Blog do Pedro Hauck

26 de abril de 2015

Descobrindo a Pedra do Segredo (Nazaré Pta – SP)


A primeira vez que ouvi falar da Pedra do Segredo foi por volta de 2005 quando foi lançado o já esgotado guia de escaladas da região de Bragança Pta. Folheando o guia cheguei às páginas destinadas a este pico misterioso localizado ao lado da Rodovia Dom Pedro I na cidade de Nazaré Paulista. Na verdade, apesar de ser perto desta movimentada estrada, a enorme rocha com cerca de 120 metros de altura só pode ser vista num único ponto, pois outros morros à sua frente tampam a visão. E como a estrada tem limite de velocidade alto, são poucos os que a veem. 

Já naquela época esbocei uma tentativa de ir ao local, no entanto falando com o autor do guia, o Birão, soube que lá estava infestado de abelhas e pior, eu teria que pagar um salgado pedágio. Acabou que o local caiu no esquecimento e nunca mais tive a chance de ir.

Em 2013 quando comecei a escalar com o Rafael Wojcik ele me contou das conquistas que fez lá e logo fui retomando minha vontade de conhecer o local, oportunidade que tive somente agora e na sua companhia de fazer.

Primeiramente gostei muito do lugar pela proximidade da casa dos meus pais, que moram em Itatiba, apenas 70 km de lá. Depois porque removeram o pedágio caro e o mais importante porque o local é bom mesmo!

Após rodar a rápida distancia de Itatiba até o sitio que fica na base da montanha, onde fomos recebidos pela família que toma conta do local. Pagamos R$10,00 por pessoa para entrar e fomos com o carro até um local bem próximo a rocha, dirigindo por uma estrada precária, mas que não é obstáculo para um carro 4x4. De onde se deixa o carro até o começo da escalada é muito perto e rápido e este começo da escalada é bem confortável, com grama até o começo da pedra, lembrando um pouco a Pedra do Santuário em Pedra Bela.

Há cerca de 5 vias no local, o que é pouco diante do tamanho do morro. Elas têm cerca de 120 metros de altura e múltiplas enfiadas. Apesar do Rafael ter conquistado várias delas, ele não lembra bem dos nomes e a via que escalamos é algo como via da comadre, ou cumpadre.

Como estávamos enferrujados, começamos por uma via mais à direita, que é bem tranquila, com aderências divertidas, mas que podem dar trabalho. Chegamos até um grande platô, onde decidimos mudar de via para não pegar um crux de oitavo grau. Caímos numa outra via com um crux de sétimo, que tive que passar roubando, pois como falei anteriormente, estou enferrujado.

Rapelamos com a corda dupla e fizemos outra via um pouco mais a esquerda. Via linda, quase constantemente de 5 grau com lances no final de 6 bem trabalhados e bem protegida. Ótimo para tirar a ferrugem. 

Ainda entramos em outra via, que como a anterior, era predominantemente de quinto e bem trabalhosa. Guiei as duas primeira enfiadas, emendando direto uns 50 metros. O Rafael veio na sequencia o fez o mesmo com as próximas duas, mas eu não pude ir de segundo, como começou uma fina garoa e tivemos que descer.

Acredito que fizemos uns 300 metros de via, isso em pouco tempo, chegando tarde e destreinados, o que me deixou bastante contente. Percebi que a Pedra do Segredo pode ser um ótimo local para escaladas ocasionais de parede. Com a diversão de parede, mas comprometimento e segurança de uma esportiva. Melhor ainda é que faz sombra à tarde, ou seja, nem preciso acordar cedo, como tenho que fazer para escalar uma parede.

Será este o segredo desta pedra?


Aderência predomina.

Pra que servem as fitas longas

Vias bem seguras, mas sem exagero.

Escalada na Pedra do Segredo SP

Escalada na Pedra do Segredo SP

Lance de crux

É preciso saber usar as fitas longas

Escalada na Pedra do Segredo SP

Escalada na Pedra do Segredo SP

Visual da Pedra do Segredo SP

Escalada na Pedra do Segredo SP

Escalada na Pedra do Segredo SP

Escalada na Pedra do Segredo SP

Pedra do Segredo em Nazaré Paulista SP

23 de abril de 2015

Saindo do normal na Pedra da Maria Antônia

A cidade de Pedra Bela, localizado no interior de São Paulo, é conhecida por abrigar dois points de escalada com vias fáceis para iniciantes, a Pedra do Santuário e a Pedra da Maria Antônia. Enquanto a primeira é conhecida por ser o local para aprender a guiar, o segundo é reconhecido como local para consolidar os procedimentos.

O motivo para isso é fácil de entender. Com uma parede com cerca de 120 metros de altura e vias fáceis, o local é um prato cheio para se cansar de guiar e dar segurança para os parceiros. No entanto, este simpático morro de Gnaisse "Augen" oferece muito mais que estas vias já consagradas.

Acompanhado de uma das pessoas que mais conquistou vias na Maria Antônia, Rafael Wojcik, pude conhecer a outra face da pedra, outra face em todos sentidos.

