Blog do Pedro Hauck

31 de dezembro de 2018

2018, um ano difícil, mas de grandes conquistas


E mais um ano termina e nesta época de passagem, quando todo mundo dá para uma parada e descansada para começar o próximo ciclo, não dá para não refletir sobre tudo o que aconteceu nas últimas 365 vezes que a Terra rotacionou sobre seu próprio eixo.

Pois é, em 2018 completei 20 anos escalando montanhas. Não que antes de 1998 eu não tenha feita nada. Na verdade já desde de 1994 eu frequento trilhas, mas necessariamente para subir uma montanha. Antes disso eu era muito novo, não tinha independência para escolher um lugar para viajar. Na verdade quem fazia isso eram meus pais e eu apenas ia.

Foi em 1998 em que eu tomei as rédeas do meu destino e o que era de principio uma fuga, se tornou minha vida, meu ganha pão, minha cultura e minha maneira de ver o mundo. Tudo o que eu faço tem a ver com montanhismo, minha vida se confunde com isso. São 20 anos me dedicando pra valer e fora isso apenas 16 em que fazia isso e outras coisas mais. Pois é, também não sou tão velho assim.

Acampando em 1998. Reconhece alguém?


Entretanto em 2018 não escalei mais que outro anos. Em 2015, por exemplo, passei mais noites numa barraca do que em minha casa. Neste ano que se passou eu fiquei mais tempo em casa, trabalhando, ainda que meu trabalho tenha a ver com montanha.

Passei 10 meses em casa tendo rotina, indo para meu trabalho na Loja AltaMontanha. Neste ano vi a empresa que tenho com Rafael Wojcik e Hilton Benke sair de uma casa, numa estrutura simples, para irmos para uma loja de verdade, com uma estrutura digna de nosso tamanho e importância.

O bom disso é que pude escrever um livro sobre um pouco de minha trajetória nestas duas décadas de dedicação à montanha. Digo um pouco e já ficou com mais de 4 centenas de páginas. Trata-se do livro Arrisque-se, que tem um título, capa e histórias surpreendentes!

Leitora aproveitando o Livro Arrisque-se durante a aclimatação na montanha.


Não tive muito tempo para me dedicar à minha outra empresa, que tenho com minha mulher, Maria Tereza e meu amigo de infância, MaximoKausch, com quem comecei a escalar há 20 anos atrás. Estive à frente dos cursos de escalada somente.

Não lembro quantos alunos eu tive em 2018, mas foram muitos e foram motivo de orgulho, pois os vejo se desenvolverem nas rochas , se desafiando e indo além.

Neste ano tirei minha cerificação de Instrutor de escalada pela AGUIPERJ, Associação de Guias e Profissionais de Escalada do Rio de Janeiro. Foi uma prova difícil, desafiadora. Tive que estudar de verdade, ficar lembrando de nós e procedimentos e ainda viajar até o Rio fazer a prova com outras pessoas super talentosas.

Durante a avaliação da AGUIPERJ no Rio

Mas o ápice do ano foi ter escalado minha primeira montanha de 8 mil metros, o Manaslu, de 8163 metros de altitude. Todo mundo que sobe montanha um dia sonha em poder escalar pelo menos um dos 14 8 mil e neste ano pude ver o que é a altitude extrema, ter que usar oxigênio, fazer ciclos de aclimatação e conviver com sherpas e estrangeiros. Foi uma experiência incrível! Mais do que isso, eu fui líder da expedição e discuti estratégias que felizmente fez todo mundo chegar no cume. Eu e meus amigos Claudinha e Bernado.

Não éramos os únicos no Manaslu. Dividimos a expedição com os clientes do Arnold, um amigo holandês que vive no Nepal. Além dos brasileiros, que eram maioria, havia um belga, um espanhol que vivia na Inglaterra, uma Jordaniana que mora nos Emirados Árabes, outro holandês e sua esposa finlandesa. Uma salada mista que se entendeu, criou laços e curtiu juntos o cume da oitava montanha mais alta do mundo.

Só não fomos os primeiros a chegar no cume pois horas antes o espanhol  Sergi Mingote e o brasileiro Moeses Fiamoncini chegaram ao cume sozinhos ao lado de Kami Rita Sherpa.
E 2019?

Bom, sigo mais leve após ter cumprido este projeto que tanto me consumiu que foi escalar o Manaslu.

Cume do Manaslu com Karma Sherpa


Também não posso deixar de falar na maravilhosa experiência que vivi viajando sozinho pela China, um país que sempre sonhei em conhecer.

