Quinta-feira, Julho 09, 2009

Recuperando-se dos problemas

Algumas coisas aconteceram desde que chegamos em La Paz. Primeiramente eu, que já saí do Brasil com uma gripe terrível, não me recuperei até chegar na altitude boliviana e em La Paz além dos sintomas da doença que eu já tinha, passei a ficar mal de "Soroche".

Hilton teve uma inflamação no canal de um dente e o Maximo teve alguns sintomas de giardíase. Os problemas dos dois se resolveram em La Paz mesmo, o primeiro com os remédios que ele trouxe na bagagem com a experiência de ficar doente no Nepal. O segundo foi no dentista e drenou as melecas que estava em sua gengiva. Só eu que não melhorei...

Acabei indo à um médico, o Dr. Hugo, dono do refúgio Huayna Potosi e andinista e ele fez uns exames e constatou que eu não tinha nada demais, só a minha gripe não havia deixado eu me aclimatar e também a altitude não havia deixado eu melhorar da gripe, ou seja, fiquei com dois males de uma só vez e por isso me sentia tão mal!

Acabei tendo que sair de La Paz a perder altitude. Fui eu e o Hilton até Coroico, cerca de 100 Km de La Paz e 2.000 metros mais baixo. Cheguei de noite a tempo de ver o jogo do Cruzeiro na Libertadores e já dormi bem melhor.

Hoje já não tenho mais febre e os sintomas de gripe estão indo, ainda bem!

Nunca havia estado em Coroico antes. Aqui a paisagem é muito distinta lá de cima. Pra começar é muito mais quente, mesmo em uma altitude de 1600 metros. Outra coisa é que lá em La Paz não há árvores e tudo é mais seco, aqui as montanhas são verdes, há muitos rios, afinal as Yungas é a região pré-andina da Amazônia.

É desta região que vem a maioria dos alimentos de La Paz e também a Coca. Até pouco tempo atrás a ligação entre La Paz e os Yungas era feito pela famosa "estrada da morte", que ficou famosa em alguns emails que mostravam as pirambeiras e montanhas por onde esta estradinha passava. Hoje a estrada da morte está praticamente vazia, sendo que quem mais freqüenta ela são os turistas que descem de bicicleta (60 Km de descida!). Aliás esta estrada tem uma história interessante, pois ela foi construída com presos paraguaios da Guerra do Chaco na década de 1930.

Hoje a estrada que desce para Coroico é bem mais moderna, é asfaltada e tem até túnel!

Lembro-me da primeira vez que vim à Bolívia há 8 anos atrás. As coisas naquela época eram muito precárias, as cidades muito mais sujas e tudo era muito pitoresco de forma que me sentia em um país oriental. Hoje vejo que o país está melhorando muito e se modernizando, embora seja ainda muito atrasado.

Espero poder ir para a montanha em breve. Afinal vim pra cá pra isso. Em breve mandarei noticias, assim como fotos, pois a internet em Coroico é sofrível!!!

A Igreja de Coroico

Um Chola negra. Perto de Coroico ficam algumas das únicas comunidades afro-bolivianas.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Viagem de carro até La Paz.

La Paz com o Illimani ao fundo

Na quinta feira, dia 3 de Julho, acordei às 4:45 depois de uma noite marcada por delírios de uma gripe com febre explosiva que tive um dia antes, pois é, fiquei bem doente às vésperas de ir pra montanha. Muito azar!

Mesmo sem estar bem, peguei o Maximo na casa da mãe dele em Itatiba e segui pra Jundiaí onde o Hilton estava chegando de ônibus vindo de Curitiba. Em pouco tempo nós três estávamos atravessando o Estado de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Dormimos a primeira noite em Aquidauana e no dia seguinte cruzamos o Pantanal até chegar em Corumbá, na fronteira com a Bolívia. Fronteira sabe como é... burocracia, encheção... Pois bem, sempre há guardas que ficam procurando problemas na sua documentação para depois eles oferecerem a solução, paga é claro! (Não preciso entrar mais em detalhes né!)

