Blog do Pedro Hauck

20 de outubro de 2018

Sozinho na multidão: Viagem pela China


Acabara de escalar uma montanha de 8 mil metros no Nepal, o Manaslu. No entanto a próxima missão da viagem pela Ásia parecia ainda mais desafiadora: Viagem de negócios pela China.
Por que uma viagem urbana podia me dar medo?

Vamos aos fatos. A China é cheia de cidades gigantes, e grandes cidades tem sempre alguma dificuldade de se transportar, sendo necessário a ajuda de alguém. Dizem que quem tem boca vai a Roma, porém sem um bom tradutor não se chega a Shangai. A China é mais que um país, é uma civilização com mais de 4 mil anos de história. É raro encontrar chineses que falam inglês e quem é de fora é impossível entender os ideogramas. Pode ter muita gente pra perguntar, mas eles não vão te entender e nem você a eles. Por isso sozinho na multidão.

Em minha viagem pela China eu sabia que para me virar precisaria de uma boa internet e precisaria estar conectado aos serviços do Google, como Maps, Translator, e-mail e as mensagens do Whatsapp para me sentir menos sozinho e poder exteriorizar as preocupações.

Já havia ficado sozinho em Kathmandu. Ora, lugar tranquilo para estar só. Tudo bem que lá as coisas são escritas em sânscrito, mas todo mundo fala inglês. Tudo bem que nada funciona direito, mas pra quê? Lá já é território conhecido. Nada funciona mas no fim tudo dá certo.

Embarcando no vôo da Air China.
Quando embarquei no voo da Air China para Chengdu, percebi como minha vida está conectada nos aplicativos bloqueados na China. Facebook, Instagram, Gmail, Messenger, Whatsapp. Minha saída seria o chamado VPN. Aplicativos que trocam seu IP e confundem os servidores, fazendo que você consiga usar todos estes aplicativos acima.

Passei o voo pensando que, ao chegar à China, primeiramente precisaria comprar um chip de dados e depois botar o aplicativo VPN pra funcionar. Se não desse certo.... Eu tava fu.... Uma vez lá, você não consegue baixar outro VPN. Tudo tem que ser feito no exterior.  Porém, como ainda não estava na China, não tinha um número de celular Chinês para cadastrar o VPN com todas suas funções.

Voei tranquilamente de Kathmandu à Chengdu, com direito a passar do lado do Everest e do Makalu. Ao pousar, entrei na China sem problemas, peguei minha mochila, que foi a primeira a aparecer na esteira e sai do desembarque do aeroporto.



Makalu visto da janela do avião.

Após trocar um pouco de dinheiro, dei de cara com uma lojinha vendendo Chip de celular e fui igual a um louco comprar o meu. Nem me importei com a enorme quantia de 300 Yuans que me cobraram, sabia que precisava de internet. Eis que a moça que me vendeu não conseguiu fazer o chip funcionar. Ela deu o celular para outra moça, mudamos a língua para o chines, para elas configurarem melhor e fizemos de tudo. Ele só funcionava no Edge, ou seja, com velocidade muito reduzida.

Rua de Chengu em frente ao aeroporto. Indo do terminal 1 para o terminal 2.
Me devolveram o dinheiro e continuei minha saga. Vou tentar em Shangai.

Caminhei entre um terminal e outro, indo atrás do local onde eu embarcaria. O aeroporto era bem estranho, apesar se extremamente moderno. Precisei de ajuda de uma funcionária da cia aérea e ela me mandou ir direto ao portão de embarque. Mas peraí, estou com a mochila cargueira nas costas!
Pedi ajuda a uma segurança, que mandou para outra pessoa que me fez voltar a uma fila onde havia um cartaz em mandarim. Era lá onde eu despachava a bagagem. Ah bom! Agora entendi.

Após mandar a mochilona embora, voltei à fila para entrar na área de embarque e de repente me deparei com meu nome escrito em um painel onde todas as outras informações estavam no alfabeto chinês.

_ My name is there. Apontei para a segurança que me ajudara minutos antes.

Ela me tirou da fila e me levou a uma salinha. _ O que eu fiz? Perguntava...

Lá vi minha mochila encostada na parede. O operador do raio x me mostrou uma foto e disse “Forbiden”. Era uma foto de uma pilha.

Abri a mochila e tirei um saco de pilhas. Ele ainda me fez esperar mais pouco e liberou para que eu pudesse pegar a fila de volta para entrar na sala de embarque.