Agora, mais leve, pretendo dividir melhor meu trabalho de guia de montanha e de empresário de loja de equipamentos de montanha. Pretendo no ano que vem estar mais perto de minha mulher, a Maria Tereza, mas mais longe de vocês. Vamos guiar roteiros distantes, conhecer novos países, visitar nossos irmãos que moram longe há bastante tempo.

Espero que o próximo ano seja de realizações como foi este ano, mas um pouco mais fácil.

Feliz 2019 para todos nós!


19 de dezembro de 2018

Hong Kong, uma selva de pedra interessante

:: Veja o Post anterior
:: Acompanhe esta viagem desde o começo

Mais uma viagem de trem bala. Desta vez entre Xiamen e Hong Kong, cerca de 700 km em apenas 4 horas!

A manhã está tranquila. Tomo um café da manhã na estação de trem e no horário vou até o portão que está pouco movimentado. Adentro a plataforma e logo no vagão.

O trem vai deixando a ilha para trás e ao entrar no continente vamos cruzando por uma cidade imensa em construção. Vejo prédios e mais prédios residenciais vazios. As ruas já estão prontas e há até parques, com brinquedos para crianças recém construídos. As árvores, plantadas adultas, são escoradas por cordas e os gramados ainda estão quadriculados, pois acabaram de ser plantados. 

Assim é a China, cria-se cidades gigantes do zero. Viajo apenas curtindo a paisagem.

Em pouco tempo chegamos em Shenzen, que é uma metrópole colada na divisa com Hong Kong. Ex colonia britânica, Hong Kong foi devolvida para a China no ano de 1997. Não faz muito tempo e me lembro bem de quando isso aconteceu. Naquela época, a gente ainda achava que a China era um país pobre e Hong Kong era um simbolo de modernidade com seus arranha céus. Nesta viagem, pude ver que o resto da China se igualou ou ultrapassou Hong Kong daquela época.

O trem parou na estação de Shenzen, deixou alguns passageiros e depois rumou de volta até entrar num túnel. São mais de 30 km que o trem percorre por baixo da terra e inclusive a estação é subterrânea, tipo um metrô.

Como Hong Kong, mesmo pertencendo à China, ainda é um território autônomo, na própria estação há controle de migrações onde precisamos mostrar passaporte. Não sei porque uma oficial encanou com o meu visto chinês e me mandou para uma salinha para averiguação. Ela ficou olhando meu passaporte com lupa e depois me liberou. O que aconteceu? Eu não sei.


Assim que sai da migração e cheguei na estação já aproveitei para trocar dólares de Hong Kong. Sim, este território tem moeda própria (impresso pelo HSBC, que significa Hong Kong Shangai Bank Company), tem código de telefone próprio e até mesmo simbolo de internet próprio. Só não carimbam seu passaporte.

Quando saí da estação subterrânea e cheguei na superfície, estava desorientado. Não sabia de onde tinha vindo e qual era a direção do centro de Kowloon, onde estava o hostel que eu havia reservado. Tive que andar aleatório até o mapa do meu celular também se orientar para eu pegar o caminho certo. Como estava em um novo país, meu chip de celular chinês não funcionava, mas ainda bem que eu tinha feito download dos mapas do google, assim naveguei off line até chegar no Hostel, que fica na rua mais famosa de Kowlong, a Nathan Street.

A primeira impressão que tive de Hong Kong foi como se eu estivesse em São Paulo, pois as duas cidades são parecidas. São duas selvas de pedra, cheias de edifícios, muita correria, transito e pouca organização.

Meu hostel ficava num edifício gigante, onde haviam vários hostels e hotéis. O térreo era um shopping do tipo galeria Pajé, cheio de indianos e paquistaneses e bugigangas. Tive dificuldade de encontrar o elevador que tinha que tomar para chegar no andar do Hostel, mas pelo menos em Hong Kong todo mundo fala inglês e assim consegui obter informações.

O hostel era bem simples. Tinha paredes com azulejos brancos e parecia uma lavanderia. Eu tinha um quarto só meu, mas ele era minusculo, só cabia a cama e minha mochila tinha que ficar embaixo dela. Ainda que tinha ar condicionado, pois Hong Kong faz calor! Deixei as coisas no quarto e fui dar umas bandas.

A primeira coisa que fiz fui fazer foi conhecer a Victoria Harbor e poder ver da costaneira a ilha de Hong Kong, onde estão os arranha céus mais famosos.