Começamos a escalar a Down Rope, uma das primeiras vias da parede da esquerda para direita. Sai guiando com a corda dupla indo direto até a segunda parada, onde dei segue para o Rafael que veio de segundo recolhendo as costuras e as fitas longas usadas para dar arrasto na corda.

Rafael fazendo a travessia pelas vias da face principal da Pedra da Maria Antônia.
Parada no platô
Mal houve reunião o Rafael saiu pela direita fazendo uma travessia por todas as vias na face frontal do morro, passando pela Raimunda, Mãe de Prata, Mãe de Ouro, Enzo Davanzo e Na Berola onde usamos uma das paradas para desconectar a segurança e sair caminhando pelo enorme platô, que usamos para chegar à outra face da montanha, localizada à direita da face principal.

Saímos da rocha e adentramos à mata, num local onde não há trilha, pois o fluxo de pessoas é muito pequeno. Uma pena, pois lá está o filet mignon da Maria Antônia. Vias com cerca de 60 a 80 metros de altura com lances médios de quinto grau, ou seja, não é difícil ao ponto de causar sofrimento e nem fáceis ao ponto de ser monótonas.

Tivemos tempo de escalar estas vias e rapelar pela via Na Berola, que é outro filetzinho do Morro com as mesmas características. Chegamos ao chão e fomos pegos por uma típica chuva de verão que refrescou nosso cálido outono.

Quem imaginou escalar na Maria Antônia, esticando a corda dupla? Desta forma acho que Pedra Bela acaba também se tornando um ótimo lugar para treinar escalada tradicional.


Vista da "outra face" desde o cume da Maria Antônia.

A face que escalamos

Uma outra face sem vias de escalada ainda.

11 de fevereiro de 2015

Carnaval nos Andes

Geralmente o brasileiro acha que carnaval é uma festa do Brasil, mas não é. Ela na verdade é uma festa mundial, mas suas origens são européias.

Carnavais famosos não se limitam a Rio de Janeiro, Salvador e Olinda. Em cidades andinas, como Oruro, o carnaval é bastante tradicional e atrai milhares de pessoas da Bolívia e também do exterior. As fotos abaixo, tiradas por meu amigo Marcio Carrilho, na cidade de El Alto, na Bolívia em 2007, mostram um pouca da bela tradição do carnaval boliviano que é muito similar ao que ocorre também no Norte da Argentina e Peru.


















4 de fevereiro de 2015

A descida dos Andes, Londres da Argentina e ruínas incas de El Shincal

:: Acompanhe a expedição Puna de Salta desde o começo
:: Leia a postagem anterior

Após escalarmos 4 montanhas e realizarmos uma travessia 4x4 pela Puna, estávamos com o tempo estourando para tentar outra montanha, infelizmente, pois a experiência havia sido muito boa, o tempo estava bom e estávamos aclimatados, no entanto não tínhamos tempo para descansar e tentar uma saideira.

Com isso acabamos aproveitando os últimos dias da viagem para passear e conhecer lugares novos. Com isso em mente, saímos de Antofagasta de la Sierra caçando o que fazer. Infelizmente naquele momento eu não estava com as melhores informações deixei escapar o que parece ser um dos melhores roteiros 4x4 do norte argentino, que é realizar a travessia de Antofagasta de la Sierra até Fiambalá, passando pela Sierra de Buenaventura e o campo de Piedra Pómez. Menos mal, pelo menos agora eu sei um caminho “diferente” para chegar ao belo Paso San Francisco, onde Fiambalá (uma velha conhecida minha) é a cidade base.

Nesta procura por lugares novos, fui parar na cidade de El Peñon e dali no pequeno e belíssimo Pueblo de Laguna Blanca, com suas casas de adobe, muros de pedra e paisagem bastante pitoresca, onde há um museu e um hotel BBB (Bom bonito e barato) onde só não paramos pois era cedo, aproveitamos e almoçamos no local, o que é mais do que recomendado.

Laguna Blanca é o acesso a um dos seis mil menos conhecidos do Noroeste Argentino, o Nevado Laguna Blanca, pouquíssimo escalado e bem distante dos demais 6 mil de Catamarca, que se concentram perto do Paso San Francisco na fronteira como o Chile, como o Ojos del Salado, Pissis, 3 Cruces, Walther Penck, Incahuasi, Condor, apenas para citar os com mais de 6500 metros... Pelo menos descobri o caminho para esta desconhecida montanha que pretendo escalar. Cada vez mais tenho mais e mais fixação por montanhas que ninguém conhece e que ninguém escala.

Deixando Laguna Blanca para trás, vamos aos poucos deixando a imensidão seca da Puna. A estrada, que no altiplano é asfaltada, entra em um vale, a quebrada do Indalecio, e ali deixa de ser pavimentada. Cruzamos por montanhas cobertas de areia, algumas com grandes dunas, que já havia observado em minha primeira experiência por Catamarca em 2006 e depois em 2012 com o Waldemar Niclevicz.

A partir dali, começam a aparecer vilarejos ao longo da estrada e não demora para cruzarmos com a cidade principal, que é a sede de município de todos aqueles “pueblos” incluindo até Laguna Blanca, é a cidade de Villa Vil, que em sua sede tem poucos atrativos, mas em seu território paisagens incríveis!

