Blog do Pedro Hauck

26 de janeiro de 2016

Saidera no Veladero (6430 metros)


De nosso acampamento a 5080 metros observávamos o cume da montanha como se fosse muito próximo. Como o Veladero é um vulcão, ele apresenta uma subida só. Esta visão aparentemente tão simples nos deixava ressabiados, seria tão simples assim?

Despertamos um pouco antes de o sol nascer e ao terminar nosso “café da manhã” o mesmo já brilhava no horizonte, acabando com a escuridão e com ele amenizando os ventos. Partimos então rumo à “neve dos 15 minutos do Vini”.

O terreno não era íngreme e nem difícil de caminhar, composto por rochas soltas, mas não empilhadas, não havia inclinação suficiente para formar um “acarreo”. Entretanto mesmo com boa velocidade, ainda assim levamos quase 2 horas para chegar na tal neve dos 15 minutos. Dali haviam trechos um pouco mais inclinados, formando “escadas” que não apresentavam grande dificuldade pois as rochas eram bem sólidas. No entanto ali fui percebendo uma lentidão no grupo.

Surgiu também uma nova preocupação, a partir deste local pude observar uma parede amarelada perto do cume que daquele ângulo parecia um cume mais alto atrás do que parecia ser o cume verdadeiro. No entanto eu já havia visto a montanha de vários ângulos e não havia outro cume mais alto. Será que o cume que avistávamos era um ante cume e teríamos mais caminhada montanha acima?

Achamos uma passagem que saiu num ombro aplainado a 5900 metros de altitude. Já passava do meio dia e a Paula estava muito cansada. Faltava ainda 500 metros verticais. Será que daria tempo? Pelo menos o tempo atmosférico estava perfeito e tinha certeza que ficaria assim até o anoitecer. Iríamos lentos, mas continuamente.

Da ombreira começamos a subir uma face que terminava em uma crista. Ainda sem vento estava bem, mas a Paula ficava cada vez mais devagar. Paramos muitas vezes para descansar, sempre de olho no tempo.

Ganhamos altura rapidamente e logo chegamos na base da crista, onde pude constatar que a parede amarelada era parte da crista e de fato não havia outro cume atrás. A tal parede ainda nos protegeu do vento que vinha de Noroeste, momentaneamente, pois logo que deixamos este local para trás, fomos açoitados pelo vento congelante.

Dali foi apenas uma questão de tempo e paciência com as rajadas, para chegar ao topo, onde encontramos uma plataforma incaica de mais de 500 anos que nunca foi escavada ou pesquisada, apesar de ser bastante famosa entre os montanhistas.

O Veladero, apesar de ser mais baixo que o Bonete, se destaca mais na paisagem e o motivo para isso é que ele se ergue desde os 5 mil metros. É mais baixo, porém mais “proeminente”. Apesar de tanto destaque, ele foi somente escalado em 1986! Fomos os segundos brasileiros a chegar no top, isso por que há alguns anos o fotografo paulista André Dib esteve por ali e chegou no topo. 

Foi a ascensão mais cansativa da viagem, mas foi para fechar a expedição com chave de ouro. Ver todas as montanhas lá de cima e ainda a ruína Inca.

Subindo o vale para chegar na base do Veladero. Desta vez com mais água devido ao degelo. 
Veladero visto desde o local onde deixamos nossa comida estocada.

Caminhando em direção ao nosso acampamento alto.

Neveiro onde montamos nosso acampamento base e o cume com um arco íris.

Acampamento base na véspera do cume, Houve até uma pequena nevasca. Acima está a neve dos 15 minutos

Vista para o cume pela manhã

Ascensão ao Veladero.

Greissy durante a ascensão ao cume do Veladero.

Vini no cume.

Paulinha chegando no cume do Veladero com o Bonete ao fundo. Foi uma subida muito desgastante!

Comemorando nosso terceiro cume. Posso pedir musica no fantástico?


Vista do cume do Veladero, a ruína e os picos adjacentes.

20 de janeiro de 2016

Ascensão ao Cerro Bonete Chico, quarta montanha mais alta dos Andes


A previsão do tempo acertou e tivemos uma noite anormalmente tranquila a quase 6 mil metros de altitude na Puna do Atacama, ventos quase nulos, e até um certo calor que me obrigou a dormir com o zíper do saco de dormir aberto. Tivemos uma noite de sono agradável interrompida às 5:20 da manhã com o tocar do alarme nos avisando a hora de sair.

