Blog do Pedro Hauck

18 de agosto de 2015

Minha segunda vez no cume do Illimani



Dizem que o Illimani é o "guardião de La Paz", mas na minha primeira ida àquela montanha, num distante ano de 2002, não encontrei a paz, pelo menos com o tempo atmosférico. Em minha tentativa de alcançar o cume peguei uma tormenta forte e vivi uma odisseia, descendo dos 6 mil metros até a La Paz fugindo da chuva.

Na segunda vez que estive ali, em 2009, havia nevado bastante e a rota estava interrompida. Acabou que eu e o Maximo abrimos caminho com neve até o joelho e alcançamos o cume pela primeira vez numa manhã de muito vento.

Seis anos se passaram e eis que estamos por lá novamente, desta vez guiando uma pequena expedição composta por mim e o Maximo como guias e a Paulinha Kapp e a Ângela Santos.

O caminho até a montanha continuava fascinante como sempre, como relatei anteriormente
Chegamos ao acampamento base sem percalços, num dia calmo como um dia de uma caminhada trivial e montamos nosso acampamento com o privilégio de desfrutar um belo por do sol com a cidade de La Paz no horizonte sendo guardada pelo Illimani. Era tão belo o cenário que fizemos nosso jantar fora da barraca, suportando o leve frios dos 4300 metros de altitude.

O guardião pela manhã faz sombra no acampamento base, o que dificulta um pouco os planos de subida. A ascensão do acampamento base até o acampamento alto é de 1100 metros de desnível e na minha opinião é a parte mais difícil da escalada do Illimani. Dá preguiça deixar a confortável base com seu gramado e começar a subida, mas logo cedo chega nosso carregador, que havíamos contratado no dia anterior com seus ajudantes, no caso suas filhas adolescentes!

Os carregadores do Illimani são as pessoas que moram na aldeia de Pinaya. Como o local é pequeno eles acabam recrutando as mulheres e os mais jovens. É meio chocante ver as meninas carregando peso. É um tapa na cara que mostra como nós da cidade somos uns "tanga frouxa", pois apesar de ser uma cena que leva à interpretação de que estamos "explorando" eles, na verdade estes índios que moram na montanha já estão acostumados a caminhar e carregar tudo nas costas. As estradas ali são recentes e carregar peso já faz parte da história deles antes da chegada do homem branco. Hoje, com o montanhismo, isso se tornou uma fonte de renda inimaginável para eles. 

Na saída do acampamento tomei o mesmo caminho que fiz nas ultimas vezes e acabei me deparando com uma dificuldade, houve um deslizamento que dificultou a passagem num certo trecho, o que forçou os locais a abrirem outra trilha, a qual acabamos encontrando depois de passar pelo trecho arruinado. 

O resto do caminho continua igual. Após uma forte pendente em zig zag subimos numa crista rochosa de Ardósia, com a clivagem formando escadinhas que nem sempre dão uma boa sensação de segurança. É um trecho exposto e cansativo, onde chegamos a pegar um pouco de neve de uma tormenta que se aproximou da montanha mas depois desapareceu deixando um horizonte livre onde pudemos observar o Sajama com os Payachatas no horizonte, assim como o resto das montanhas da Cordilheira Real.

A noite foi estrelada e não muito fria. Despertamos no horário e começamos nossa marcha rumo ao cume. O gelo no começo tinha um pouco de penitentes, mas diferente das outras vezes que estive por ali, o tempo estava excelente! 

No entanto, logo no começo a Ângela, que dividia a corda comigo se cansou. Fiz de tudo para incentiva-la, mas ela decidiu desistir e meus argumentos não funcionaram contra sua vontade de retornar. Acabei descendo com ela até o acampamento e dentro da barraca ela me deu o aval de subir para ajudar o Maximo e a Paula.

Tirei minha jaqueta de pluma e apertei o ritmo, já era 7 da manhã, um horário tardio para o cume, no entanto com um ritmo mais forte, fui me juntar à eles por volta dos 6200 metros, um pouco antes da grande greta do Illimani, que cruzamos por uma ponte segura sem grandes dificuldades e assim pudemos engatar na crista final, fazendo cume por volta do meio dia.

Do telefone satelital ligamos para o Brasil informando o cume, despejamos as cinzas do Parofes e comemoramos aquele dia incrível na montanha.

O Illimani pra mim é uma montanha fenomenal. Não é tão fácil, mas também não é difícil e ela é uma montanha linda tanto de ser ver de longe, como em todas as vistas dela quando se está lá. Minha terceira vez em suas encostas, o segundo cume, mas a certeza que voltarei mais vezes.

Indo para o acampamento base do Illimani 
Pôr do sol no acampamento base do Illimani

Local do acampamento base do Illimani.