Victoria Harbour
A maior dificuldade foi conseguir atravessar a Salisburry Road. Dos dois lados da rua tem cerca e na esquina tem placas para usarmos a passagem subterrânea do metrô. No entanto, a passagem não é tão simples como da avenida paulista. Os túneis fazem curva e dentro há verdadeiros shopping’s centers. Você anda, anda e não acha a saída do outro lado da rua. Decido então voltar para a superfície e ficar esperando o sinal fechar para atravessar a rua a pé.

O trabalho foi recompensado para ver uma das paisagens urbanas mais famosas do mundo, a qual desde criança tinha curiosidade de conhecer: Uma Inglaterra na China!

A torre do relógio, resquício da antiga estação de trem inglesa de Kowloon.

Após admirar a visão, passo pelo pier e vou em direção ao um shopping onde encontro um pátio de alimentação. Dentre as várias opções, a que mais me apetece é um restaurante japonês. Aqui no Brasil restaurante japonês é caro, mas em Hong Kong tudo é caro, então tanto faz.. Gastei uns 150 reais! Em Curitiba pago menos da metade pelo menos prato. Mas ok, Hong Kong é caro mesmo.

Passei a noite andando por kowloon, visitando feirinhas, vielas e locais mais populares. No bairro há várias ruas de restaurantes com muita vida noturna e cultura. Volto para o Hotel cansado de tanto andar.

Ruas de Kowloon à noite.

Ruas populares de Kowloon à noite.

Nathan Street à noite.

Vista da Ilha de Hong Kong à noite.


O próximo dia, domingo, seria destinado inteiro para passear pela cidade. No entanto, não consigo acordar tão cedo quanto desejo devido ao cansaço acumulado dos dias anteriores. Saio às pressas na rua às 11 da manhã para conhecer o máximo possível.

Na direção ao pier para atravessar o canal de Victoria, paro num Mc Donald’s para tomar um Mc Café. Havia prometido não comer comida ocidental na China, mas como Hong Kong não é China e lás os preços estão mais para Suíça, acabo me rendendo exatamente por ser barato e ter café. Nestes meses de viagem, tanto no Nepal, quanto na China, senti muita falta de nosso delicioso cafezinho.

Com o estomago forrado, pego um barco que atravessa o canal, deixando a península de Kowloon para trás em direção à ilha de Hong Kong. Até o final da década de 1990 Kowlong era uma área mais residencial com prédios baixos. Isso por conta do aeroporto antigo da cidade, que obrigava os aviões a darem verdadeiros rasantes na cidade. Com a inauguração de um novo aeroporto, numa ilha mais distante, a lei foi alterada e hoje o prédio mais alto da cidade está em Kowloon, o International Commerce Center, que fica aliás ao lado da estação de trem.

Atravessando a baia de Vitória de ferry

O International Commercial Center (ICC), prédio mais alto de Hong Kong.

Do outro lado do canal, estão alguns dos prédios que já estiveram entre os mais altos do mundo, mas agora perderam o status devido à construção de outros arranha céus em outras cidades asiáticas. E é no centro onde estão estes edifícios onde vou parar quando desembarco na ilha.

O centro financeiro de Hong Kong é muito bonito e futurista. Como é domingo, suas ruas estão parcialmente fechadas e há muita gente fazendo pic nic, como se estivessem em um parque. Acho este costume um tanto estranho, pois eles não apenas fazem lanche, como há gente fazendo karaokê, outro imitando desfile de moda. Na maioria são pessoas asiáticas, mas no meio há alguns ocidentais. São misturas de Hong Kong.

Centro financeiro de Hong Kong

Bondes ingleses de Hong Kong.

Não perco tempo para ir direto onde queria ir: O mirante do Pico Vitória, acessado por um tipo de bondinho que tem uma fila imensa. Fazer o quê? Paciência...

A fila leva um tempão, até que chega minha vez para subir. Obviamente pagando uma taxinha não muito barata. O bondinho é bem turistão. Ele é antigo, talvez para a época quando foi construído, começo de 1900, fosse uma tecnologia avançado. Hoje é mais histórico do que qualquer coisa.

No topo do morro, no entanto, há um edifício super moderno que é um tipo de shopping center com vista panorâmica. Passo um tempão lá apenas admirando a vista e procurando pelos picos de escalada em rocha da cidade. Como Rio de Janeiro, Hong Kong é uma cidade litorânea cheia de montanhas e point’s de escalada. Claro que estes points são muito menos bonitos que no Rio, mas a vista deles para a cidade é incrível. Um deles, o Central Crag, fica bem abaixo do Pico Vitória.

