9 de outubro de 2014

Balanço da Expedição Bolívia 2014

Passado algum tempo do término desta expedição, dando um tempo para descansar e olhar pra trás, posso afirmar que tudo ocorreu bem.

Foram 9200 km percorridos no jipe para estar em 10 montanhas, das quais fiz cume em 7: Chaupi Orko, Chachacomani, Chearoco, Acotango, Guallatiri, Capurata e Uturuncu. As que não pude ir até o cume foram, o Chacaltaya, Huayna Potosi e Sajama, que já tinha feito em outras ocasiões. 

O resultado disso foi a finalização da escalada de todos os 6 mil bolivianos, um projeto que já existe há muito tempo, mas que era feito de maneira errônea, já na lista anterior, excluía-se o Capurata como 6 mil e nela se incluía uma montanha que é na verdade um 5 mil, o Alto Toroni. Há também a dúvida quanto ao fato do Guallatiri fazer fronteira entre Bolívia e Chile ou só ser parte deste segundo país.

De qualquer forma, apenas 3 pessoas realizaram o projeto neste formato, além de mim, meu parceiro Maximo Kausch e o top climber equatoriano Santiago Quintero, que diga-se de passagem, o realizou poucas semanas antes de nós, com os dados do Max. Santi, como é chamado, teve amplo apoio, com patrocínio, por exemplo, do Ministério dos Esportes de seu país e da Chevrolet, que deu uma caminhonete 4x4 preparada pra ele.

Infelizmente não tive nenhum patrocínio, mas pela primeira vez na minha vida eu pude ir aos Andes com meu próprio 4x4, comprado com meu esforço, economias e ajuda da minha família, que sempre me apoiou nas minhas andanças. Pois não foi que em minha primeira viagem com meu jipe eu já bati meu recorde de altitude! Cheguei aos 5460 metros de altitude.

Meu recorde de altitude com um carro até o momento (2014).
Fora isso tive uma boa experiência guiando em montanhas de grande altitude, ensinando escalada em gelo e o resultado disso foi divulgado amplamente na mídia, com um vídeo muito legal editado por meu ex aluno de escalada em rocha de Curitiba, Rodrigo Janz (que está deslanchando na escalada e montanhismo) e também numa matéria excelente feito por Mario Mele para a revista Go Outside. Pra fechar o sucesso da expedição, a ex aluna do curso Carina Costa, que fez outra matéria, desta vez para a revista de bordo da TAM linhas aéreas.

Vídeo do curso de gelo realizado por Rodrigo Janz

Capa da Revista Go Outside com matéria de 9 páginas sobre o curso de gelo

Abertura da matéria da revista Go Outside.

Como não perdemos a chance de homenagear nosso amigo Parofes, em todas estas montanhas deixamos um pouquinho dele. Pra mim foi muito chocante ter perdido um grande amigo, o que ocorreu a poucos meses antes da viagem. Esta foi apenas uma forma de homenagear e lembrar. Continuo carregando ele comigo em todos os cumes.

Outra coisa que pode ser notada neste balanço, foi a comprovação de que o Capurata é uma montanha com mais de 6 mil metros, dado que dificilmente pode estar errado, uma vez que diversos aparelhos de GPS marcaram altitude semelhante e mesmo que o método não seja o mais eficaz, ainda assim pela margem de erro dificilmente a montanha seria um 5 mil. 

Outra coisa muito legal são os relatos, que continuam aí online, com as fotos, para serem lidas e vistas. Quem quiser acompanhar a história desde o começo é vir neste post. Toda esta história está tageada com o nome Bolívia 2014. Boa leitura!

:: Leia os relatos da expedição desde o começo






5 de outubro de 2014

Escalada da Variante Maria Cebola no Dedo de Deus

Após a roubada divertida em Salinas, fomos fechar nossa passagem rápida pelo RJ subindo um grande clássico nacional, o Dedo de Deus, berço da escalada em rocha do Brasil. Eu havia escalado esta montanha por sua rota de conquista de 1912 há uns 3 anos atrás e queria levar o Maximo Kausch e a Maria Ulbrich para conhecer esta fantástica e belíssima montanha.