Tomamos um café com o que tínhamos e logo saímos da barraca para calçar as botas duplas e começar a jornada rumo ao topo. O sol já começara a dar as caras, dando um calorzinho tênue na fria atmosfera e pintando de amarelo as rochas enegrecidas da atividade vulcânica. 

Saí na frente para explorar o caminho sem trilha e ao olhar para traz percebo ter mais um companheiro entre nós. Um homem, com roupa preta se aproxima em velocidade. Imaginei ser do grupo que avistamos no dia anterior e que não havíamos feito contato. Em uma questão de 40 minutos ele me alcança e começamos a conversar.

Seu nome é Jiri e ele é da republica Checa e seus amigos não conseguiram aclimatar para fazer o ataque, por isso ele está sozinho. Eu mostro o que sei da rota e ela toma um pouco de distancia, pois ele caminha bem rápido. Enquanto isso, fico esperando meus parceiros que ao me alcançarem param para tomar um chá quente e trocar algumas roupas, pois já não faz tanto frio.

Dali começa um vale ascendente com piso regular e fácil de percorrer, bastando manter um ritmo contínuo. O altímetro do GPS mostra um progresso satisfatório e logo chegamos ao fim do vale no começo de uma cratera. Com um formato arredondado, ela tem uma leve depressão em direção a seu centro, uma vertente muito pouco íngreme onde se concentram alguns gelos penitentes. No horizonte vejo que Jiri cruzou esta leve depressão e rumou em direção ao cume, que em forma piramidal é de fato igual à um “Bonete”, um chapéu de festa de criança. 

Olho para o GPS e vejo que o tracklog que Maximo me deu faz uma curva abrupta para o leste, subindo uma vertente na direita que é parte da cratera destruída, um caminho nada óbvio. Aviso meus colegas que estão abaixo e eles estranham, pois de fato o caminho do checo fazia mais sentido. No entanto, com o progresso da ascensão desta vertente o caminho vai se definindo e quando percebemos caímos num planalto que contorna a pirâmide do cume pelo outro lado.

À primeira vista parece que fomos enganados pelo GPS. A pirâmide do cume aparenta ser muito grande e composta de rochas soltas que formam os temíveis “acarreos”.  Para piorar, sua base é circulada de uma geleira que nos obrigaria a calçar os crampons, que por recomendação do austríaco que encontramos no dia anterior, deixamos no acampamento. 

No entanto, ao aproximar, percebo que a base não é tão inclinada e que há uma boa passagem por uma rocha de coloração amarela, que ao aproximar percebo ter um cheiro ocre muito forte. Era enxofre puro!

Achamos uma passagem que nos levou à base da pirâmide, que para nossa felicidade não era tão inclinada quanto parecia e assim as rochas soltas não escorregavam vertente abaixo. Para minha surpresa, ao chegar lá, encontro com Jiri, que estava um pouco mais alto que eu. O caminho que fizemos, apesar de menos obvio, era bem mais fácil e por isso conseguimos alcança-lo para fazer cume quase ao mesmo tempo.

Do alto pudemos ver o Bonete Grande, que apesar do nome tem quase 1500 metros verticais a menos que o Chico. Vimos a Corona Del Inca e ao fundo o Grande Nevado Pissis, o terceiro mais alto dos Andes. No horizonte jaz o vulcão Copiapó, onde estivemos em Outubro, também o Tres Cruces, Ojos Del Salado, Cerro Solo, Incahuasi, Fraile. Ao Sul o Famatina parece uma muralha e com formato semelhante distingo o desconhecido Colanguil em San Juan. Ainda naquela província se vê o Majadita, Olivares e o Nevado Toro. Todos com mais de 6 mil metros. Além destes gigantes, em minha frente e a poucos quilômetros distingo o Vulcão Parofes, recém conquistado por nós em novembro.
Primeiros movimentos pela manhã. 
Vale ascendente.

parando para descansar e a pouco profunda cratera do Bonete.

A cratera do Bonete Chico

Subindo para a base da piramide final

Primeira vista para a piramide final.

Indo para a piramide final 

A piramide final de perto.

Atravessando o campo de enxofre

Campo de enxofre

Cume

Vini no cume

Mostrando o vulcão Parofes

Todos no cume

Cume do Bonete Chico 6779

Cume do Bonete Chico.