Visu do mirante do Pico Vitória

Mirante por dentro.
Já estou com bastante fome, mas as opções do shopping do mirante não me atraem por causa do preço. Decido então descer o bondinho e voltar para o centro para procurar algo para comer.

Logo quando chego na baixada, dou de cara com o prédio do Banco da China, um edifício que já foi o maior da ilha e que é um marco da arquitetura. Este arranha céu, hoje pequeno, fazia parte de meu imaginário quando eu era criança. Fiquei um tempão admirando ele por baixo, era realmente surreal estar ali.

Prédio do Banco da China.

Minha barriga, no entanto, não me deixou ficar mais tempo e desci até a avenida Queensway onde peguei um bonde, daqueles de 2 andares igual ao de Londres, e fui em direção à Causeway Bay, que é um centro comercial da ilha, onde acabei comendo em um KFC (para decepção de quem achou que iria comer algo local).

Passei o resto do dia andando pela Hennessy Road, até me cansar e tomar um metrô (bem caro por sinal) de volta à Kowloon.

Fui dormir relativamente cedo, pois no dia seguinte precisei acordar às 4:30 da manhã para chegar cedo no aeroporto.

Fui à pé pela Nathan street esvaziada até a estação do expresso do aeroporto, onde dá para fazer o checkin antes mesmo de chegar lá. O trem é de ultra velocidade e mesmo a distancia sendo longa, cheguei bem cedo lá, a tempo de, novamente, tomar um Mc Café e depois partir para Shangai.
Fiz uma conexão no gigantesco aeroporto de Pudong, para chegar tarde de noite em Chengdu, dormir no saguão e tomar outro voo para Kathmandu.

Na capital nepalesa tive um dia para arrumar minhas malas e no dia seguinte voei para Dubai e enfim São Paulo, dando fim à esta interessante experiência asiática.


5 de dezembro de 2018

Xiamen a ilha da magia da China

:: Veja o post anterior
:: Acompanhar esta viagem desde o começo

De Ningbo até Xiamen são 950 Km, mas de trem de alta velocidade leva-se apenas 5 horas e 20 minutos. A viagem foi tranquila e a paisagem muita bonita, pois o interior da Província de Fujian é bastante montanhosa e há inúmeras montanhas rochosas, as quais fiquei imaginando  quanta escalada poderia se desenvolver lá.

Paisagem montanhosa de Fujian
Distraído, fico assustado quando vejo no relógio e noto que faltava menos de meia hora para chegar no destino, mas olhando no google maps do celular, vejo que ainda estava longe de Xiamen. Será que o trem é tão rápido assim? Vejo novamente o ticket e noto que o destino está marcado como XiamenBei, e não Xiamen.

Pesquiso e reparo que XiamenBei é uma estação longe do centro de Xiamen, que é uma ilha. Comparando com um caso brasileiro, seria como se Xiamen fosse a Ilha de Florianópolis e a estação onde eu iria descer fosse Palhoça ou São José. Fico preocupado.
Desço na plataforma e começo a buscar uma forma de chegar na ilha. No entanto, na própria estação vejo uma placa em inglês apontando onde fica uma estação de ônibus BRT que vai até lá. Pesquiso o mapa, vou na bilheteria e falo pelo google translator que quero ir no ultimo ponto. A cobradora então me dá um ticket e vou até a plataforma, aguardo uns 15 minutos e entro no ônibus que tem um ideograma igual ao do mapa que tenho em mãos.

O ônibus, sai da estação e vai ganhando velocidade por sua canaleta exclusiva. Vou apenas curtindo a paisagem e noto que ele passa reto em uma entrada que dizia “island”. Fico novamente preocupado. Será que peguei o ônibus errado? Pergunto a um passageiro e ele confirma, para minha tranquilidade, que estou no certo.
Vou então com minhas mochilas apenas curtindo a paisagem, notando a ponte que liga o continente à ilha, vendo as casas, os apartamentos e toda a organização da cidade, que tem uns 3,5 milhões de habitantes. A canaleta então vira um viaduto do tipo minhocão e assim vamos até a ultima estação, onde desço.
Lá caminho alguns quilômetros pela avenida até achar um táxi disponível, que não custa caro e que me leva até um hostel que havia reservado. Enfim alguém que posso falar inglês!