Aproveito este relato e já vou adicionando algumas dicas de como repetir a rota mais popular da montanha, a Face Leste pela variante Maria Cebola. Antes de fazer esta rota, é obrigatório fazer o registro na portaria do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PNSO) em Teresópolis. Para agilizar a esta burocracia, pode se fazer isso imprimindo o formulário neste link, preencher e deixar com os guardas. Não esquecer de dar baixa na volta.

Mesmo pertencendo ao PNSO, a entrada do Dedo se faz pela BR 116, numa entradinha logo após a curva da Santa. A entrada é escondida e não há indicações, para achar basta descer pelo acostamento da pista de descida e ir olhando à direita. Não é possível deixar o carro no acostamento. O melhor local para isso é deixa-lo atrás do restaurante Paraíso da Serra. Os proprietários do restaurante não gostam que os escaladores ocupam o estacionamento principal do estabelecimento, então por gentileza é bom utilizar este espaço de serviços. No site Rumos há o tracklog para ver no Google Earth e também para usar no GPS.

Após fazermos todos estes procedimentos, chegamos cedo e logo começamos a caminhada, que começa íngreme pela mata até chegar ao primeiro trecho rochoso onde estão instalados os cabos de aço que recentemente foram trocados. A partir daí o ganho de altura é bem rápido e se alterna entre trechos de via ferrata e trilha.

Na primeira bifurcação da trilha na direita começa a aproximação da face leste, que passa pela base do diedro Salomith, mas acaba na base da via que escolhemos, onde nos equipamos para começar a subida.
O primeiro trecho é meio que um trepa pedra com trepa mato bastante fácil que fizemos desencordados para que a mesma não fique presa na vegetação. A escalada em si começa num bloco que parece ser difícil, mas não é. Passando esta passagem, a escalada fica fácil e divertida, com possibilidade de proteções em árvores e móveis em fendas. O fim desta enfiada é um grampo simples num platô.

A segunda enfiada quem guiou foi o Maximo, que se bateu um monte na saída em uma fenda de meio corpo. Esqueci de avisar ele das chaminés da montanha, por conta disso ele subiu um pouco e logo eu assumi a enfiada, que passa por um trecho fácil e aéreo muito bonito que termina no começo de uma chaminé onde tem uma árvore que usamos para fazer a parada, o tal do platô da árvore.

Reunidos, ali as vias se dividem entre a variante “Black out” e a Maria Cebola, que dizem ser a parte mais legal da escalada. Por conta disso, obviamente, me coloquei na tarefa de guiar a segunda opção, usando a arvore para ganhar altura e ir subindo a parede no trecho mais técnico da via que após uma quina faz uma virada e entra num diedro fendado com um tetinho, um trecho super exposto e aéreo, pra não dizer no cagaço...

Depois dali começam as chaminés que são o terror para os mais altos. Ali percebi como seria útil ter uma joelheira para escalar a montanha. Subi guiando com certa dificuldade o trecho inicial, mas depois quando ela se alarga fica mais tranquilo novamente. A rota ameaça sair da chaminé, com uma parada num grampo único num platôzinho fora da rocha, mas na sequencia já entramos em outra fenda novamente, numa enfiada curta por conta do arrasto da corda.

A última enfiada começa num lance que parece difícil, mas não é. Ali há um bloco que se vence com tranquilidade e um caminho natural que entra numa fenda de meio corpo indo pela esquerda de uma grande rocha. Vencendo este lance, há um tipo de uma caverninha, ali tem que tomar cuidado com a orientação, para não entrar muito a fundo e ir subindo por umas rochas na direita quando olhamos para o fundo da caverna. É um lance meio estranho onde se ganha um bico de pedra e começamos a subir um local onde há uma fissurinha de dedo.

Estranho porém fácil. Ali escala-se quase como uma chaminé, até sair do buraco e chegar na última parada, quase na base da escada metálica que dá acesso ao cume.

A descida se dá pela via Teixeira, que tem apenas 70 metros. Cuidados a parte para não enroscar a corda e rapidamente estamos na trilha descendo os cabos de aço. Fizemos o ultimo rapel no lance dos maiores cabos e ali já pudemos ficar tranquilos que com uma simples pernada já estaríamos na estrada. Há outra descida direta, que ainda não fiz, que foi aberta pelo Santa Cruz da Unicerj que parece ser bastante interessante.