19 de janeiro de 2016

Aproximação ao Cerro Bonete Chico


A descida para descanso em Vinchina foi uma excelente estratégia, onde pudemos dormir bem, comer bem, tomar banho, lavar roupas, descansar, descontrair, conhecer novas pessoas e renovar. Nos hospedamos no hotel “Portal de Laguna Brava” e ficamos muito amigos com os donos e até jantar de despedida teve.

Acordamos bem cedo e com o Conway carregado, apenas entramos no carro e fomos subindo os Andes, vendo o dia clarear e ganhando altura, atravessando a Quebrada de La Troya, o vale do Peñon e logo chegando à altiplanície da Puna onde o Veladero e o Bonete Chico se destacam verticalmente na paisagem dominada também pelo branco do salar da Laguna Brava.

Apesar de ser a quarta montanha mais alta dos Andes, o Bonete Chico é uma montanha pouco conhecida e pouco escalada. Enquanto o Aconcagua foi escalado pela primeira vez em 1897, o Bonete Chico foi apenas em 1978, muito recentemente. 

Falando em Aconcagua e Bonete Chico, muitos confundem esta ultima montanha com o Cerro Bonete, um cume com um pouco mais de 5 mil metros localizada em frente a Plaza de Mulas, o acampamento base da montanha mais alta dos Andes. Na realidade, a toponímia “Bonete” é muito comum nos Andes. Bonete em espanhol é aquele chapeuzinho de aniversário de crianças, daí ser muito usado para designar cumes pontiagudos.

O Bonete Chico é um enorme vulcão com 6779 metros, grande e espalhado. Mas do alto de sua grande cratera se eleva um pequeno cume triangular que dá o nome a montanha. Há atrás deste gigante andino o Bonete Grande, uma montanha de quase 6 mil metros. O que valeu para dar nome à montanha não foi a altitude, mas sim o tamanho da pirâmide do cume.

Deixando a RP76 para trás, após contornarmos a Laguna Brava inteira, entramos numa estrada feita por jipeiros 4x4 que leva até a Corona Del Inca, a maior cratera vulcânica dos Andes que fica a 5500 metros de altitude. Em 2016 ninguém ainda conseguiu chegar lá, pois a primavera de 2015 foi muito rigorosa e só agora os penitentes começam a derreter. O caminho tem muita água deste degelo, mas o gelo persistente ainda impede a subida.

O caminho com chão duro batido começa a dar lugar a um areial largo e sem fim. A poeira sobe com o vento na passagem do Conway e às vezes preciso para deixar ela baixar e prosseguir. O areial vai ficando mais fundo e eu me arrependo de não ter murchado o pneu antes de entrar nele. No entanto, por sorte, o carro não para atolado. Apesar de ser quase onze da manhã, uns 40 cm abaixo da superfície ainda está congelado e por isso não afundo tão profundamente e consigo assim chegar até o máximo que um carro consegue se acercar do Bonete Chico, na altitude de 5 mil metros.

O local, um vale bastante largo e arenoso, é desolador. Ele é cercado de rochas piroclásticas e o vento ergue uma poeira siltosa extremamente desagradável que penetra em qualquer lugar. Com pressa colocamos as mochilas nas costas e começamos a andar para sair logo daquele lugar insalubre, dando um temporário adeus ao Conway que foi ficando pequenino ao tempo que subíamos o arenoso vale. Olhava para trás e falava pro meu carro:  _Fique bem que já voltamos! Fique bem, vamos precisar de você! 
De fato, o maior medo de deixar o carro num lugar remoto e alto é que na volta ele não funcione mais. Tive até um pesadelo com isso naquela noite...

O vale arenoso, com chão fofo foi ficando para trás e logo começamos a subir uma loma com rochas soltas na superfície que era melhor para caminhar. Paramos para comer e também para por mais roupas, pois a altitude começara a se elevar e o frio a dominar. O cansaço de ter acordado cedo e dirigido me pegou e nestas paradas eu geralmente dormia sentado e era acordado por meus colegas.

Após atravessar esta loma, caímos num vale seco que marcava como sendo o acampamento 1 no GPS. Não havia neve para derreter e por isso decidimos cruzar o vale e achar algo mais alto. Além de mim, a Paula também estava cansada e desejávamos achar um bom local para acampar.