Passei novamente pelo raio X e entrei na sala de embarque. Mas peraí, qual é meu portão?

Fiquei um tempão olhando o painel. Ele primeiro mostrava os destinos em chinês e depois em alfabeto romano. Fiquei um tempão procurando e não  achava meu vôo. Até que apareceu.

Na espera pelo avião ainda tentei conectar a internet do aeroporto, mas nada. Eu precisava ter um numero de telefone chinês para receber o SMS confirmando o cadastro no site que provia internet de graça. E se o problema fosse meu telefone? Se ele não fosse compatível com a rede de telefonia chinesa eu teria que comprar um outro, mas que prejuízo?

Pior, uma vez na china você nao faz mais o download dos programas VPN e assim eu continuaria isolado do mundo e perdido. Me deu angustia! Não teria como me comunicar com ninguém na China e nem com a Maria e o resto das pessoas no Brasil.

O voo para Shangai demorou muito. O avião era apertado, o assento não reclinava nada. A comida foi ruim e cheguei em Shangai super tarde. No aeroporto tudo estava fechado.

Eis que eu vejo uma lojinha de chips de celular. Fui correndo...

Uma simpática chinesinha me atendeu. Sabia falar inglês! Rapidamente ela colocou o chip e, FUNCIONOU! Pulei de alegria. Me custou 200 Maos!

Agora só faltava ir ao Hostel que eu havia reservado.

Que falta de sorte. A noite o trem, metrô e os ônibus não funcionam, só tem táxi.

Caminhando meio sem destino pelo terminal, fui abordado por um taxista. Aí veio a negociação e paguei bem caro para ir até o hostel. Pelo menos pude no caminho ver as primeiras paisagens chinesas. Auto pista, prédios e muita área urbana.

Assim, de madrugada e acabado cheguei em Shangai. Super stressado pelas dificuldades e angustias que me acompanharam nas primeiras horas na China. E agora? Como seria o resto da viagem?

11 de maio de 2018

Escalando a Mateus Arnaud - Pico Maior

Com 750 metros de altura, a Mateus Arnaud é a via mais extensa do Pico Maior de Friburgo. Conquistada há 20 anos, essa via é motivo de polêmica, pois passa muito perto da Leste, via mais clássica da região. Como é melhor protegida, gerou discussão, pois no Pico Maior o estilo de esticões é o que predomina.

Sou amigo de dois conquistadores, o Rafael Wojcik, meu sócio da loja AltaMontanha e também do Alex Ribeiro, o Che Guevara de Petrópolis. Por este motivo já havia tentado escalar a via anteriormente, porém ao invés de entrar na Mateus, acabei fazendo a Decadence... Histórias de perrengue de Salinas...

Desta vez acompanhado da Maria Tereza, entramos mais espertos. Acompanhado de nós havia mais duas cordadas: Fábio Lima, Ebraim Oliveira e Robson Andrighetti na Leste e Natan Fabrício e Juliano Santos. Todos amigos de Curitiba que aproveitaram o feriado de 1 de Maio para enfrentar as grandes paredes de Salinas.

Após um dia de descanso da longa viagem, acordamos cedo e ao amanhecer já estávamos na parede. Emendei as duas primeiras enfiadas, onde já encontrei diferenças no croquis. Com as duas cordadas amigas nas vias ao lado, não tinha como estar na via errada. Notei que houve adição de chapeletas inox da Kong.

A terceira enfiada foi guiada pela Maria, mas na sequencia assumi a pontada corda. Não encontrei a sétima enfiada da via, mas via um parabolt destruído na parede, onde assumi como sendo da via original arrancado na polêmica de 98. Escalei pela Leste até a primeira chaminé desta via.

Na primeira chaminé a via se divide. A Mateus não chega a entrar pela chaminé, ela desvia pela direita num lance com um artificial de cliff. Como esqueci de levar o Talon e também estribo, escalei em livre, desviando deste lance, por dentro da chaminé e saindo uma proteção acima deste crux.

A escalada a partir daí é o melhor da linha. As próximas duas enfiadas seguem por uma parede vertical cheia de agarras de cristal. Um quinto bem fluído e estético com proteções fixas. A via acaba saindo no final do que seria a primeira chaminé da Leste, que no local acaba se tornando um Diedro e a próxima enfiada a via acaba sendo compartilhada com a Decadence. 