Como sempre digo, o Dedo de Deus não é fácil. Apesar de muita gente insistir, esta montanha apresenta uma escalada tecnicamente simples, mas ela tem uma dificuldade física e emocional grande, principalmente pra quem está indo lá sem conhecer. Acho que capacete de escalada, joelheiras e móveis grandes são materiais que ajudam muito. Não esquecer também headlamp, principalmente quem vai encarar a chaminé Black Out. Nunca entre na montanha com mochila grande nas costas.
   
Vista do começo da ascensão

Primeiro trecho de trepa mato

Chegando no platô da árvore

A tal da árvore.

O começo da Maria Cebola.


O trecho mais famoso do Dedo de Deus.

Chaminé eu te odeio

E eu tb!!! 
Leve joelheira

Na penultima parada.

Maria no segue da última enfiada.

Eu, Maria e Maximo no cume do Dedo de Deus.

Placa no cume

Pedro e Maria no cume do Dedo de Deus.

Croquis da Face Leste do Dedo de Deus com Chaminé Black out e Variante Maria Cebola comentado.

2 de outubro de 2014

Três Picos no estilo Salinas

O Parque Estadual dos Três Picos, mais conhecido como Salinas, abriga as mais tradicionais vias de escalada tradicionais do Rio de Janeiro, num estilo singular de vias com proteções irregulares, chamadas por alguns de suicidas, mas por muito de aventura que se conveniou chamar de estilo “Salinas”, já que pelos idos dos anos 70 os escaladores cariocas assim chamavam o local, perpetuando para a eternidade a terra da escalada de vias longas com o nome das cachaças mineiras.

Estivemos recentemente, mais uma vez, nas paredes do Pico Maior, mas sem muita vontade de encarar o estilo “Salinas”, dado que há muito eu não entrava numa via para esticar a corda. Decidi entrar na via mais suave do local, a Mateus Arnaud, que há muito tempo foi criticada por não seguir o estilo desprotegido local. Um dos conquistadores, meu amigo Rafael Wojcik, que na época da conquista da via tinha apenas 15 anos, me recomendou e assim decidi levar o Maximo e a Maria para lá. O primeiro também não escalava algo há bastante tempo e a Maria estava experimentando parede pela primeira vez.

Seguindo as dicas do Rafael e fomos ao amanhecer encarar a parede. A dica de localização era ir até a base da Leste e continuar costeando a parede até encontrar uma via protegida com chapeletas da Fixe. Assim fizemos... Encontrando uma via depois de uns 15 minutos descendo entre a rocha a e vegetação.

A primeira enfiada eu guiei. Nem prestei atenção no número de chapas, pois mesmo tendo dificuldade em encontrar as mesmas, pois estavam oxidadas, acabei achando o caminho e a primeira parada, passando a guiada para a próxima enfiada pro Maximo, que fez com tranquilidade, mas notou que haviam menos chapas na parede do que dizia no croquis.

Para manter a rapidez da cordada, emendei a próxima enfiada, que foi bem tranquila e passei a próxima pro Maximo alternado a escalada de acordo com as pontas de corda. Ele começou o quarto largo com facilidade, mas dado um momento se perdeu na parede. Eu com o croquis na mão dava palpites: _ Vai mais pra esquerda! O croquis do Serginho é fiel!

E ele foi, passando um super veneno. Teve que desescalar, depois esticar um monte de corda para achar uma chapa intermediária e depois a parada, vendo vários locais para equipar com móvel e esticando um monte a corda. Será que o tão fiel guia de escalada dos 3 Picos desta vez estava com informação furada? Eu não sabia, e fiquei com cara de paspalho por dar informação errada e deixar o parça na roubada.

Estávamos com os móveis na mochila, pois na Mateus Arnaud não era necessário, ainda bem que estávamos. Neste momento decidimos colocar no rack. Fui guiando as próximas enfiadas, pois estava escalando mais rápido. Até que cheguei num determinado local que achava ser um quarto grau, mas passei um veneno danado, acho que estiquei uns 4 metros num 7a. Quando cheguei na parada, meus parceiros vieram de segundo e desviaram este “crux”, fazendo um quinto. Eu poderia ter desviado também, esticando um pouco mais, mas evitando o lance difícil.

Durante toda a escalada encarei lances mais difíceis do que estava marcado no croquis, muitas vezes equipando os lances em móvel. Entretanto o croquis era mais ou menos fiel. Eu achava que, pelo fato da via ter sido polêmica no passado por ter mais proteções que o normal, as chapas haviam sido arrancadas.