Caminhamos mais cerca de 40 minutos e achamos um campo de neve e um local quase plano onde montamos as barracas. Apesar de aparentemente bom, ele era exposto ao vento e no final de tarde ele deu as caras para congelar nossa pele exposta. Nos entocamos na barraca e começamos a fazer água com o fogareiro funcionando a mil. Depois fizemos um jantar e assim que o sol desapareceu entramos nos sacos de dormir para ter uma boa noite de sono. Pelo menos para mim que parecia um zumbi, ainda que tive aquele sonho de que meu carro não funcionara ali no meio do nada.

O vento cessou com o nascer de um novo dia e menos castigados pelo ambiente hostil pudemos desmontar o acampamento sem que nada voasse e assim nos colocamos em marcha novamente, indo em direção ao acampamento 2 na montanha.

Pelo caminho, no meio da vastidão gigante daquela montanha espalhada, o Vini observou um pontinho amarelo que ao aproximar surpreendentemente nos mostrou ser uma barraca. Vi meus parceiros se aproximarem e se agacharem para falar com alguém que habitava a pequena casa de tecido. 

Era uma mulher austríaca. Seu marido havia saído para tentar o cume e ela voltara. Foi muito bom saber que havia mais gente na montanha e que estavam atacando daquela altitude: 5750 metros. Conversamos um pouco e continuamos, para encontrar seu marido no caminho de volta, um senhor experiente que já esteve no Himalaia e conhecia o casal Coelho de São Paulo. Ele nos deu umas dicas, falou de um falso cume na montanha e partiu para encontrar sua mulher e descer até Copiapó descansar.

Um pouco mais alto, conseguimos ver outros 4 pontinhos chegando perto da barraca amarela e depois partindo para um local mais alto. Que sorte, nunca houve tanta gente naquela montanha! Chegamos ao nosso local de acampamento a 5990 metros e ficamos esperando por vizinhos que não vieram.

A noite foi calma sem frio e vento. Fui dormir na expectativa de ter um belo dia para cume. Tudo conspirava para isso: Tempo bom, estarmos descansados e muito próximo do cume.
Chegando aos 5 mil metros com o carro

Subindo o vale pela areia.

Conway ficando pequeno com o ganhar de altura.

Subindo a loma com rochas soltas, ao fundo se vê o Baboso.

Com o Bonete Chico ao fundo.

Acampamento 1 na montanha.

Chegando no acampamento dos austríacos. Consegue ver um pontinho amarelo?

Nosso acampamento 2 a 5990 metros de altitude.

13 de janeiro de 2016

Ascensão ao Cerro Baboso – 6080 mts

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Debaixo do manto negro da noite com lua minguante, um barulhinho quase inaudível interrompe o silencio da fria montanha. Se não estivéssemos numa altitude tão elevada, 5320 metros, duvido que eu acordaria.

_ Vini, veja se são mesmo 4 da manhã. Falei para meu companheiro.
_ Deixa eu ver. Sim, é mesmo, vamos acordar...

Gritando para a barraca ao lado aviso do horário combinado e em alguns minutos Greissy e Paulinha se espremem dentro da bagunçada barraca para tomar um café da manhã composto de bolacha de maisena e um café de sache feito de figo torrado.

_ Mas que merda! Que café é esse? Diz o mineiro Vini ao ser surpreso pelo fato que na Argentina café é qualquer coisa que não café. 

Eu me pego imaginando pra que serve esse tal de Mercosul se nem brasileiros conseguem ter acesso ao melhor que produz a Argentina e nem os argentinos ter acesso ao melhor que produz o Brasil.

Com pressa, deixo meus pensamentos voarem com o vento e já com toda a indumentária de montanha partimos no escuro deixando o barulho do pano das barracas sacudidas pelo vento para trás.

Subimos uma vertente pouco íngreme e logo temos que descer para um vale seco e ganhar altura em outra mais abrupta que nos protege do vento congelante. Ali, já com o lusco fusco do nascer do sol fazemos nossa primeira parada para hidratar e ver como estão todos. Que apesar do frio estão bem.

Vencemos esta vertente íngreme e caímos no outro lado num anfiteatro com um laguinho de cor celeste. Atravessamos rapidamente a breve planície e logo estamos galgando a crista que leva até o cume do “pequeno Baboso”, este 6 mil andino pouquíssimo frequentado e conhecido que tem apenas 8 metros a menos que o badalado Huayna Potosi da Bolívia.