Lá todas as enfiadas se encontraram, porém parti para realizar a transversal rumos a chaminé da Mateus, que fica na esquerda da segunda chaminé da leste. Neste ponto perdi o contato com os parceiros e fiquei imerso naquela enorme fenda na montanha.

A chaminé da Mateus é muito mais difícil que as demais chaminés da montanha, pois é muito mais larga, mais suja e mais alta. São duas enfiadas dentro da chaminé, onde reboquei a mochila da Maria. O trecho mais complicado é o final, quando há um artificial fixo. Como não levei estribo, tive muita dificuldade em passar pelo lance, tendo que fazer em livre, no estilo chaminé de tesoura, para passar os lances iniciais. Neste momento, meu pé direito vazou no esfarelamento da rocha e o esquerdo ficou e sofri uma lesão na perna.

Cansados e eu machucado, tive dificuldade de terminar a via. Quem tem mais duas enfiadas até o cume que não estão no croquis. 

Chegamos ao cume as 20 horas. Bem tarde! Fazia muito frio e os parceiros já cogitavam descer nos deixando para trás. 

Por estar ventando muito, decidimos descer pela via Silvio Mendes. Natan, Juliano e Robson foram na frente amarrando a corda dupla da primeira cordada e fazendo rapeis mais longos. Porém os quatro que ficaram para trás (incluindo eu) tínhamos cordas simples de diâmetros diferentes. Por conta deste detalhe decidi não rapelar com duas cordas, pois fazendo o nó Pescador Duplo tenho certeza de que a corda engataria em alguma fenda ou vegetação.

Foram 7 longas horas de rapel no frio, com direito a um auto resgate, quando desci por um local errado e tive que fazer prussik para retornar à parada. 

Chegamos ao Mascarin ao amanhecer, escalando uma via e vendo dois nascer do sol.

Foi meu quarto cume no Pico Maior, todos por vias diferentes. Mas foi o mais complicado de todos.

Sobre a via Mateus Arnaud, achei muito bonita, com lances mais modernos, sobretudo por que dá para fazer a parede evitando a primeira chaminé da Leste. Passado 20 anos da conquista, acho que ela precisa ser vista com outros olhos e vale a pena ser repetida.

Maria na seg durante uma das enfiadas da Mateus

Encontro das enfiadas na P6

Escalando a P7, enfiada que não achei

Natan na Decadence

Fabio guiando a enfiada após a Leste

Natan na Decadence

Maria no diedro que é o final da primeira enfiada da Leste

Ebraim guiando a Leste

Chaminé da Mateus Arnaud

Travessia para a chaminé da Mateus

Final da chaminé a noite


3 de dezembro de 2017

BIG 500 2017

Após uma viagem bastante molhada à Petrópolis, onde não consegui escalar o que planejava, passei o mês de Novembro empenhado em outras tarefas e aproveitei pouco o sol que brilhou em alguns finais de semana. A presença de bom tempo, já no finalzinho da temporada de escalada, deve ter motivado o Julio Nogueira, cabeça do Projeto Big 1000 e 500 em fazer a versão mais econômica deste difícil desafio de escalada.

Para quem não sabe, o projeto BIG 500 consiste em escalar um número grande de vias de escalada no Anhangava que a soma delas resulte em 500 metros, o que não é nada fácil, dado que as vias de lá são curtas, na maior parte com apenas uma enfiada. Foi a primeira versão deste projeto, que foi duplicado em 2014 para o BIG 1000, com o acúmulo da experiência dos praticantes, que resultou em estratégias que facilitaram a realização do desafio. De fato, o 500 acabou ficando mais fácil, o que não significa que seja moleza.

Após tanto tempo de seca, tanto, por mim, quanto por meu parceiro de escalada Fábio Lima, com quem já realizei um 500 e um 1000 neste ano, decidimos aproveitar o bom tempo que a previsão prometia para o final de semana e assim combinamos completar o desafio no sábado. 