Subida até a crista do Illimani

Na crista do Illimani 
Acampamento alto do Illimani

Acampamento alto do Illimani, Huayna Potosi no fundo. 
Grande rampa final do Illimani com trilha diagonal que ficou muito boa nesta temporada. Fácil e segura.
Chegando na crista final.
Condições da greta do Illimani neste ano de 2015.
Paula chegando na crista do Illimani
Galgando os metros finais do Illimani.
Na crista final do Illimani.

Maximo e Paula Kapp no cume do Illimani.

Maximo e Paula Kapp no cume do Illimani.

Pedro Hauck no cume do Illimani

Cume do Illimani
Cume do Illimani
Jogando as cinzas do Parofes no cume do Illimani

8 de agosto de 2015

Chegando no Illimani


Como em 2009, eu não poderia perder a oportunidade de descrever o fantástico caminho até o Illimani, que para mim é a mais bela montanha da Bolívia. A estrada até a base desta montanha, de apenas 60km, dá um toque especial para que esta montanha seja especial.

Vamos lá, o Illimani é considerado o guardião de La Paz, por ser visto de qualquer canto da capital boliviana. É uma impressionante montanha de 6 mil metros com pelo menos 4 cumes muito perto da cidade. Tão perto e tão longe...

Para chegar em sua base é necessário cruzar uma região muito dissecada por rios que nascem nas montanhas e no altiplano que contornam a montanha num emaranhado de vales profundos com vertentes muito inclinadas que são serpenteadas por estradinhas de terra com precipícios para cima e para baixo. Nem sempre cabem dois carros na estrada, então é bom contar com o baixo tráfego para evitar colisão frontal.

Caminho do Illimani, passando pelo Cañon de Palca

Rochas sedimentares no Cañon de Palca, rumo ao Illimani.

Erosão nos tilitos do Cañon de Palca. 

Vales e mais vales no caminho ao Illimani.

Estradinha perigosa

Buzine para passar.

A estradinha e o Illimani. Cuidado com curvas

Precipicio para cima e para baixo. Tem coragem de dirigir?

Apesar deste cenário bastante assustador, é uma região muito povoada por índios que vivem em estágio semi primitivo em aldeias e cidades minúsculas, mas presentes em todos os lados, as vezes penduradas em precipícios e sem estradas de acesso. Eles ainda falam o Aymará, são agricultores e pastores por excelência. Eles vestem suas roupas tradicionais e não se misturaram com os europeu e tudo isso faz parte dos encantos do Illimani, uma viagem que é muito mais que 60 km no espaço. É quase uma viagem ao tempo, saindo de hoje para uma época muito anterior a nossa.

Desta vez eu não tive o prazer e a preocupação de dirigir nestas estradinhas poeirentas. Fomos com uma van privada até a aldeia de Pinaya, o local mais próximo do Illimani. Na primeira vez que estive ali, em 2002, não conseguimos chegar em carro. Paramos em Unna e fomos à pé. Minha segunda vez vim com minha Ecosport e cheguei em Pinaya. Deixei o carro na mão de uma índia velha que cuidou direitinho, ela não falava nada de espanhol!

Neste ano as coisas melhoraram muito. A estrada, mesmo estreita, está bem melhor. Há até uma ponte para atravessar o rio pedregoso antes da aldeia. Ao chegar na dita cuja, uma surpresa, uma bandinha e toda a comunidade Kolla estava de festa, pois haviam inaugurado um serviço de transporte publico entre Pinaya e La Paz.

Os índios fizeram um circulo e os motoristas do sindicato Trans Illimani foram cumprimentando todos os moradores. Houve discurso, em aymará, e depois houve tribuna livre. Foi muito interessante ver Pinaya saindo do isolamento em 2015.

Após a inusitada experiência, acertamos um porteio de equipamentos com um burro e começamos a caminhar rumo ao campo base. Um caminho de subida não muito íngreme e muito bonito, por onde passamos pelas casas dos índios, feitas de adobe, como há 500 anos. Cruzamos com senhoras pastoreando ovelhas e lhamas, em cenários que só é possível saber que estamos numa era pós Cristóvão Colombo pois num quintal de um sitio havia um eucalipto.

Vans no novo serviço La Paz x Pinaya
Saindo do isolamento: Bandinha recepciona motoristas em Pinaya.
Indo para o base

Casinhas de adobe igual há 500 anos atrás. Só os eucaliptos é que são de hoje.
Paula, Maximo e Angela, parceiros nesta empreitada.

2 de agosto de 2015

16 brasileiros no cume no Huayna Potosi, incluindo eu


Sim, foi este total de gente no cume de uma das montanhas mais desejadas dos Andes. Um numero que me deixou muito feliz orgulhoso, pois foram nossos alunos colocando em prática o que ensinamos ao longo destes 10 dias intensos.

Esta história começa com nossa ascensão ao acampamento alto da montanha, um caminhada que começa aos 4700 e termina aos 5300 metros, num refúgio exclusivo à nossa equipe. 