Íamos nos aproximando da primeira chaminé, quando percebi que as chapas que antes eram da fixe, começaram a ser Petzl de alumínio. Logo que percebi isso, encarei uma crocotência de 6 grau no veneno. Ao passar por este lance, vi um grampo logo na esquerda da parede e fui a caminho dele. Foi neste momento que percebi que não estava na Mateus Arnaud...

Escalando um pouco mais, cheguei num platô com mato e descobri que na direita dele havia uma parada equipada com chapas da Petzl e na sequencia havia uma chapa dupla da Bonier. Lá tive certeza que não estava na via certa. Voltando ao platô, vi grampos que iam na direção da chaminé da Leste. Acabamos indo pra lá.

Após a breve escalada até chegar à chaminé, decidimos continuar pela Leste para fazer cume. No entanto eu não tinha o croquis desta via e nem tinha bem claro na minha mente a linha dela, pois fazia 6 anos que eu não passava por ali. De memória eu lembrava que na chaminé havia um grampo e chegando nele eu tinha que sair pra esquerda, num lance meio aéreo. Só que eu não lembrava quantos grampos tinham nesta chaminé se era um ou dois. Escalei até o primeiro grampo e decidi tocar pra cima pra ver se havia outro. Confirmei que nada havia lá em cima e decidi voltar, chegando até uma parada com grampos bastante oxidados.

Desta parada eu pude ver um outro grampo oxidado pra cima, mas fiquei em dúvida, pois eu lembrava que depois da chaminé havia um lance em diagonal. Como já era 3 da tarde, não tínhamos o croquis e estávamos em 3, decidi que seria melhor descer do que correr o risco de passar um perrengue e de repente ter que dormir na montanha. Foi uma sábia decisão.

Descemos pela via que subimos, abandonando uma fita de 120 cm de dyneema e um mosquetão velho, mas foi tudo tranquilo e só pegamos o pôr do sol no final da trilha de volta ao Mascarin. 

Mais tarde descobrimos que não escalamos a Mateus Arnaud. Na verdade entramos desde o começo na via Decadénce avec Elegánce e formos descer somente na P10 desta via. Ou seja, escalamos 2/3 da parede achando que estávamos em outra via...

As escaladas em Salinas não são muito difíceis tecnicamente, mas psicologicamente sim. Elas exigem experiência para que o guia sempre se oriente corretamente, pois a maior dificuldade do local é se perder nas vias. É preciso ter experiência para se achar e também pra saber a hora certa de desistir.

Pico Maior pela manhã.

Maria Teresa Ulbrich em Salinas

Os 3 Picos

Pico Maior, a montanha mais alta da Serra do Mar.

Maximo guiando

pra onde?

Maria na segue

pro alto.

De segundo.
Entrando no perrengue

Fica esperto....

Esticãozinho

Pra cima

Subindo

Na parede

Pico Maior noturno.

30 de setembro de 2014

O prazer de escalar as Agulhas Negras

Foi em Agulhas Negras que eu despertei para o montanhismo. Passados 16 anos, em nova visita a este importante Parque Nacional brasileiro, eu consigo refletir por que a escalada e a ascensão a uma grande montanha se tornou algo inerente a minha vida.

A região de Agulhas Negras, que é o Planalto de Itatiaia, é um dos locais mais bonitos da Mantiqueira. Os campos destoam-se das matas pela visão ampla que ela permite da paisagem e sua sensação de liberdade, mas não é somente a beleza cênica que faz destas montanhas um destino interessante ao montanhismo, o desafio técnico e físico também.

Agulhas Negras não é uma montanha difícil. Para chegar ao cume são cerca de 2.5 km de trilhas e menos de 400 metros de desnível vertical a partir do Abrigo Rebouças. No entanto esta rota não deixa de ter seu desafio, pois em diversos momentos há trechos de escalaminhada onde se usa técnicas de escalada. Em diversos locais do Brasil, trechos como estes foram substituídos por escadas e vias ferratas, mas lá eles se preservaram e ainda fazem da ascensão à Agulhas Negras uma escalada.