Assim, com a parceria também de Renato Santini, com quem fizemos as primeiras vias, completamos o último desafio do ano, num dia frio, com muito vento, neblina e chuviscos. A previsão me fez deixar em casa o anorak e a blusa e levar óculos de sol e protetor. Passei muito frio de camiseta e bermuda, mas conseguimos. Começamos a escalar a 12:15 e terminamos por volta das 20 horas. Como o morro estava muito molhado, não pudemos escalar no Campo das Panelas e andamos por todo Anhangava procurando vias secas para escalar, o que resultou numa perda de tempo considerável e também num grande número de vias. Abaixo está a relação delas:

1) RS : 27m
2) Monica Total: 29m
3) Solanjaca: 25m
4) Jo Casta: 20m
5) Sétimo Dia: 25m
6) Diversão Garantida: 25m
7) Peon: 19m
8) Via em móvel entre a Peon e a Diversão Garantida: 22m
9) Andorinhas com Bunda: 25m
10) Transversal Sexto Grau com Caninana: 44m
11) Curitiba: 27m
12) Bogotá: 35m
13) Aracaju: 31m
14) Kathmandu: 30m
15) Salvador: 28m
16) Luar do Sertão: 24m
17) Rancho Fundo: 23m
18) Vida Marvada: 24m
19) Chaminé do Corvo: 20m

Via Caninana

Via em móvel na direita da Diversão Garantida e esquerda da Peon.

Via Sétimo Dia

Via Jo Casta

Diversão Garantida

Saída da via em móvel na direita da Diversão Garantida e esquerda da Peon

Repondo energias com Ogiva.

Bunda.

Transversal Sexto Grau

Via Aracaju 
Tudo muito molhado



Via Curitiba

Via Bogotá

Fábio na via Aracaju

Fábio na via nova que fica no rapel da Aracaju.

Tempo Patagônico no Anhangava. 

13 de novembro de 2017

Energia boa - Ogiva Energy Food

Ganhei um pote de Ogiva, um energético fabricado no Rio Grande do Sul que tem uma receita bem elaborada.

A Ogiva é um creme de tâmara com cacau, melado, noz moscada, cardamomo e sal rosa. Uau, cheio de coisas boas e diferentes! De fato, um pasta muito gostosa.

Porém, não é isso o que interessa, mas sim que é um energético e sempre que estou em atividade tenho aquele momento em que preciso de uma recarregada na energia.

Quem numa trilha ou parede não teve aquele momento de hipoglicemia? Pois bem, em uma atividade prolongada isso é normal e normalmente levamos os famosos gel carboidratos, que são bem populares e recarregam bem nossa energia. 

O problema é que muita gente acaba ficando enjoado de tanto tomar gel carboidrato. Em atividades de alta montanha, é preciso tomar cuidado, pois após ingerir o gel você precisa se hidratar bem, o que muitas vezes pode ser difícil. Na verdade nem precisava comparar a Ogiva com o gel, pois a Ogiva é algo único no mercado. 

Comi apenas dois potes de Ogiva, o suficiente para já poder escrever sobre ele. Meu primeiro pote fui comendo aos poucos nos fins de tarde após o trabalho e antes de treinar escalada. Sabe aquela sensação de cansaço depois do expediente? Pois bem, foi exatamente isso que melhorou. Comia algumas colheres de ogiva antes de treinar, quando estava com a energia baixa e isso me revigorava.

Mais tarde levei um pote numa viagem, onde comi algumas colheradas para me reanimar numa parede. O resultado foi muito satisfatório! Por isso estou deixando o gel de lado para apenas ficar com a Ogiva.

Sobre o preço da Ogiva

Um pote de Ogiva custa, em novembro de 2017, R$ 49.90, praticamente cinquentão! Você pode falar que é caro, mas será?

Pelo tanto de vezes que usei e o tempo que durou meu ultimo pote, acho que não é caro, pois dura muito mais tempo e vem uma quantidade muito maior que a quantidade de sachês de gel que você compra com cinquentão, no fim, você economiza e tem um produto de melhor qualidade.

Eu recomendo!

14 de outubro de 2017

Superfícies de Erosão na Serra do Mar: Contribuição sobre a genética do relevo brasileiro

Em 2011 ingressei no Programa de Pós Graduação em Geologia da UFPR com o propósito de estudar as origens e evolução da Serra do Mar paranaense. Tinha em minha cabeça muitas perguntas sem resposta que não eram coerentes com o conhecimento que havia sobre as montanhas brasileiras.