Logo que montamos na crista somos açoitados pelo vento impiedoso que nos castiga com suas geladas rajadas. Para nos proteger, andamos fora da charneira pelas orilhas do espigão, de forma que a própria crista nos protegesse. No entanto a estratégia não dá certo todo o tempo, pois vira e volta grandes blocos rochosos nos força a seguir pelo outro lado, onde novamente sofremos com as rajadas.

Com o sol nascendo percebo que esqueci meus óculos e a Greissy, que carregava uma viseira de ski me empresta seu Julbo com aro cor branca. O que já rendeu comentários que eu estava “fashion”. Na moda ou não conseguimos resolver este problema pontual e proteger minha visão da reflexão dos raios solares na neve.

A ascensão foi então a repetição de cenas da gente tentando nos proteger do vento e ganhando altura pela face protegida da crista. Pouco sentimos o cansaço e a altitude, o que nos mostrou o quanto nossa aclimatação foi bem sucedida. A crista, que é a única feição de relevo a ser vencido até a cúspide da montanha foi ficando menor diante de nós, até o ponto que apenas pequenas elevações rochosas nos limitava ao ponto mais alto e nada mais havia para subir.

No cume achamos um monte de pedras empilhadas que seguravam uma garrafa que era o “livro de cume”, o qual nem assinamos, devido ao êxtase da vista. Dali foi possível ver o Bonete Chico, a quarta montanha mais alta dos Andes e nosso próximo desafio, o Pissis, a terceira e muito perto a montanha que foi o pano de fundo de toda a ascensão, o Veladero. Além deles, vimos também o Nevado Famatina, o Conjunto dos Três Cruces e o Vulcão Reclus, logo ao norte. Também pude identificar dentro das várias montanhas, o Vulcão Parofes, que conquistamos recentemente.

Fizemos um descenso tranquilo até o acampamento, aonde chegamos cedo para comemorar e descansar. Passamos o resto do dia comendo e quase dormindo, até a noite chegar.

Pelo Telefone satelital, recebi a previsão e notei que o vento iria aumentar e reduzir nossa chance de sucesso no Veladero, montanha que literalmente estávamos na boca do gol.

Após 8 dias em altitude, decidimos antecipar a descida à Vinchina para descansar e retornar com tudo para escalar o Bonete Chico e o Veladero. Decisão acertadíssima, já que após o dia que descemos o tempo fechou e nós pudemos ter dois dias de bastante paz, antes de regressar à altitude.

:: Continua...
A crista do Cerro Baboso

Galgando a crista pela manhã.


Vini e ao fundo o Cerro Veladero

Nuvens indicam que o tempo iria mudar.


No cume com o Bonete Chico ao fundo.
Greissy, Vini, eu e Paula no cume do Baboso de 6080 mts.

Vista para todas as montanhas da Puna da Corona del Inca desde o cume do Baboso


Reconhecedo o vulcão Parofes, a montanha com um pequeno cume triangular na esquerda.

11 de janeiro de 2016

Explorando o caminho até o Cerro Baboso


No primeiro dia de 2016 realizamos nossa exploração do caminho de acesso ao Cerro Baboso. Este caminho eu nunca havia estado, mas ele havia sido georreferenciado pelo Maximo usando o Google Earth.

Na verdade, descobrimos que essa região, apesar de ter 5 montanhas acima dos 6 mil metros e ser um importante local para o andinismo, só foi explorado recentemente. O Bonete Chico, quinta montanha mais alta dos Andes, só foi escalado pela primeira vez em 1978, o Veladero apenas em 1986 e o Baboso, bom, o Baboso nem sabemos...

Saindo da RP76, a estrada que liga Vinchina ao Chile, tomamos um caminho de terra em direção à Corona Del Inca, a maior cratera vulcânica dos Andes que é frequentada apenas por turistas em boas 4x4. 

Nem chegamos a um ponto crítico da trilha e derivamos sentido noroeste por um vale sem pegadas de carro visíveis, mas presentes, que indicavam que alguém passou por ali não muito recentemente. Estas pegadas quase apagadas subiam um vale de origem glaciar composto com muitos sedimentos ora finos, como areias, ora cascalhentos. O desafio era criar um caminho longe da umidade criada pelo derretimento de gelo que ainda persistia em permanecer na paisagem mesmo no alto verão. A água infiltra pelos areais e formam atoleiros indesejáveis, ainda mais com tanto peso de equipamentos no teto.