Xiamen a noite.

Deixo minhas mochilas no quarto e saio para curtir a cidade. Já está escurecendo e vou apenas observando o comercio e pensando no que comer. Novamente, como em outros locais da China, Xiamen tem muitos restaurantes e muita variedade. A região da cidade onde estou é cheio de vielinhas com casas típicas, mas no horizonte se destaca dois arranha céus de vidro hiper modernos.
No dia seguinte pela manhã aproveito para conhecer o templo de Mamputuo, um templo budista com arquitetura belíssima. Atrás dele há um morro cheio de trilhas, mas não arrisco ir muito longe, pois o calor dificultou minha vida. 












Meu objetivo em visitar Xiamen era visitar um fornecedor de roupas técnicas para alta montanha. Havia agendado a visita na empresa, mas desde que cheguei na China, responsável não me mandava mais e-mail. Decidi ligar, mas tocava, tocava e ninguém atendia. Assim, decidi ir até o endereço mesmo sem confirmação.

Fui até a rua Simen, que é a principal da cidade e lá, por apenas 1 Yuan tomei um ônibus em direção à região portuária, onde fica a empresa que queria visitar. Atravessei o centro da cidade e cheguei na sede da empresa, que na verdade é um condomínio de edifícios. Ligo novamente para eu contato e desta vez ele atende e vem me buscar.

Foi uma visita rápida, mas interessante.

A volta para o hotel foi em ritmo de passeio. Fiquei observando a paisagem urbana, como pode um lugar perto de porto que seja tão bonito e com paisagismo tão verde. Aproveitei para conhecer melhor o centro e no final mudei o cardápio e comi uma comida japonesa.

Xiamen é muito bonita e cheia de rochas. É uma geografia urbana interessante. Uma ilha, com praia, porto, morros, cidade antiga, cidade moderna. É uma Florianópolis mais rica, maior e mais organizada.

Fui dormir cansado após caminhar tanto. No dia seguinte iria deixar a China pra trás e ir para Hong Kong, que é uma China que não é China. Mas isso fica para o próximo capítulo...

:: Continua

Paisagismo na região do porto 









28 de novembro de 2018

Visitando Ningbo, a cidade da NatureHike

:: Veja o post anterior
:: Acompanhe esta viagem desde o começo

Era uma segunda feira, e diferente das vezes anteriores, o metrô estava lotado. Eu com minha mochila cargueira nas costas e minha mochila de ataque na frente, tive dificuldade de entrar no vagão, mas foi fácil chegar na estação de Honqiao. Esta estação é um aeroporto doméstico, estação de trem e de metrô.Então imagine o tamanho! Obviamente fiquei perdido...

Não faltava gente para perguntar, mas quem me entende?
Encontro um guarda, mostro minha passagem, ele apenas aponta uma direção. Assim, deixo o metrô e chego na estação de trem propriamente dita.

Meu dinheiro estava acabando e nos dias anteriores notei que não se acha casa de cambio na China. No entanto, como Honqiao tem o aeroporto, achei que lá conseguiriam trocar dinheiro mais fácil. Como Ningbo não é turístico, fiquei com receio de não conseguir trocar dinheiro por lá, por isso decidi trocar uma quantidade maior, 300 USD.

Achei uma central de informações turísticas. Mas como é comum na China, ninguém fala inglês. Mostro o Google translator, onde diz em chinês que quero trocar dinheiro. O atendente então pega o telefone, fala algo com alguém e me passa. Do outro lado da linha a pessoa já veio me falando sobre cambio, num inglês difícil de entender.

Ele me pergunta quanto eu quero trocar e ele diz a taxa, que não entendo bem, mas aceito. Então ele explica para eu dar o dinheiro ao atendente e esperar 5 minutos, é o que faço. Após este tempo ele vem com um bolinho cheio de notas novinhas de 100 Yuans. No entanto, eu deveria receber 200 a mais. Ele arredondou bem pra baixo a taxa. Fico puto, mas fazer o que? Tenho que descobrir como faz para pegar o trem.
Pra onde eu vou?

Vou seguindo as indicações, até chegar na entrada da estação propriamente dita. Lá tem um aparelho de raio X, igual a aeroporto, onde sou revistado. Uma vez lá dentro, há um saguão gigante com portões como em aeroporto, mas não vejo trem algum.