Até este momento, ainda se falava nos livros de Geografia que o relevo brasileiro era “antigo”, um conceito que é atribuído à um trabalho de 1899 do geólogo norte americano Willian Morris Davis. 
Davis fez uma comparação das formas de relevo das montanhas das regiões tectonicamente mais ativas e concluiu que após elas se formarem pelo tectonismo, o tempo seria responsável por sua total destruição e por fim, após 60 milhões de anos chegaríamos à um planície, um relevo sem montanhas, com grandes rios meândricos. 

Neste conceito, as montanhas do Brasil por serem arredondadas e de baixa altitude, seriam montanhas antigas, ao ponto que no Andes as montanhas era jovens e o relevo, da bacia platina, seria um exemplo de relevo senil.

Apesar de coerente, seria mesmo tão antigo assim o relevo brasileiro?

Escolhi como área de minha pesquisa a Serra do Mar, na região onde fica o Pico Paraná, onde identifiquei superfícies aplainadas que seria remanescentes de um relevo antigo, anterior às montanhas. Porém, como datar o relevo?

Em 2008, durante um SINAGEO, conheci  o Dr. Luis Felipe Brandini Ribeiro, onde tive acesso um moderno método de datação que poderia me dar uma resposta sobre a idade da Serra do Mar. Era a Termocronologia com Traços de Fissão em Apatitas, um método bastante complexo que exigiria além de muito conhecimento, extenuantes saídas de campos para coleta de material.

A apatita é um mineral raro. No Granito da Serra do Mar ele compõe menos de 0.5% de todos os minerais contidos na rocha. Para conseguir uma quantidade suficiente deste mineral, precisaria de fazer a coleta de pelo menos 30 quilos de rocha por ponto. Foram 23 pontos de coleta.

Na verdade, me diverti muito coletando estas rochas, pois tive que ir caminhar nas montanhas várias vezes. Em uma das vezes, caminhei desde o A2 até a Fazendo Pico Paraná, com 61,3 Kg nas costas! Foi meu recorde pessoal.

Depois de separar as rochas, começou o processo mais penoso, a separação dos minerais.
Tive que triturar as rochas em várias frações mais finas. Peneirar diversas vezes e enfim começar a separar. Primeiramente usando uma bateia mecânica, depois, um separador magnético, para enfim, com o bromofórmio, separar os minerais mais pesados.

Após este processo, com uma lupa, separava os minerais de apatita dos demais apenas no olho! É muito difícil reconhecer este mineral dos demais e a única maneira de saber se uma apatita é uma apatita é destruindo ela com um reagente químico. 

Por fim, os minerais eram alinhados de 10 em 10 e resinados. Depois de seco, as resinas eram lixadas e polidas para enfim sofrerem um banho químico para ter os traços revelados. Depois disso elas foram levadas para o reator nuclear do IPEN, onde foram irradiados.

Aí é que a pesquisa parou. O reator do IPEN ficou fechado por muito tempo por manutenção. Houve greve de servidores e muitos problemas. Minhas amostras demoraram 2 anos para serem irradiadas e nisso fui desligado do Programa de Pós Graduação.

Claro que fiquei muito decepcionado. Me senti culpado e envergonhado, sobretudo com meu orientador, quem havia depositado muita confiança em mim.

No entanto, todo fim é um recomeço. Acabei me virando para poder ganhar minha vida. Trabalhei como guia de montanha, ministrei cursos de escalada e acabei fundando junto o Hilton e o Rafael a Loja AltaMontanha, dedicada à venda de equipamentos de montanhismo. Foram anos de muito trabalho e pouco tempo para pensar.

Finalmente, depois de muito esforço, encontrei tempo para, ainda que não tivesse todas as ferramentas à minha disposição, finalizar a pesquisa, pelo menos até o ponto onde foi possível. Assim, escrevo agora o resultado de tanto esforço. Paleosuperfícies de Erosão na Serra do Mar do Paraná é o resultado de anos de estudo e dedicação às geociências e nele respondo a pergunta que fiz a mim mesmo quando comecei a escalar.

De fato, as montanhas no Brasil não são antigas. Porém há sim feições velhas nelas ainda preservadas, são as Paleosuperfícies.

Neste livro, além de desvendar as origens das montanhas brasileiras da borda leste do continente, ainda faço uma revisão de capítulos interessantes da história das geociências, onde os protagonistas viveram nas montanhas, como Walther Penck, criador da teoria da Pediplanação e Reinhard Maack, descobridor do Pico Paraná, local deste estudo e que contribuiu muito com argumentos para a teoria da Tectônica de Placas.