Recentemente junto com Maximo Kausch, Bruno Masredon e Rafael Wojcik guiamos 30 pessoas nesta montanha e enxerguei nos olhos deles a paixão que tive por aquele lugar há 16 anos atrás. Apesar de ser necessário o uso de corda, de termos que fazer um ou outro rapelzinho num lance de rocha mais inclinado, ainda assim todos os 30 clientes fizeram cume, mesmo sendo desafiados pelas vertentes do maciço montanhoso, o frio do vento e o medo que dele emana.

Agulhas Negras é fácil, mas não é de graça e é uma das poucas montanhas altas da Mantiqueira e Serra do Mar onde podemos falar que para chegar em seu cume nós escalamos ela.




Subido os trepa pedras
 
Todas as meninas felizes com a escalada. Foto Drica Faina.

Galera curtindo a subida em Agulhas. Foto Drica Faina.

Mais trepa pedra. É mais difícil, mas é mais legal. Foto Drica Faina.

Todo mundo no cume de Agulhas! Foto Drica Faina.

11 de setembro de 2014

Escalando o Uturunco e finalizando a ascensão de todos os 6 mil bolivianos

:: Leia a parte anterior
:: Acompanhe a expedição Bolívia 2014 desde o início

Saindo de San Pedro, pegamos a estrada internacional que sobre os Andes em direção a Jujuy na Argentina. É mais um caso daquelas estradas chilenas que sobem pedimentos dos desertos em retas intermináveis de dezenas de quilômetros onde os carros quase morrem sem oxigênio e de tanto andar em alta rotação. Ali, com Luiz Antoniutii fervemos uma Pajero Sport em janeiro. 

Nosso jipinho sobe lentamente e com muita dificuldade até chegarmos no altiplano, onde uma discreta estrada de terra aparece na esquerda da estrada internacional. Para ela havia uma placa indicando “Bolívia”.

Deixamos a confortável estrada asfaltada para entrar nesta estradinha poeirenta que descreve bem a Bolívia e dali a 5 quilômetros chegamos numa casinha de adobe pequena, circulado de algumas placas que dizia “migraciones”. Ali chegamos na fronteira...

Fomos muito bem recebidos pelos policiais bolivianos, que nos avisou que ali fazia apenas a migração, ou seja, apenas carimbava o passaporte. O carro teria que passar pela aduana que ficava uns 150 km dali, em um lugar chamado “Apacheta”. E lá vamos nós entrar na Bolívia e ir a caminho desta apacheta incaica.

Uma vez atravessando a fronteira, chegamos num parque nacional boliviano chamado Eduardo Avaroa, que é famoso por suas lagoas coloridas cheia de flamingos e pelo vulcão Licancabur. Escalei ele este ano com o Antoniutti e seu filho Luca de 15 anos, que talvez tenha sido o mais jovem a escalar esta montanha, mas não fui até Apacheta, fiquei na pousada localizada na laguna Verde descansando e não sabia dos caminhos que cruzam esta região bonita e desolada chamada de Sud Lipez.

Pagamos a taxa de 150 bolivianos que estrangeiros pagam ao entrar ao parque e tomamos a estrada rumo ao norte, por onde passam inúmeros jipes 4x4 que levam turistas de San Pedro de Atacama até o salar de Uyuni. A estrada é larga, mas é de terra. No começo é boa, mas logo aparecem as chamadas “costelas de vaca” que são ondulações na pista que fazem o carro tremer todo. Estas costelas de vacas vão ficando maiores e maiores até o ponto que sou obrigando a andar na primeira, pois o carro sacolejava tanto que nos pulos perdia a traseira e corria o risco de tombar, isso sem falar nas pancadas destruindo a suspensão.

Assim, de costela em costela, andando a menos de 20 km por hora tudo ficava monótono e lento. Uma pena só existir este tipo de costela na Bolívia e a gente com fome...

Passamos por vários locais bonitos no caminho, mas estávamos focados em escalar o Uturunco. Depois de várias horas chegamos em Apacheta e quase que o oficial da aduana não deixou entrarmos no país, pois eu não estava com a minha apólice que dizia que meu seguro valia na Bolívia. O que nos salvou foi eu ter a cópia da minha ultima declaração jurada quando entrei no país por Villazón.