Em todos os portões os destinos estão escritos em ideograma e não dá pra entender nada. Apenas os números. Saio então de portão em portão comparando os ideogramas e em um deles eu vejo o mesmo horário do meu trem e o ideograma igual. Então consigo identificar que um dos números na parte superior direita é o portão. Falta descobrir o que são os outros números do bilhete. A data e hora já havia sacado. Havia um numero seguido de letra (5B) e outro numero sem nada: 6.

Ao abrir o portão e passar pela catraca, chego no trem propriamente dito e descubro que o numero sem letra é o vagão, enquanto que o que tem letra é minha poltrona. Vejam só como se descobre as coisas na China!

O Trem deixa a plataforma no exato minuto do bilhete e rapidamente vamos em direção oeste. Achava que o trem era direto, mas ele para em algumas estações, onde sobem e descem muitos passageiros. De repente, o trem aparece em uma grande cidade e olhando para o painel vejo que estamos em Hanzhou, que é uma cidade de uns 3.5 milhões de habitantes cerca de 150 km de Shangai. _Mas já! Me surpreendo com a rapidez.
Velocidade do trem
Eis que após aparecer o nome da próxima parada (Hanzhou), o painel exibe a velocidade do trem: 295km/h! Só então percebo que estamos em um trem bala!

O Trem passa por Hanzhou e outras cidades grandes e rapidamente vejo aparecer a cidade de Ningbo como próxima estação. Pego minha mochila, me preparo para sair e assim que o trem chega na estação vou para a plataforma. A estação é gigante e moderna. Vou seguindo as placas, e assim chego na bilheteria, onde desta vez consigo trocar meu ticket para a próxima viagem com muita facilidade. Deixo a estação e já estou no centro da cidade.

São quase 13 horas e o estomago me lembra que tenho fome. Em frente à estação encontro um restaurante “self service”. Lá, há um buffet onde você escolhe porções de comida. O chinês come assim, pequenas porções com diferentes pratos. Quando você está com mais gente, coloca tudo numa mesa redonda giratória e assim tem acesso a todas as porções, como se fossem petiscos. Lá foi minha refeição mais barata da China, apenas 18 Yuans! Que bom que são cidades não turísticas.

Do restaurante vou caminhando até o hotel que reservei pela internet. É um tipo de um Holiday Inn, hotel pré fabricado com paredes de Dry Wall, mas confortáveis e bem equipados. O melhor é que custou só R$90.00. Mais barato que o hostel de Shangai.

Estava cansado. Tomei banho e desperdicei a tarde caindo no sono. Acordei no fim da tarde para caçar algo de comer e andar pela cidade. Novamente como em um restaurante barato e saio caminhar. Sem querer encontro um lago, o qual em sua margem há um belo parque e um museu. Afinal, a cidade tem mais de 1000 anos!
Estação de trem de Ningbo

Ningbo a noite.



Ningbo, no entanto, não parece ser antiga. As avenidas são largas, os prédios modernos. Há duas linhas de metrô e exceto pelo museu não vejo nada na arquitetura tradicional chinesa.
Por e-mail combino com meu contato na NatureHike como será a visita no dia seguinte. A NatureHike é uma empresa que faz equipamentos de camping. Há 2 anos importamos estes equipamentos e eles tem feito muito sucesso no Brasil dado seu preço acessível e qualidade de material. Mal via a hora de conhecer a empresa.

No dia seguinte, acordei cedo e fui tomar café. Nada de pães e ovos mexidos. O que achei foi noodles, sopa e outras coisas que nada pareciam com café da manhã.

Às 9 horas chega na porta do hotel um rapaz sorridente. Seu nome ocidental era Duchamp. Adotar nomes ocidentais para negócios é uma pratica comum na China, pois muitos nome são difíceis de pronunciar.

Entramos numa minivan e percorrendo uma auto pista fomos deixando o centro da cidade de lado. Enquanto ia conversando com Duchamp, ia percebendo a paisagem, com muitos edifícios industriais e condomínios de apartamentos. A via elevado, tipo um minhocão moderno, era cheio de floreiras na lateral. Duchamp, por sua vez, se interessava pelo Brasil e pergunta coisas sobre nossa atual situação política. Tive que explicar que nosso momento político não era dos melhores e que inclusive isso estava influenciando no câmbio. Daí não podermos trazer mais produtos em nossa importação.