A estrada na Bolívia começa muito boa, asfalto perfeito, olho de gato na pista, ótima sinalização... Andamos cerca de 400 km nestas condições, realmente perfeito! Esta estrada, que é paralela ao Trem da Morte, era intransitável até pouco tempo atrás. Em 2007, na última vez que estive na Bolívia, já havia reparado os avanços que o país está sofrendo na atualidade e a criação desta estrada ligando o Brasil é mais um destes avanços, que na verdade demorou meio século pra estar pronto.

O problema é que a estrada ainda não foi concluída. Percebemos isso de noite, logo após procurar um hotel, sem sucesso, em San José de Chiquitos, uma cidade minúscula, com ruas de terra e casas humildes e que por ter uma igreja jesuítica bonita é uma cidade turística super movimentada... Fomos dormir escondidos no meio do mato do Chaco Boreal.

Voltando à estrada, meu Deus, quanta poeira! O pior é que ela é muito movimentada, há caminhões enormes, mas não há nenhuma infra-estrutura. De San José de Chiquitos até o final daquela estrada são cerca de 200 Km sem cidades, sem posto de gasolina, sem nada! Papai Noel passa por lá só de helicóptero.

Após passar o caos da falta de infra-estrutura, fomos passar pelo caos do trânsito de Santa Cruz de La Sierra. Alias esta cidade é muito estranha, é uma verdadeira Índia, onde o desenvolvimento convive com o tradicional e a pobreza. Vimos avenidas belas e modernas e outras horríveis com um transito impossível. Por sorte a avenidas que sai da cidade em direção à Cochambamba é das boas e não tivemos dificuldades em deixar a capital "Camba" e rumar em direção à cordilheira.

São duas as estradas para Cochabamba, uma antiga, que passa pelas ruínas de Samaipata e outra nova e toda asfaltada que foi a que tomamos. Infelizmente não muito bonita, pois só entramos na cordilheira nos quilômetros finais.

No começo a cordilheira é toda florestada. São montanhas verdes, muito escarpadas onde é normal ver alguns deslizamentos de terra. Passamos por rios caudalosos e cachoeiras e ao ganhar altitude, vamos perdendo vegetação até que ela se resuma a uma estepe arbustiva e desértica. Logo estaríamos em Cochabamba, em um vale à 2500 metros de altitude, onde só fomos chegar tarde da noite.

Cochabamba é uma cidade bonita. Tem uma arquitetura colonial, uma praça central bonita e histórica, mas também tem bastante coisa moderna. É uma cidade mais ou menos limpa e com uma urbanização melhor que a do resto da Bolívia. Não tivemos tempo de curtir o local, mas quem quiser vale a pena perder um dia conhecendo a cidade.

Partimos ontem de manhã de Cochabamba rumo à La Paz, nos 380 Km mais bonitos que fizemos até agora na viagem. O começo é marcado pela subida nos Andes, deixamos rapidamente a cota dos dois mil metros, subindo por zigue-zagues na estrada e quando vimos estávamos no altiplano a mais de quatro mil metros!

As pirambeiras da subida ficaram para trás e agora dirigíamos nossa Ecosport por uma região quase aplainada, de onde apenas se desponta algumas colinas recobertos por arbustos numa terra quase estéril, fria e seca ao ponto que respirar se tornava difícil, ainda mais com minha gripe ainda não curada.

De longe o altiplano é uma terra pouco atrativa, mas é muito diferente de nossas paisagens. É um lugar ancentral muito povoado já há milhares de anos pelos Aymarás, a principal etnia da Bolívia. Rompe com a monotoneidade o aparecimento de algumas montanhas nevadas nas bordas desta altiplanície. No Leste, são as montanhas da Cordilheira Real, como o Illimani, Huayna Potosi, Mururata e outros. No outro lado, há duzentos quilômetros de distância, aparecem os Payachatas e o Sajama, vulcões da cordilheira Ocidental, tão distantes e visíveis.

A paisagem aparentemente selvagem dá lugar à algumas aglomerações de casas que logo ficam densas, junto com o transito. Ainda estamos no altiplano, mas dentro da maior cidade satélite boliviana, El Alto, região metropolitana de La Paz.