Por sorte percorri um caminho sem imprevistos e subi o vale até os 4600 metros, onde uma barreira de gelo penitente impedia o progresso. Ali estacionei o Conway, de forma que ele nos protegesse dos ventos e montamos um acampamento. Ainda que pudéssemos avançar mais à pé, era necessário respeitar a altitude até então inédita.

Acampamento base do Baboso e ao fundo o Cerro Veladero com seus 6438 mts.

Vini, o mineiro dando uma de gaúcho.

Tivemos uma tarde agradável, com uma refeição farta. Um rio se formou com o congelamento do gelo após as 14 horas e fomos agraciados com o precioso liquido. Tudo perfeito para permanecermos em altitude aclimatando.

Tivemos uma noite excepcional, com bom tempo, apesar de um vento em rajadas que nos acordou um pouco. Ao amanhecer, após o café, arrumamos a mochila com bastante comida e um duffel bag e começamos a caminho rumo à montante à busca de um caminho até uma boa base no Baboso.

Devido a presença de muito gelo penitente no vale acima de nosso acampamento, subimos uma crista e fomos ganhando altura. A vista era espetacular, já que podíamos ver tanto o Veladero, quanto o Bonete Chico, além é claro o Baboso, a menor montanha naquela região de gigantes.

A crista era uma loma formada por depósitos glaciares do passado e era irregular, com suaves sobes e desces. Que elevados à décima potencia nos cansou muito. Após a maior subida, chegamos na entrada de um vale onde chegamos em sua meia vertente bastante abrupta e coalhada por material rochoso solto formado por placas com tamanho variado. Evidentemente fomos costeando o vale, tomando cuidado para escorregar no material solto, o que é potencialmente perigoso. Uma rocha grande pode resbalar e quebrar sua perna. 

Atravessar um terreno assim existe esforço e concentração onde pisa. Acabamos por passar por esta costa e paramos num anfiteatro onde paramos para descansar. Era fim de tarde, a luz já estava se esmaecendo e decidimos depositar as comidas ali no duffel bag. Não chegamos ao destino final, porém não seria possível ir até um acampamento mais próximo à montanha. Depositamos os quase 70 kg de equipamentos ali e começamos a descida longa. Foram 11 km de caminhada vezes 2 (ida e volta).

Começo do vale depois de nosso acampamento.

Greissy no caminho para o acampamento alto do Baboso 
Greissy e Vini com o Bonete Chico atrás.

Caminhando pela crista.

Local onde depositamos a comida a 5200 metros
Uma vista desejada: Voltando ao Conway depois de mais de 12 horas de caminhada de porteio.

Chegamos ao carro muito cansados, tendo que lutar para comer e beber. Por conta do cansaço todos dormiram mal e acordamos tarde no dia seguinte. Porém disciplinados, desmontamos acampamento e levamos o resto dos equipamentos montanha acima. Desta vez, ao invés de ir pela crista, fomos pelo vale, enfrentando o gelo penitente e cruzando pelo duffel com as comidas por volta das 18 horas.

Novamente estávamos muito cansados, porém encontrei um vale com bastante gelo e um terreno plano que me pareceu perfeito para acampar e assim fizemos, estabelecendo o acampamento alto do Baboso a uma altitude de 5320 metros.

Novamente o cansaço, mais a altitude, nos fez dormir muito mal. Ainda mais com os fortes ventos que produziram barulhos nada agradáveis para o sono. Acordei cedo, pois não tinha mais sono para continuar no saco de dormir e acabei acordando todos. Nos reunimos na barraca e após um café da manhã simples tomamos coragem de ir buscar as comidas mais abaixo, chegando lá em menos de uma hora.

A velocidade da ida com as mochilas leves foi o oposto com as mochilas pesadas. Contando com a pernada do dia anterior, chegamos ao acampamento sem vontade de fazer nada e passamos o resto do dia descansando e comendo, para dormir cedo e tentar o cume no dia seguinte...

:: Continua...

Atravessando um campo de penitentes no vale na ida para o campo alto.

Acampamento alto do Baboso a 5320 metros.

Acampamento alto do Baboso
Galera reunida para fazer um almoço a 5320 metros de altitude.