O carro deixou a auto pista e entramos no bairro. Com avenidas largas e quarteirões grandes repletos de empresas pelos dois lados. Logo o carro imbica um destes edifícios empresariais logísticos e vejo a logo da NatureHike.
Como a empresa é nova e vive uma grande ascensão. O escritório estava em reforma , mas era muito bonito, com paredes de vidro, sala de reuniões e sala de recreação com mesa de ping pong e sinuca. Havia até um cachorro lá, que não gostou muito de mim. Eles nitidamente eram influenciados pelo google way of work.

Enfim conheci a Helen, com quem já havia trocado centenas de emails. Era uma mulher simpática e sorridente. Ela me levou ao show room, onde pude conhecer alguns produtos novos da marca, dentre eles uma nova barraca de 4 estações que havia flagrado no Manaslu. Era um protótipo, não estava a venda ainda. Achei bem interessante.
Com a Helen

A visita durou a tarde inteira, onde tocamos vários pontos, inclusive no desenvolvimento e aprimoramento de alguns produtos. Tudo anotado pela Helen. 


Mesmo sendo muito bacana, no final de tudo estava muito cansado e fui levado a um hotel que reservei mais próximo da empresa, onde tomei banho e descansei um pouco. No entanto, não ia perde a chance de conhecer mais outra cidade e sai para caminhar.

Estava longe do centro, mas perto do hotel havia um outro centrinho. Um quarteirão com lojas e no meio dele um patio de alimentação cheio de restaurantes. No entanto, como Ningbo não é turístico, sua cozinha era bem chinesa. Alguns restaurantes eram de noodles (macarrão), havia outros com muitos pratos com frutos do mar. Alguns inclusive com aquários que mostravam os peixes e crustáceos vivos antes de serem abatidos. Tinha food trucks com algumas coisas fritas e uma única pizzaria. Escolhi um restaurante onde comi um pato e um refogado de legumes com cerveja Harbin, aguada pra caramba.

Na volta, encontrei um local onde se alugam bicicletas por aplicativo e consegui desbloquear uma e dar uma voltinha, mas logo voltei para o hotel. Onde fiquei até adormecer conversando com a Maria.
Acordei tarde no dia seguinte. Afinal, estava bem cansado. Fiquei relando na cama até enviar um e-mail para Helen, me “convidando” a voltar lá para gravarmos vídeos. Ela respondeu e logo mais apareceu o motorista para me buscar.
Show room da NatureHike


Mal cheguei na empresa e havia um meeting com outros distribuidores chineses e fomos a um restaurante todos juntos, onde almocei com o dono da empresa e sua mulher. Comi pra caramba! Entre algumas coisas, o peixe Tofu e um caramujo. Além de um crustáceo que nunca tinha visto antes. Na volta, fiz os vídeos e cansado novamente voltei no fim da tarde para o hotel. Infelizmente chovia bastante e não me animei para passear mais com a bicicleta do aplicativo. Deixei tudo pronto, pois no dia seguinte iria novamente andar de trem. Mais uns 800 km de trem.

:: Continua

2 de novembro de 2018

Zhujiajiao, a Veneza da China

:: Veja o post anterior
:: Acompanhe esta viagem desde o começo

Cansado dos dias anteriores, levando tarde, ajudado pelo fato que ninguém dividiu o quarto comigo.
Deixo o hotel apressado e dirijo-me ao metrô, onde compro o ticket para uma das estações mais distantes da rede. Zhujiajiao, localizada uns 60 km do centro de Shangai. Troco de trem da linha 7 para a linha 2 e na estação de trem de Honqiao, onde no dia seguinte continuaria minha viagem até Ningbo, pego a nova linha 17, que ficou pronto neste ano de 2018.

O metrô no começo é subterrâneo, mas após afastar-se do centro urbano ele emerge na superfície e posso pela primeira vez ver como é o subúrbio de Shangai. Pequenas vilas com sobrados grandes ao lado de canais se repetem aos montes entremeados por campos de arroz. Novos condomínios gigantes, com centenas de apartamentos surgem do lado, interligados por avenidas espaçosas e bem equipadas com canaletas de ônibus e ciclovias. São cidades completas criadas em meses com parques, fábricas e agora estação de metrô. Não vejo pobreza, não há favela. Tudo é planejado e moderno.

Em cerca de uma hora o trem chega na estação de Zhujiajiao, que é a penúltima da linha e quase todos saem na estação. No lado de fora, um lago com um jardim bem ornamentado e cheios de carpas compõem o paisagismo.

Caminho numa avenida arborizada e florida apenas seguindo a multidão. Atravesso a avenida e pego uma perpendicular, que apesar de seguir o mesmo paisagismo, tem um comercio mais simples, com borracharia, lojas de ferragens e mercadinhos.

