade. Uma cascata não eh como um glaciar de vertente que, mesmo com alguns bergschrund permanece sempre rente e com uma inclinação perpendicular a inclinação da montanha. Na cascata de gelo ha esses seraks, que são blocos gigantes de gelo todos difusos. Há lugares com gelo em negativo, há gretas super profundas, pontes de gelo e coisas instáveis.

Logo no começo, fomos afunilando a escalada e chegamos em uma torre com passagens em negativo que não foram nada fáceis de serem guiadas. Azar do Maximo.

Subimos uns 180 metros, ateh chegar em outra parede de gelo com trecho negativo. Lá o gelo era de tao pouca qualidade que a piqueta não se segurava e era impossível bater um parafuso.

Eu jah estava com medo, pois fazia calor e por onde eu olhava haviam rios de agua se formando, ou seja o gelo estava derretendo e isso poderia significar avalanches, como a do dia anterior.

Depois de avaliar ser muito difícil continuar, começamos a decida.

Por sorte logo no começo encontramos um grande bloco de gelo, que lacamos com a corda e pudemos fazer um rapel, chegando ateh uma plataforma.

Foi muito seguro e tranquilo o primeiro rapel. Chegando na plataforma, desescalamos uma superfície pouco inclinada e entramos em uma gretinha com gelo verglas muito duro, onde fizemos um abalakov para descer.

Para quem não sabe, abalakov consiste em furar o gelo duro e passar por ele um cordim ou fita de escalada, onde passamos a corda para fazer o rapel. Apesar de parecer pouco seguro, este tipo de ancoragem, se bem feito suporta o peso de um caminhão.

Rapelamos pelo abalakov sem problemas, acabei abandonado um cordim que eu achei na lapinha, e novamente paramos em outra plataforma, onde fizemos um outro rapel e enfim chegamos na base. Naquele dia discutimos sobre a questão das geleiras e do aquecimento global. Recentemente escrevemos um artigo no site sobre isso. Concluímos estávamos num lugar errado numa época errada. Numa latitude tao baixa era obvio que o gelo estaria derretido num fim de verão.

Nem fomos para outras montanhas no Cajon del Maipo, era muito previsível que todas estariam na mesma condicao, gelo ruim e rochas expostas.... Fiquei com muita raiva por nao ter tido esta informacao antes!!

Devido a estes fatos, deixamos o Chile e viemos a procura de gelo no sul. Agora estamos em Bariloche, onde o frio eh uma realidade.

Descemos em um dia do Cajon del Maipo ateh Talca, pela ruta 5, uma autopista chilena muito movimentada e com pedágios caríssimos. Em Talca pegamos uma estrada para o interior, que logo perdia o pavimento e se transformou numa estradinha de terra horrorosa, com muitas costelas de vaca e perigosíssima, cheio de precipícios, mas belíssima. Esta era a estrada internacional.

Novamente passamos a noite numa fronteira, dormindo ao lado de um lago maravilhoso, o lago Maule, onde muitos chilenos pescavam trutas e outras delicias de águas frias.

Disjunção colunar no Paso de Maule


Acampamento no Paso de Maule

Paisagem no Paso de Maule

Cruzamos a fronteira, descemos a cordilheira e novamente estávamos no deserto do oeste argentino. Quase ficamos sem gasolina no caminho fomos salvos pela gasolina do fogareiro e fizemos 42 Km com um litro, indo abastecer somente em Malague. Claro que fomos ajudados com varias descidas e muita banguela!

Mais um dia de estrada foi necessário para Cruzar o sul de Mendoza e a toda a província de Neuquen. Passamos por lugares lindíssimos no caminho a cada parada para tirar fotos percebiamos uma ligeira mudança na temperatura, ateh que enfim demos conta que fazia frio demais e o vento estava filho da puta demais... percebemos que a paisagem mudara e por fim estávamos na Patagônia.

Agora em Bariloche o tempo está patagônico. Temperatura de 10 graus, umidade de 45% e ventos de 45 km/h.

Se queríamos frio, conseguimos, agora espero o principal. Pegar bom gelo no Tronador.

Esta sera infelizmente nossa ultima montanha na viagem. Pretendíamos escalar como nunca nesta nossa expedição, entretanto os problemas burocráticos e o calor estragaram os planos.

Quero somente escalar em gelo no Tronador. Nao me importo muito em fazer cume aqui, pois eu jah escalei esta montanha em 2003.

Entretanto estou um tanto decepcionado, pois ateh agora eu soh fiz cume do feio e seco vulcão San Francisco em Catamarca, e o Tronador eh uma montanha de três cumes e eu só subi um. Assim que somente lah em cima vou saber o que vou fazer.

Vou esperar para ver o que o tempo tem a me dizer.


ps. novamente desculpem-me pelos erros de pontuação e etc... estou num teclado diferente do brasileiro.


Paisagem no Sul da Província de Mendoza

Rocha Vulcânica

Rio ao lado da Ruta 40

Ruta 40 no Sul de Mendoza

Vegetação do deserto

Falha ao lado da estrada

Nuvens num final de tarde perto de Neuquén

Um comentário:

Gabi Pacheco disse...

Oi Pedro!
Quer dizer então que "o vento estava filho da puta demais"? hehehe...
E que sacanagem chamar o vulcão San Francisco de feio e seco... rs
Mas enfim, boa sorte na próxima escalada, e cuidado com a neve e com as avalanches! Continuo acompanhando e esperando novidades.

Beijos.

PS. Lindas as fotos!