Dali seria mais 80 km até uma cidadezinha chamada Quetena Chico, que fica aos pés do Uturuncu. Foram os 80 km mais longos da minha vida, pois a estrada era terrível! Os bolivianos por sua vez não respeitam em nada o meio ambiente. A estrada ruim cheia de costelas de vaca faz que eles saiam de seu leito e façam outros caminhos paralelos na lateral para evitar aquela desgraça e a estrada vai se alargando de detonando o contorno. Pura negligencia do governo, pois custa caro a entrada do parque e eles tem motoniveladora para fazer manutenção e evitar estes abusos. Entretanto parece que a motoniveladora (eu vi, novinha), não é usada.

Chegamos em Quetena Chico à noite. A cidade parece fantasma, pois como muitas cidades bolivianas não tem eletricidade e apenas algumas luzes de casas com gerador são visíveis. Queríamos passar despercebidos, pois conhecemos bem a Bolívia e as comunidades indígenas. Eles sempre inventam alguma dificuldade para você escalar montanhas, cobrando ou exigindo algo, mas damos de cara com uma bandinha da policia tocando na frente da comissaria local. Como pode um local tão pequeno ter tanta polícia? A Bolívia é um país extremamente militarizado.

Passamos batido pela polícia e depois encontramos uma dificuldade para encontrar o começo da estrada que vai para o Uturunco. Atravessamos um rio sem ponte e do outro lado encontramos o caminho, que é tão ou mais precário que o caminho de Apacheta.

Neste novo caminho vamos devagar, atravessando rios e desertos de pedra, até que começamos a ganhar altura. A noite está maravilhosamente estrelada e vamos batendo papo ao ponto que lentamente vamos subindo as encostas do vulcão. Passamos por locais bem difíceis com muita pedra, que tenho que desviar com perícia, até encontrar um local para acampar a 5400 metros. Fazia muuuuito frio!

Dormi muito mal por conta do frio, mesmo com um saco de pluma de ganso para -26 graus e acordei somente às 7, sacudindo o Maximo que também não teve uma noite boa. Fazemos algo para comer e desmontamos o acampamento, tendo dificuldade para fazer o jipe pegar devido ao frio intenso.

Uma vez com o carro em ordem e já com algum sol aquecendo, vamos novamente na reduzida até o local onde a estrada é interrompida à 5560 metros, onde começamos a subir à pé um acarreo mais um menos bom (depois do Capurata, tudo é bom!).

Vamos ganhando altura com facilidade e em apenas 1:45 horas já estamos no topo, onde observamos uma pirca de pedra com uma bandeirinha boliviana balançando num pequeno mastro improvisado de madeira. Escalar a montanha foi muito mais fácil que chegar nela.

Vamos filmando nossos últimos passos, finalmente finalizávamos o projeto depois de 13 anos de escaladas na Bolívia! Ao longo deste tempo em 5 expedições que realizei pelo país, fui de pouco em pouco escalando todas suas grandes montanhas até que neste ano, em cerca de 40 dias eu e o Maximo fizemos um grande esforço para fechar as 7 que me faltava, ou seja, de 13 anos, metade destas montanhas foram escaladas em um pouco mais de um mês.

Escalar todos os 6 mil da Bolívia é um projeto interessante, mas apenas uma amostra do que é escalada em alta montanha. Uma amostra bem completa, pois se escalada montanhas difíceis e técnicas, como o Illampu e o Chearoko. Montanhas longas e escondidas, como o Chachacomani e o Ancohuma, montanhas populares, como o Huayna Potosi. Montanhas bonitas e chamativas, como o Illimani, montanhas altas e secas, como o Parinacota e o Sajama, montanhas fáceis, como o Acotango e remotas como o Uturuncu e o Chaupi Orko, ou novas (com a confirmação de altitude) como o Kapurata. 

Muitas destas montanhas são pouco ou nada conhecidas, onde tenho certeza que ficará muito tempo sem outra ascensão. Este tempo tive muitas histórias e considero este projeto o mais interessante projeto pessoal que eu realizei.

A estrada principal de Sud Lipez.

Atravessando o deserto rumo ao Uturuncu.

Deixando o jipe descansar.

Caminhos laterais devido ao excesso de costelas de vacas. Um absurdo!

Avistando o Uturuncu.

Começo da subida do Uturuncu pela manhã.

Fumarolas vulcânicas.

Subida fácil.

Ultimo dos cumes de 6 mil da Bolívia.

Relato no livro do cume.

No cume do Uturuncu.

Parofito no cume do Uturuncu.

Uturuncu visto de longe.