Na avenida vemos caminhões, Vans de passageiros, muita feira e movimentação. Após um local muito movimentado e de transito parada, "La Ceja" começa a autopista que desce o enorme vale onde fica a capital boliviana. Antes, claro, paramos para ver a mais famosa vista da cidade.

A autopista perde altitude, saímos dos 4 mil e chegamos até os 3.600 perto da catedral. Onde deixamos a avenida e entramos pelas ruas estreitas e movimentadas do centro histórico, que está bem melhor do que há dois anos atrás, com muito menos lixo e muitos sinais de progresso, como reformas de antigos prédios e surgimento de novos hotéis.

Deixamos o carro em um estacionamento e fomos ao meu hotel/albergue favorito, o "El Lobo", a casa do mochileiro israelense, Bs. 25, ou R$ 7,00, com direito a banho quente dos bons e internet wireless.

Apesar de estar em casa, pois foram dezenas de vezes que me hospedei aqui, a situação não é da melhor. Minha gripe ainda não melhora e isso dificulta muito minha estada na altitude. O Hilton está com um problema no dente, com um inchaço no lábio e o Max hoje de manhã acordou mal, suspeita de giardíase, doente que ele já teve no Nepal e que não é nada agradável...

Vamos permanecer em La Paz por algum tempo e mandaremos noticias sempre, de preferência boas! As montanhas estão lindas, o tempo está ótimo... Só Murphy é que não está colaborando...

Rio Paraguai, Mato Grosso do Sul.

Cenas do Pantanal.

Estrada para Santa Cruz, Bolívia. Parte Boa!

Pausa no meio do Chaco.

Farofagem em um dos rios que descem a cordilheira.

Subindo a cordilheira.

Subindo a cordilheira

Na estrada...

A mais de 4 mil metros!

Hilton Cholo.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

A caminho dos Andes - Novamente!

Nosso itinerário

Quem me conhece sabe que depois de minhas obrigações sempre tenho minha redenção e nesse caso isso significa ir para os Andes subir montanha.

Depois de um ano e meio sem ir pra Altitude, parto, amanhã rumo à Bolívia e Peru com o objetivo de escalar bastante.

Nos últimos 3 anos tenho feito este tipo de viagem sempre com meu próprio carro ou com de amigos. Pode não ser muito bom pro carro, pois a altitude detona o motor, mas não tem nada melhor do que ficar independente de transporte coletivo e não ter que levar a mochila enorme dentro de ônibus.

Desta vez, como nas outras, iremos com um carro que não é muito adequado, mas é um pouco melhor, o Ecosport da minha mãe. Vamos rezar pra não dar nada de errado com ele!

O Maximo e o Hilton serão meus parceiros na trip. Muito melhor, pois em dois sempre é meio angustiante, assim espero ficar mais descontraído e não passar pelos problemas habituais como saudade excessiva que se tranforma em uma angustia danada em altitude.

A idéia era ter saído hoje mesmo, mas resolvi ficar um dia a mais em minha cidade natal pra poder curtir meus pais e fazer outras coisas, aliás, ainda tenho que fazer umas adaptações na minha dissertação de mestrado.

Acabou que estranhamente ontem, durante o jogo do Corinthians comecei a passar mal e agora estou com uma gripe muito chata, corpo mole e preguiça... Espero que passe logo!

Gostaria de mandar um abraço a todos que me apoiaram nestes últimos tempos de grande correria e dizer que logo logo volto pra contar boas histórias. Vai ser difícil, mas já estou com muita saudade, muita mesmo, da minha eterna gatinha Vivian, grande beijo pra vc, te amo!

Terça-feira, Junho 30, 2009

Certo dia na Serra do Mar...

Um dia sem muita pretenção, perfeito programa de índio, foi assim que começou...

Há dois anos atrás me mudei, vindo do interior de São Paulo, para a Curitiba com o intuito de realizar um trabalho científico.