Após caminhar por cerca de 1 km, chego em um centro comercial e apenas seguindo a multidão chego em um local com lojas ornamentadas no estilo arquitetônico tradicional chinês. Paro em um restaurante, onde peço um Pato com molho agridoce e um tipo de teppaniaki com lula, mariscos e outros frutos do mar. Estava ótimo!

Após o almoço, continuo caminhando pela rua exclusiva de pedestres e chego em um canal que é cruzado por uma ponte de pedra. Há uma grande multidão e na ponte, guardas falam no microfone algo que não entendo. Pelo tom e pelos apitos concluo que não permitem que as pessoas parem na ponte, pois o tráfego de gente acaba ficando todo congestionado.

Ruinha estreita
Após cruzar a ponte, chegamos numa ilhota, onde as partes de trás das casas são voltadas para o canal e na parte da frente há lojinhas e restaurantes vendendo os mais diversos tipos de comidas exóticas. A rua, que deve ter no máximo 3 metros de largura é congestionada.

Dobrando uma esquina, a ruinha acaba se tornando uma marginal que circula um dos canais, onde avisto pela primeira vez gôndolas. Os canoeiros, com chapéus triangulares, estilo Vietnam, navegam com turistas chineses pelos canaizinhos. É uma perfeita Veneza, mas com arquitetura completamente oriental.

Não me resta opção senão observar. Restaurantes há aos montes. Servem caranguejo, lagosta e outros crustáceos. Não é barato. Um café custa custa mais de 20 reais, um sorvete também. Fico com um refrigerante de 5, para refrescar a garganta do calor que faz.

No entanto a Veneza chinesa não é totalmente histórica. A ruinha que serpenteia o rio é cruzada por uma avenida moderna. Várias outras ruinhas terminam em estacionamentos e por um tempo fico procurando a Zhujiaojiao original, que encontro voltado pela primeira ponte que cruzei e sigo paralelo ao canal. Lá encontro templos e outras pontes finamente ornamentadas.

Gondolas de Zhujiaojiao.
Comidas chinesas

Comidas chinesas

Uma das pontes de Zhujiaojiao


Uma das pontes de Zhujiaojiao
Canais de Zhujiaojiao





Canais de Zhujiaojiao

Canais de Zhujiaojiao


Modelo com roupas tradicionais.


Canais de Zhujiaojiao

Arquitetura tradicional.


Em Zhujiaojiao encontrei escorpião para comer. No entanto isso não é comum na China. É mais para turista ver.

Jogo do Shangai em seu belo estádio.

Zhujiajiao tem 1700 anos! Porém sua parte antiga é pequena se comparado à Veneza italiana e no meio da tarde já sinto vontade de voltar à Shangai. No entanto, como há tempo e o Marcos Costa, escalador teresopolitano que morou na China por mais de 10 anos, apareceu online no meu Facebook, resolvo perguntar onde há em Shangai uma loja de equipamentos de montanha. Ele me passa o endereço e eu decido fazer uma espionagem industrial.

Acabo comprando o bilhete do metro para ir para a Sanfo, em outra parte da cidade, na frente do maior estádio da cidade. A loja de equipamentos de montanha me surpreendeu pelos preços altíssimos. Até pretendia comprar uma calça, mas pagar R$1.000,00 me afugentou. Por outro lado me levou de volta à frente do estádio, onde havia uma concentração de torcedores com camisetas vermelhas. Um cambista me ofereceu um ingresso por 100 maos, achei o preço razoável e comprei. Vou assistir um jogo do Shangai, time onde joga Oscar (aquele que marcou o único gol brasileiro no 7x1 em 2014), Hulk, Elkerson e o argentino Conca, que jogou no Fluminense.

O Estádio era impressionante. Dentro dele tem um ginásio de escalada! No entanto, aproveitei o banco mais para descansar do que para ver o jogo. Como era noite e dia no Brasil, pude conversar com várias pessoas, mas deixei o estadio antes do fim, para não chegar muito tarde no Hostel. O jogo terminou em 5x0 para o time local, que com o resultado passou para a liderança do campeonato chinês.

O dia seguinte prometia. Iria pela primeira vez fazer uma viagem de trem pela China. Percorrendo cerca de 400 Km até a cidade de Ningbo, onde fica a sede da NatureHike, empresa de equipamentos de montanhismo e trekking a qual temos grande parceria. Melhor não acordar tarde!

:: Continua