Como sempre nem tudo começa a mil maravilhas. Alguns alunos passaram mal na subida e chegaram lá muito cansados e com saturação muito baixa. Medicamos e ficamos na espera por melhoras, mas no meio da madrugada, na correria de aprontar tudo e subir eles não tiveram força ou animo de continuar. Fomos em 17 alunos, eu e o Maximo como guias e os assistentes bolivianos.

Na minha cordada fui com Felipe Magazoni e Willliams Oliveira, que foram meus alunos do curso de escalada em rocha e por lá já estão independentes, escalando sozinhos. Foi uma honra também ensinar a eles este mundo novo do gelo e da alta montanha.

Saímos às 1:30 da madrugada, num passo lento e contínuo que nosso amigo argentino Diego "Coco" Calabro chama de "Jamon y Queso". 

Após uma travessia diagonal longa começamos uma subida mais acentuada que começa ao lado de uma greta. Ali, o Williams parou por conta de sua forte tosse, que de tão forte o fez vomitar.

Ficamos ao lado da rota deixando as outras cordadas passar e fomos encontra-los mais tarde em campo argentino, onde outras cordadas, de expedições estrangeiras, nos passavam com velocidade. Hidratamos, comemos um chocolate congelado e continuamos rumo à Pala Chica.

"Pala" é um trecho mais vertical de escalada. Embora este primeiro escalão do Huayna tenha este nome "pequeno", ali é um gargalo. No ano passado muitas pessoas ficaram ali esperando e começaram a sentir frio e voltaram.

Ao chegar neste local nos deparamos com dezenas de pessoas esperando sua vez de subir. Eu fiquei muito bravo com alguns franceses que vieram atrás furando o caminho e passaram na nossa frente atropelando a todos, sem a mínima educação.

Quando entramos na Pala Chica, não perdemos tempo e rapidamente escalamos aquele trecho, parando para descansar no alto, onde me senti mais confiante por ter vencido aquele gargalo num horário ainda cedo.

A vantagem no tempo, no entanto, se tornou um contra tempo. O frio da madrugada aos poucos foi sugando a energia de todos, principalmente do Felipe que era o mais magro. Paramos algumas vezes para descansar, mas parar no frio da madrugada é muito custoso, pois a gente começa a congelar.
Por volta das seis da manhã o Felipe começou a pedir para desistir. Paramos um pouco mais e eu insisti para que ele continuasse, pois sabia que ao amanhecer um novo dia e novo animo nos dá energia que falta para chegar ao topo. No entanto o sol não vinha nunca, a madrugada parecia interminável. 

Numa destas paradas fomos alcançados pela Angela Santos e Marcos Cruz, que estavam com o guia Celestino. Acho que a reunião com outros companheiros foi fundamental para que Felipe desistisse da idéia de voltar. O sol nasceu para alegria de todos e começamos a subir a "Pala Grande", o trecho final de ascensão que neste ano não é pela estreita crista que tanto assustam os montanhistas.

Fizemos esta subida no passo Jamon y Queso, passando pelas cordadas que desciam, dentre eles nossos colegas, que deram o incentivo final para alcançarmos o cume. Chegamos lá com ele totalmente vazio e um solzinho tênue de uma bela manhã de inverno boliviano. Pouco depois de fazermos cume, tivemos a companhia de Juan levando mais três colegas: Rafael Penna, Jeni Valentin e Tatiana Batalha. Reunimos todos ali em cima para celebrar o bom resultado do curso.

De 19 alunos que subiram ao campo alto, 15 fizeram cume. No total foram 16 brasileiros, incluindo eu mais o Maximo, que é argentino. Talvez tenha sido um recorde tantos brasileiros num cume de montanha de altitude num único dia. Tenho orgulho de ter participado disso. Claro que não foram só eles. Também levei o Parofes em pó para o cume e lá soltei suas cinzas. Imediatamente a montanha deu sinal de vida e formou-se uma enorme avalanche perto de onde estávamos.

Alunos cruzam a represa de Zongo para começar a aproximação ao Acampamento Alto do Huayna Potosi.

Aproximação ao Acampamento alto do Huayna Potosi

Subida ao campo alto do Huayna

Subida ao campo alto do Huayna

Carregador

Represa de Zongo e Charquini.

Subida ao acampamento alto.

Maximo no refúgio alto.

Chegando ao acampamento alto.

Claudia Bento

Rafael e Felipe.

Antonio e Tiago.

Billy

Refúgio alto, 5300 metros.

Esperando o amanhecer.

Primeiros raios de sol.

Pala Grande antes do sol nascer.

Williams no cume.

Piolet de Parofes no cume.

Williams e eu no cume do Huayma

O estreito cume.

Vista para a cordilheira Real.
Parte do grupo no cume.