O propósito inicial era estudar as origens da paisagem coalhada por matacões de granito no contraforte ocidental do Planalto Atlântico paulista. Uma região descrita sendo como originalmente recoberta por florestas úmidas, mas que de fato era recoberta por cerrados e cactáceas sobre os afloramentos rochosas, um típico caso de paisagem de excesão já conhecido e reconhecido por mim em meu trabalho de Conclusão de Curso em Geografia na Universidade Estadual Paulista de Rio Claro um ano antes. Trabalho esse lido e elogiado por ninguém menos, ninguém mais do que meu grande inspirador: o grande mestre Aziz Nacib Ab'Sáber.

Os caminhos da minha vida começaram a mudar quando me apaixonei à primeira vista pela chamada Floresta Ombrófila Mista, ou mais conhecida "Mata de Araucária", cobertura vegetal original dos planaltos do sul brasileiro que conjuntamente com os campos naturais formam o mosaico de ecossistemas do Dominio Morfoclimático dos Planaltos das Araucárias.

Minhas percepções sobre tal disposição de ecossistemas tão discordantes, junto com uma leitura mais apurada dos trabalhos de Reinhard Maack, João José Bigarella com os meus conhecimentos dos trabalhos do Aziz posta em prova pela denominada Teoria dos Refúgios Florestais dispertou em minha uma grande curiosidade: Qual teria sido a origem de dita paisagem?

Foi durante uma caminhada na Serra da Graciosa, num dia daqueles que o Julio Fiori diz ser "perfeito para morrer na Serra" com chuva fina e contínua, que junto com Marcelo Brotto, engenheiro florestal e presidente do Clube Paranaense de Montanhismo, que pude, em ar de espécie, obeter conhecimentos sobre a sucessão natural das Florestas subtropicais brasileiras.

Foram dois dias intensos e molhados que falamos sobre tudo o que sabíamos sobre a dinâmica e genêse das paisagens dos planaltos. O papo foi tão intenso que nossos colegas Hilton, Julio, Beto e Mikael se encheram e cada vez que falo em minhas pesquisas já ouço um imediato: "Lá vem as embromáceas!"

Pois bem, as embromáceas vieram e foram... Depois do conhecimento ecológico da sucessão atual, tive acesso aos trabalhos de Herman Behling. A redenção veio quando pude conversar com este grande mestre pessoalmente durante o último simpósio de palinologia e paleobotânica e ele achou minhas idéias "interrressants".

Foi muito trabalho, muita leitura e muita viagem (viagem do ato de sair por aí e observar os nuances regionais das paisagens) que cheguei a interessantes conclusões sobre a origem das florestas de araucárias, a relação com os campos, a última glaciação e... o cerrado e a migração das Araucárias pelas Serras do Sudeste.

O resultado disso tudo está na forma de um documento chamado: Cerrados, campos e Araucárias: A Teoria dos Refúgios Florestais e o significado paleogeográfico do Parque Estadual de Vila Velha, Ponta Grossa - Paraná. Dissertação de mestrado aprovada ontem com distinção pela originalidade.

Obrigado a todos que me ajudaram nesta jornada.

Segunda-feira, Junho 29, 2009

História do montanhismo em imagens

Na semana passada re-publiquei no site Altamontanha.com um artigo que escrevi em 2003 sobre a História do Montanhismo.

Para escrever este artigo eu me inspirei em um livro antigo que "achei" no meio das prateleiras da biblioteca da Universidade Estadual Paulista de Rio Claro quando estava coletando material para um trabalho de Geomorfologia.

Este livro é de autoria de ninguém mais, ninguém menos que Maurice Herzog, o primeiro homem a escalar uma montanha de 8 mil metros, realizado em circunstâncias trágicas.

O livro publicado em 1955 pela editora Larousse com o nome de "La Montagne" é um documento sem igual sobre a história e a cultura do montanhismo. Sem tradução para o português, permanece desconhecido pela comunidade do montanhismo do Brasil.

Copiei algumas imagens e estou agora, depois de mais de 5 anos, divulgando-as aqui. Deixe as imagens rolar e viage pela história...