Um pouco mais para frente o asfalto é retomado e de repente estamos de volta à Ruta 40 no cruzamento de estrada chamado de “El Eje”, que tem até, veja só, um posto de gasolina!

Ruta 43 perto de El Peñon

Ruta 43 perto de El Peñon

Ruta 43 perto de Laguna Blanca

Quebrada de Indalecio

Quebrada de Indalecio
Dali tomamos a direita, rumo ao sul. Seguindo a grande “BR” argentina que neste tramo percorre o vale do rio Belén, rodeado de escarpas rochosas e cheio de cactos e plantas espinhentas. O rio dá nome à cidade de Belén, que cruzamos inteira até 16 km depois chegarmos a nosso destino naquele dia: a cidade de Londres. Sim, Londres, Catamarca!

Depois de tanto perrengue, poeira, dias sem banho, caminhadas sem fim, subidas, descidas, falta de ar, frio, calor, montanha... Enfim tinha que levar a Maria para um lugar civilizado, por isso escolhi Londres, Catamarca, a segunda cidade mais antiga da Argentina, localizada ali, no meio do nada, na Ruta 40, longe de tudo (mas pertinho de Belén), esquecida por muitos, mas que pelo nome acabei indo e não me arrependi.

Encontramos uma pousada muito aconchegante na casa de uma família tradicional da cidade. Casa colonial antiga, com um jardim interno com parreira repleta de uvas onde fomos muito bem recebidos e convidados para conversas.

Apesar do centro de Londres não guardar nada de sua primeira fundação, já que a cidade foi destruída cerca de 8 vezes pelos índios dieguitas, dos quais os Quilmes (que deram nome ao bairro em Buenos Aires e do bairro à Cerveja) fizeram parte, não há muito de sua memória colonial preservada. No entanto, chama atenção ao fato de que em Londres está a maior ruina incaica da Argentina. Uma cidade Inca que preserva toda a estrutura burocrática do império e que por isso mostra que era um local importante dentre da civilização incaica. Esta ruina é El Shical, que eu e a Maria fomos conhecer numa manhã de muito calor.

El Shincal, na verdade nem tem este nome. Como o Império Inca se colapsou desde a capital Cuzco ao interior, os Incas abandonaram o local antes mesmo dos espanhóis chegarem à Argentina. Por isso não se sabe como era o nome desta cidade. Shincal vem de “Chinca” o nome de uma planta espinhenta que abunda na região e que tomou conta do sitio, o que por sua vez preservou o local, já que sua descoberta foi bem tardia, já no século XX, aparentemente porque lá tinha tanto espinho que ninguém se atrevia a dar umas bandas pelo local.  Parece incrível, mas mesmo com duas pirâmides, que aproveitam o relevo local, uma praça central e vários outros edifícios, este sitio ficou abandonado por séculos.

Eu tenho uma grande curiosidade por história e neste local pude tirar várias conclusões sobre uma história que tenho fascínio, que é a do encontro de culturas entre o europeu e os Incas na América do Sul pós descobrimento. Engraçado é perceber que a história da Argentina não começou pelo lado do atlântico e de seus rios que dão nome à região à que ela é referida geograficamente, a bacia da prata. A Argentina nasceu no Noroeste, através da conquista dos espanhóis dos territórios incas. A primeira penetração do território argentino por europeus foi em 1530 com a expedição de Diego de Almagro, durante a conquista do Chile, numa expedição que percorreu o Capac Ñan, a estrada real inca que corta a Puna e passa por El Shincal que na época já estava abandonado há vários anos.

Durante o passeio em Shincal, pude conhecer uma construção inca que me chamou muito a atenção. Trata-se do Ushnu, uma grande plataforma retangular aplainada com uma escada que fica no centro da cidade alinhada com o resto das construções governamentais. O Ushnu, que é tido pelos arqueólogos como o local do poder, onde ficava o cacique, se parece muito com a estrutura que encontramos no cume do Quewar, a montanha mais alta que escalamos na expedição com 6150 metros de altitude.

Bom, com esta experiência nossa viagem chegou ao fim. Ainda naquele dia continuamos nossa viagem rumo ao Norte, passando de Catamarca a Tucumán por Amaicha del Valle, dali subindo a serrinha de Tafi del Valle, que é muito bonita e interessante pela diferença de climas de um lado e de outro da montanha, e de lá cruzando até Santiago del Estero, que é a cidade mais antiga da Argentina onde passamos uma noite. De lá fomos no dia seguinte para Corrientes, ainda dormimos mais uma noite em Misiones, perto das ruinas jesuíticas de San Ignácio e de lá fomos direto à Curitiba numa viagem longa e cansativa até nossa casa.

Chegando em Londres

Jardim de nossa casa em Londres

Casa colonial em Londres

Ruíns de Shincal visto de cima.

Edificios de Shincal visto por cima

O Ushnu visto de cima

Entrada do Ushnu

Eu e Maria

Escadarias

Que gracinha!
Ushnu



Ruina Inca do Nevado Quewar.... Parecido com um Ushnu!!!!!